A fake-news da professora.
Escrito ainda sob a incidência da covid-19, em 2021.
O verão, essa estação do ano que estamos vivendo, é terrível para os pobres cariocas, porque o Sol parece estacionar sobre a cidade e não há sombra que dê conta de amenizar a quentura que atua feito estufa, ou melhor, feito autoclave, porque a sensação é exatamente essa, de estarmos dentro de um aparelho hermeticamente fechado cozinhando sob pressão e a alta temperatura; é sério! Ontem eu assisti na reportagem um comerciante no bairro de Bangu, aqui mesmo no Rio de Janeiro, notoriamente o bairro mais quente da cidade, em que o pobre mercador mostrou ao cinegrafista o tamanho do seu prejuízo, várias cartelas na prateleira repletas de ovos cozidos pela ação da temperatura elevada; tal fato viralizou na internet. Inacreditável para você? Mas foi real! É assombroso? Acredite ou não, aconteceu de verdade.
A cidade é do tipo baixada, rodeada de morros e montanhas, que, no verão, vira uma panela de pressão. Por conta do aquecimento global, a cada ano que passa, a situação se agrava um pouquinho mais, mais e mais. A meteorologia sempre apresenta uma justificativa para esse efeito estufa; esta semana, dizem eles, o oceano na costa da Região Sudeste está mais quentes do que o normal e há, no local, uma zona de baixa pressão puxando para o solo o ar quente da atmosfera, o que impede a aproximação de frentes frias e a formação de nuvens de chuva. Resumindo: 40 graus no termômetro com sensação de 45 na pele, ar seco, e sem previsão de chuva.
Não bastasse tudo isso, os rios que abastecem a cidade e seu entorno estão poluídos pela falta de saneamento básico, e a situação piora a qualidade da água ano a ano. Neste verão, por exemplo, estamos ao ponto de não ter o que fazer com o produto que nos chega à torneira, isto é, quando chega, a não ser molhar as plantas, lavar o chão ou dar descarga na privada, porque, nem para dar banho no cachorro serve. Para beber, então, só comprando galão de água no mercado; do contrário, fica sem beber, inteiramente com sede, não tem outro jeito. Dizem os técnicos da Cedae, a companhia de abastecimento, que é efeito da geosmina; seja lá o que for, o líquido é sujo, tem gosto horrível e cheiro medonho. Um inferno na vida do carioca, já imaginou?
Devido à pandemia, as praias do Rio estão proibidas para banho; apesar da interdição e em função da temperatura elevada, muita gente ignora a doença da covid-19, desconsidera o isolamento social, invade a areia e se aglomera; não é o meu caso. Embora eu pertença ao grupo de risco, minha preocupação maior é com a minha coroa que convive comigo; sua idade é bem mais avançada e ela tem problemas de saúde. Há dez meses que vivemos no nosso recanto sem a visita de parentes nem de amigos. Quando precisamos sair de casa, só de máscara na cara, sem o quê, nem ousamos nos aventurar de ir à rua.
Vez por outra, sinto muito desejo de tomar um bom banho de mar; o impedimento me fez lembrar, outro dia, do meu tempo de estudante, quando ainda ia para a escola de calças curtas, lá pelos idos do antigo primário; foi naquela época, por sua vez, que a professora da quarta ou quinta série, não sei ao certo em qual das duas, nos ensinou que o nosso planeta gira. E eu acreditei, aprendi e passei de ano junto com meus colegas, tudo perfeito. Justo agora, depois de tanto tempo e em plena pandemia, pensei com meus botões, contrapondo certa dúvida: se a Terra gira de fato, como muito bem aprendi no passado, a praia deverá passar por aqui na minha porta a qualquer momento; e, por conta desse pensamento, fiz plantão desde a manhã até o final da tarde, sentado na varanda, à espreita. Pensou de verdade que a praia passou na minha porta, leitor? Absolutamente não! Senti-me tão enganado pela fake-news da professora que nem tive coragem de tomar banho. Mas também não tinha água mesmo. Pobre de nós, cariocas: muito Sol e nenhum motivo para comemorar.
© 2025. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.
Classificação de conteúdo:
Publicado
Atualizado

Comentários