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"Faça eles gostarem de você"

Estava frio e escuro na coxia, as pessoas começavam a chegar e o frio na barriga também. As horas voavam, o texto decorado na última hora se perdia em meio a tantos pensamentos. "O nascimento de um sonho... A morte de outro". Estava quase na hora. Arrumei alguns fios de cabelo e me posicionei no meio do palco, ouvi as pessoas começarem a ficar em silêncio. Comecei a rezar, (o que ultimamente eu achava uma grande tolice). O produtor deu um sinal para que as cortinas abrissem e o show começasse; Olhei de um lado para o outro, novamente estava sozinha. No escuro.  

As cortinas já mostravam metade do meu corpo, faltava pouco para eu ser totalmente exposta. A única vontade era sair correndo. Já não lembrava o texto, provavelmente era apenas o primeiro pânico. Dez segundinhos e tudo teria passado. É... não passou. As pessoas olhavam para mim, eu olhava para elas. Rostos conhecidos sentavam na primeira fila e esperavam por minha atuação. Abria a boca, mas as palavras pareciam se perder no caminho. Todas as falas, gestos e desejos de mostrar meu verdadeiro eu tinham sumido e a platéia tinha começado novamente, a falar sobre a minha vida, quais seriam as minhas palavras e os meus gestos. De novo havia perdido a chance de mostrar as pessoas quem eu realmente era. Um novo ato começara e mais uma vez eu havia perdido a chance de ser a protagonista. 

As cortinas se fechavam... Meu cérebro se revoltava e formava um grande não na garganta que era sufocado pelo medo. A nova guerra estava começando; O produtor já riscava meu nome sentado em sua cadeira bem confortável como se já soubesse que o final seria aquele. Fiquei ali, parada. A coxia roubava o meu personagem e juntava com as almas de todos os outros que alguma vez passara por ali. Não me movi um centímetro. Pensava, pensava e pensava. E num impulso, rompi a barreira levando comigo aquele personagem. O diretor olhou para mim assustado e depois riu, balançou a cabeça como se dissesse "É isso aí". Mas quando as cortinas estavam atrás de mim já era tarde demais e a plateia já havia partido.  

 

___Ruana Lins

ESCRITO POR Ruana Lins 27 K leituras
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