Setembro Amarelo: Quando a Humanização Vira Teatro.
Setembro Amarelo: Quando a Humanização Vira Teatro
Por Glycia Cibelle
Enquanto a saúde mental for tratada como evento e não como processo, continuaremos pintando paredes de amarelo e gerenciando o sofrimento no escuro.
Vivemos um Setembro Amarelo encenado.
Pinta-se a fachada, penduram-se balões, lotam-se auditórios para palestras. Deseja-se bom dia nos corredores. Cumpre-se o calendário. E, no entanto, a humanização que importa não acontece.
Como falar em prevenção ao suicídio sem indicadores? Como uma instituição que se propõe a cuidar da saúde mental da população pode se dar ao luxo de não saber sobre a saúde mental de quem cuida?
Quantos colaboradores fazem uso de psicotrópicos? Quantos estão em acompanhamento psicológico ou psiquiátrico? Quantos abandonaram o tratamento por exaustão, por falta de tempo, por medo de retaliação ou por perseguição velada? Quase ninguém sabe responder. E quando não se mede, não se cuida. Se gerencia no escuro.
Fala-se em valorização da vida, mas nega-se o mínimo: dois minutos de escuta genuína.
Nos bastidores, o serviço é sustentado por quem está na ponta. E quando esse profissional enxerga as falhas e aponta caminhos, a verdade costuma incomodar mais do que a própria falha. É um roteiro que se repete: quando esse olhar crítico expõe a fragilidade do sistema, o problema deixa de ser a falha e passa a ser quem apontou.
Que campanha é esta em que os laços aumentam e os índices também?
O suicídio no Brasil mais que dobrou em três décadas, segundo dados do Ministério da Saúde. O número segue crescendo. Não é por falta de laços amarelos. É por excesso de encenação e falta de coragem para enfrentar o que adoece.
O problema central é que transformamos um processo em evento. Individualizamos um sofrimento que é organizacional. Responsabilizamos o trabalhador pelo seu adoecimento, mas não responsabilizamos o ambiente de trabalho que o produz.
Humanizar não é dar bom dia, estender a mão ou sorrir no corredor. Isso é educação, é o básico do convívio. Humanizar está muito além.
Humanizar é ter coragem de parar dois minutos e perguntar "como você está de verdade?" e ficar para ouvir a resposta. É garantir que a pessoa possa dizer "não estou bem" sem medo de ser punida, perseguida ou taxada como fraca. É transformar discurso em dado, e dado em cuidado.
É fácil falar de Brasil. Difícil é responder no seu território: secretário de saúde, você sabe quantos colaboradores do seu município fazem uso de psicotrópico? Coordenador, você sabe quantos do seu setor estão em acompanhamento, quantos abandonaram, quantos estão em sofrimento e com medo de falar?
Enquanto não houver coragem para fazer essas perguntas, todo o resto é teatro.
Humanizar não é decorar o corredor. É parar para ouvir.
Glycia Cibelle
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