PRECONCEITO LINGUÍSTICO OU SOCIAL?
Ainda hoje há aqueles que tratam a língua como um objeto à parte, que tem vida própria, esquecendo-se de considerar os indivíduos que a utilizam. Para que uma língua exista, é preciso que existam os seus falantes. Muitas línguas indígenas, por exemplo, morreram com os seus falantes, ao longo do tempo, outras sobreviveram e ainda estão ativas, pois ainda há falantes que se utilizam dessa língua. Apesar de Ferdinand de Saussure, linguista genebrino, focar os seus estudos no sistema linguístico e fazer pouco caso dos indivíduos, ele dizia que a linguagem possui duas faces e que ambas se correspondem e uma não vale senão pela outra. Ou seja, subentende-se que há sim uma certa relação entre o falante e sua língua, já que o falante, a partir da fala, vai se remeter à língua, vai pôr em prática a sua capacidade de se utilizar dela. A partir do uso individual de cada um - e vale destacar que cada falante tem um modo particular de fala - é que surge no meio social formas variadas de comunicação, dizeres ou expressões comuns a um ou a um grupo de indivíduos de determinado lugar. Neste ponto de variação da fala e de um modo particular que cada indivíduo tem de fazer uso de sua língua, surge um certo preconceito que não é só linguístico, mas também social.
O Brasil é um país multirracial e diverso, não só em raça ou cultura, mas também em língua e em variações linguísticas. Pessoas que moram na zona rural não falam como as que moram na zona urbana e dentro da própria zona urbana se encontram variações de fala. Fatores como o geográfico e o social evidenciam essas variações. Porém, apesar de hoje já se ter esse conhecimento, o preconceito ainda persiste e cada vez ganha mais força. Alguns sulistas, por exemplo, têm preconceito para com os nordestinos. Mas esse preconceito não é só em relação aos aspectos fonético-fonológicos, mas também porque se refere aos nordestinos, em um ponto de vista também social e até socioeconômico, não apenas linguístico. Pessoas de classe alta que gozam da oportunidade de usufruir de uma boa educação e se tornam letradas têm preconceito para com os analfabetos. Partindo de um olhar para o grau de escolaridade ou nível de alfabetização, o preconceito ganha mais força quando se trata de um pobre. Um indivíduo de classe alta ou média que comete erros gramaticais passa despercebido, mas um pobre que comete, por exemplo, os mesmos erros que esse indivíduo, é tachado de usuário "incompetente da língua". Muitas das vezes o que importa não é o que se fala, mas quem fala. É de quem está partindo a fala. Logo, comparando um rico e um pobre numa situação comunicativa, certamente, o preconceito se dirige para o último, e os elogios e prestígio para o primeiro.
De acordo com o linguista britânico James Milroy: "Numa época em que a discriminação em termos de raça, cor, religião ou sexo não é publicamente aceitável, o último baluarte da discriminação social explícita continuará a ser o uso que uma pessoa faz da língua". Há um certo sentimento de superioridade da parte dos letrados em relação aos menos letrados. Isso se dá por conta do pensamento de que há um jeito certo de falar e que para se falar corretamente é só a partir da gramática. Esse pensamento evidencia uma confusão que até hoje muito se faz entre língua e gramática. É comum que enxerguem na norma o guia para a língua. Todavia, é o contrário, a língua é quem guia a gramática. Um pobre que mora na zona rural ou urbana e que não frequentou a escola, não deixa de ser um usuário da língua. Ele pouco teve ou não teve acesso a gramática, mas ainda assim consegue construir frases e orações com sujeito, verbos, predicado, complemento etc. Há elementos morfológicos e sintáticos presentes em sua fala. Porém, isso não é levado em conta e uma pessoa analfabeta tem menos prestígio que uma letrada. O que muito se olha não é o que se fala, mas quem fala.
A sociedade alimenta os preconceitos, seja de raça, gênero, como também o linguístico e o social. Contudo, até mesmo o analfabeto não deixa de ter uma relação com a língua. Ela está em atividade tanto na fala de um erudito quanto na fala de um analfabeto. Ela faz parte de cada indivíduo. O preconceituoso não tem essa concepção, ele também não leva em conta a história de nosso país, a miscigenação presente, as desigualdades sociais também pertinentes e as variações linguísticas recorrentes. Este assunto é só mais um assunto de escola que não tem importância que apesar de estar presente no ensino em sala de aula, pouco se dá atenção. Ainda hoje, em alguns casos, não se tem um ensino que vá de encontro ao preconceito e aos mitos. Pelo contrário, o ensino ainda é arcaico e influencia na criação de mitos e de preconceitos. Por isso, é preciso uma reformulação geral na sociedade, no ensino e principalmente na mente de cada pessoa. É urgente um ensino sedimentado no respeito que leve em conta a realidade de cada aluno e que estimule a formação de cidadãos pensantes e capacitados para adaptar os usos da língua em contextos sociais diferentes.
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