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Pão de manteiga.

Ainda sob a influência da pandemia.

Caro leitor, lembra da Regina e da Ivani, funcionárias numa padaria na minha crônica 'Sem Papas na Língua'? Pois bem, há dias que por lá seu Hélio não aparecia, desde quando, na sua casa, optaram por comer somente o pão de forma integral; e este ele só compra no mercado, porque é onde encontra outros itens da sua preferência além de preços mais baratos, lógico.

Agora à tarde, porém, lembrou-se do pãozinho de manteiga macio, gostosíssimo, cobiçado por todos, que ele aprecia de verdade e que, só lá, na panificadora onde elas trabalham, tem para vender; detalhe importante, com uma única fornada ao dia, nas primeiras horas da manhã. Ele retornava da farmácia e, ao passar em frente do estabelecimento, decidiu parar o carro. Quando chegou à porta da loja, diante do rol de gente que aguardava o pão francês sair quentinho do forno, percebeu que era o único sem máscara, esqueceu-a no carro. Sem querer voltar ao veículo, ou melhor, antes de retornar exclusivamente para resgatar a dita cuja e então ocupar o último lugar na fila, ele, afastado da galera, encostou-se no balcão que começa no início da loja e forma um L ao fundo, só para perguntar se, naquela hora da tarde ainda tinha do pão de manteiga para vender.

A Regina, que logo o viu e de longe o saldou, disse, num tom alto, mas sem gritar:
- Seu Hélio, há dias que o senhor não aparece; ao que devemos o prazer da sua visita?

- Regina, querida, o pessoal do telemarketing anda bombando; o do banco, o da internet, das operadoras... todos ligam ao tempo e a hora para me oferecer alguma coisa...

- Desculpe, não entendi o que o senhor quis dizer.

- É que o telemarketing de vocês, parece, é o único que não quer saber de mim; nunca faz convite para eu vir à loja ou sequer liga para informar que o pão de manteiga acabou de sair quentinho. Por acaso tem dele pra eu levar?

Ela foi a única que riu um sorriso contido, muito por conta da resposta que tinha para lhe dar; os outros foram menos discretos e gracejaram de verdade, todos, principalmente os consumidores que aguardavam atendimento.

- Seu Hélio, infelizmente já acabou. Só amanha de manhã sairá outra remessa.

- Tudo bem, Regina, ainda não vai ser dessa vez que ficaremos de mal; pode esperar que eu volto.

No fim das contas ele alegrou a turma, mas foi embora desapontado. Não tinha do pão de manteiga; o cesto estava vazio, completamente; ela fez questão de mostrar.

Você ficou com água na boca?

Ele também.

ESCRITO POR Dilucas 1.63 M leituras
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