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Memórias

Desde pequeno, ouvi narrativas dos mais velhos acerca dos mistérios que circundam o nosso Rio São Francisco, o Velho Chico. São narrativas que povoam o imaginário de uma parcela dos moradores da cidade e que são contadas aos mais novos através da oralidade. Essa literatura oral é tão rica e fascinante quanto à escrita porque também persiste no tempo e atravessa gerações. Na minha época de colegial, eu lia livros de história que retratavam as Grandes Navegações e os perigos do mar e ficava imaginando as sensações, pensamentos e visões presentes naqueles momentos. Em uma dessas leituras, lembro de ter visto algo sobre a crença de muitos navegadores na existência de monstros marinhos, sereias e afins… Aqui, na cidade, uma história que povoa o imaginário popular é a do Nêgo D'água. O meu avô que era pescador, certa vez, contou-me o dia que viu, bem diante de seus olhos, uma criatura bastante estranha.

Certo dia, segundo o meu avô, ele e outros amigos inventaram de sair à noite para pescar e beber. Estava tudo tranquilo até que ouviram um som estranho vindo do rio. Parecia uma voz de homem, porém, estava tão baixa que soava como um sussurro. Eles ficaram quietos, sisudos, tentando ouvir melhor e entender o que era aquilo. De repente, uma gargalhada alta e forte ecoou do fundo do rio. Era Nêgo D'água! Surgiu das profundezas do rio e com suas gargalhadas assustou ele e os amigos. Parecia gente, mas não era. Tinha um perfil esquisito, era careca e tinha pés e mãos de pato. Sem fazer cerimônia, a criatura pediu uma dose de cachaça e um peixe. Os pescadores não pensaram duas vezes e atenderam ao pedido de Nêgo D'água. Em seguida, a criatura ordenou que os pescadores fossem embora dali. Depois desse dia, meu avô nunca mais voltou ao rio à noite. Quando ouvi essa narrativa, eu só me lembrei das aulas de história e das lendas marítimas. Eu não sei se meu avô viu ou pensou que viu, só sei que ele sabia contar estórias e eu adorava ouvi-las.

O Nêgo D'água faz parte da história de vida não só dele, mas também de outras pessoas. Para uns, é símbolo de proteção do rio. Para outros, é uma criatura estranha que causa medo. No entanto, a simbologia desse ser se faz presente até os dias atuais. Em Juazeiro, Bahia, a lenda é tão conhecida que até existe uma escultura de 12 metros do Nêgo D'água, que serve de referência para saber se o rio está cheio ou raso. Isso é fruto da imaginação de um povo e reforça o poder da arte em nossa vida. Sem imaginação, não existiria arte nem literatura. Sem ela, não seríamos nada… Ainda hoje, quando escuto falar do Nêgo D'água ou vejo a escultura no rio, eu me lembro do meu querido avô pescador e o imagino dizendo que a estátua é exatamente igual ao ser que ele viu bem diante de seus olhos.

ESCRITO POR Ruan Vieira 5 K leituras
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