A bacalhoada da Gorete.
Saí para comprar frutas e legumes e deixei o carro afastado da loja de hortifruti, estacionado numa rua residencial pouco movimentada. Antes disso, porém, lembrei-me da promoção de leite no supermercado próximo de onde eu me encontrava, e cujo desconto era tentador. Peguei uma bolsa de compras sobre o banco traseiro do carro e decidi: primeiro garantir o leite; na volta, escolher os legumes e verduras pra levar. Saí determinado e, no caminho, deparei-me, seguindo à minha frente, com uma linda anatomia já velha conhecida - a Gorete, amiga de longa data. Apressei o passo e, assim que a alcancei, ela me fitou os olhos, identificou-me, estendeu seu rosto para um beijo amigo na face e eu a abracei; trocamos rapidamente um afago passageiro e seguimos caminhando juntos. Imediatamente, informei que, ao vê-la por trás, eu a havia reconhecido de pronto. E ela disse:
- Pela bunda, já sei.
- Sim, também! confesso, mas antes precisava me garantir não se tratar de outra pessoa, por isso acelerei o passo ao invés de chamar, respondi.
- Tá tudo bem com você? perguntou-me.
- Sim! E você, animada para o Natal?
- Por acaso, estou. Este ano decidi preparar uma bacalhoada que há muito desejo comer.
- É mesmo?
- Verdade! Já garanti o ingrediente, carnudo, vou retirar o sal, cortar pedaços bem generosos... E foi falando, explicando, detalhando... descreveu os temperos, a marca do azeite, a temperatura do forno, tempo de cozimento, tudo enfim, sem esquecer de juntar o amor, já que era um presente para o seu próprio deleite. Eu, curioso, deixei-a falar. Ouvi tudo atento e salivando, mas sem interromper a sua receita até ela finalizar. Aí me ofereci para ir vê-la no Natal, deseja-la Boas Festas e experimentar a bacalhoada dos seus sonhos.
- Olha aqui, não começa, tá! ela disse.
E, sem o menor pudor, negou-me qualquer possibilidade de ir visitá-la. Ainda argumentei:
- Mesmo depois de lhe ouvir calado, sofrendo, tal qual acabo de fazer?
- Que ouvir calado, sofrendo, que história é essa? Do meu bacalhau não! Ninguém vai comer!
- Mas, Gorete, eu fiquei o tempo todo com água na boca te ouvindo, mudo feito uma estátua, enlevado com o seu modo de preparo, por favor.
- Não apela, não, tá. Por acaso você já viu quanto custa a posta do lombo de bacalhau na banca? Sem chance de dividi-lo com alguém! Nem se fosse a minha mãe! Que Deus a tenha.
- Ah, é assim? Prometo não falar com você durante todo o ano de 2026.
- Você não conseguirá cumprir essa promessa!
- Isso que é mulher determinada, pensei. Eu ia lhe falar que me contentaria de comer só a rabanada, mas ela foi mais rápida, deu-me um abraço delicado, três beijinhos de cortesia no rosto - de um lado e outro -, desejou-me um feliz Natal e foi-se.
Apressada, atravessou a rua e adentrou a farmácia; já eu entrei no mercado sorrindo de felicidade pelo nosso encontro inesperado.
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