Tema Acessibilidade

Diabolicamente Genial.

Esse texto não é meu, que isso fique bem claro. Chegou às minhas mãos sem a devida autoria. Por tê-lo achado interessante, publico-o aqui para compartilhar com os caros leitores do Portal. Tenho certeza de que vocês também irão gostar.

Separação amigável...

Ela passou o primeiro dia empacotando todos os seus pertences em caixas, engradados e malas. No segundo dia, os homens da transportadora fizeram a sua mudança. No terceiro dia, na sala de jantar, pôs pra tocar uma música suave e se aproximou da bela mesa, puxou uma das cadeiras de espaldar acolchoado e se sentou. À luz de velas ela sorvia um Chardonnay e saboreava petisco de camarão besuntado no caviar. Examinou a sala com olhar atento e, quando a música terminou, levantou-se tranquila e arrumou a cadeira em volta da mesa, delicadamente. Aproximou-se da janela e, valendo-se de uma escada, colocou cascas de camarão recheadas com caviar na cavidade oca do varal das cortinas, em cada um deles, um a um, nos vários aposentos, todos, começando pela sala de jantar. Por fim limpou a cozinha e partiu, sem olhar para trás.

Quando o ex-marido chegou com a namorada e ocupou o imóvel, tudo estava perfeito nos primeiros dias. Pouco a pouco, no decorrer da semana, a casa começou a cheirar mal. Para se livrar do odor desagradável os dois tentaram de tudo: limparam, lavaram e arejaram as dependências; os tapetes foram submetidos a uma limpeza a vapor; todas as aberturas de ventilação foram verificadas a procura de possíveis ratos mortos; cápsulas de desodorante foram colocadas nos vários recintos para melhorar o ar ambiente... Ainda na luta contra o fedor insalubre que piorava a cada dia, uma empresa de dedetização fora contratada para executar serviço completo no edifício e, por causa dos produtos químicos utilizados pelos operários, o casal foi obrigado a se ausentar por alguns dias. De volta ao lar constataram que o cheiro nauseabundo continuava impregnado em todos os cômodos. Finalmente substituíram o caríssimo carpete de lã. Foi mais uma tentativa fracassada. O cheiro fétido parecia entranhado nas paredes. A empregada começou a sofrer náuseas, demitiu-se. Alguns consertos e pequenos reparos necessários na manutenção da propriedade deixaram de ser feitos devido ao péssimo odor de coisa podre que exalava ao redor. Os operários da empresa contratada recusaram-se a trabalhar em meio ao cheiro nocivo. Amigos e parentes não vinham mais visitar o casal...

Sem conseguir descobrir a fonte do aroma deletério que contaminou a construção, patrimônio tão bem conservado, eles decidiram colocá-la à venda e se mudar; já estava impossível de respirar o ar no interior do imóvel. Um mês depois, apesar de terem reduzido o valor cobrado inicialmente pela metade, não apareceu ninguém disposto a tirar proveito da pechincha e ficar com a casa fedorenta. A notícia se espalhou, por isso, nem mesmo os corretores locais tiveram interesse em intermediar a negociação daquela residência. Sem desistir da venda o casal foi ao banco e financiou a compra de uma morada nova.

Curiosa, mas sem demonstrar seus sentimentos, a esposa ligou para o ex-marido. Queria saber das novidades no seu novo relacionamento e da vida no velho domicílio. Como pretexto para a ligação voluntariosa informou que estava previsto ser julgado, em poucos dias, o processo de separação deles dois, em andamento na justiça. Perguntou se ele estava ciente. Ele não desconfiou de suas intenções e respondeu que sim. Inocente, prolongou a conversa informando que estava de mudança, mas não expôs seus motivos e omitiu os problemas. Ela sabia de tudo; nem era preciso comentar. Deliberadamente serena disse que sentia muita saudade do seu antigo lar – único bem excluído da demanda judicial por motivos jurídicos. Gostaria de ficar com o prédio, de poder voltar a morar na velha casa e, para isso, estava disposta a fazer permuta com alguns dos bens que lhe caberiam na partilha, desde que houvesse interesse mútuo. Convencido de que ela não tinha conhecimento do cheiro insalubre que infectou a residência, transformando-a em uma habitação inabitável, ele estipulou o valor do imóvel em 1/3 do valor de mercado e propôs-lhe a compra, com uma condição: a partilha de bens continuaria em processo separado, sem alteração, e a transação da moradia deveria ser efetivada naquele mesmo dia.

O preço estipulado era praticamente uma doação, irrecusável. Mantendo a postura impassível de sempre ela evitou questionar o motivo da bagatela e concordou de imediato. Em poucas horas de negociação já estava de posse dos documentos corretamente datados, devidamente assinados, irrevogavelmente registrados em cartório. Doravante, a casa lhe pertencia exclusivamente.

Uma semana depois, o homem e sua namorada, ambos com um sorriso malicioso no rosto, assistem aos operários encarregados de fazerem a mudança, empacotarem todos os móveis e utensílios que lhe couberam na partilha. Bens que estavam sendo levados para compor a mobília e decorar a mais nova e linda residência do novo casal, inclusive os varais das cortinas, TODOS.

********* ' ' ' ' ' *********

PS: Se você, que acabou de ler essa narrativa, souber o nome da autora ou do autor desse texto, informe-o no comentário logo abaixo. Terei enorme prazer em fazer a justiça devida e dar o mérito a quem de direito.

ESCRITO POR Dilucas 1.63 M leituras
80 textos
Direitos Autorais

© 2025. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.

±500 leituras
Classificação de conteúdo:
Seguro

Publicado
Atualizado
Denunciar conteúdo
Este conteúdo foi publicado por um autor da plataforma e é de sua responsabilidade. Ele deve respeitar a Política de Conteúdo do Portal Escritores. Caso identifique alguma violação, utilize o Fale Conosco.

Comentários


Mais textos deste autor

Humor

Mulher pelada.

Acabo de voltar da rua e parei aqui para relatar um fato inusitado de que fui vítima. Saí para ir à farmácia,... [Continue lendo.]
Publicado
Ensaios

Dinheiro

Nada mais prazeroso do que gastar dinheiro, você já reparou isso? Durante uma compra a gente esquece de tudo,... [Continue lendo.]
Publicado
Crônicas

Meu xodó.

Nestas linhas mal traçadas falo aqui do meu xodó, um pé de acerola que cultivei por muitos anos em frente a varanda... [Continue lendo.]
Publicado