Os moços tocam
Arantes – O espírito feudal, exploratório, reina nos piratas das finanças, que saqueiam e festejam.
Marques – E a concentração de renda é cada vez mais escandalosa. Mas, evidentemente, os piratas ilusionistas justificam religiosamente tudo que eles tiram da cartola.
Arantes – Se eu fosse desenhar um símbolo para o neoliberalismo, eu desenharia uma sofisticada nave espacial viajando para o passado.
Marques – A partir de 2016, durante o governo Michel Temer, ouvimos muito a expressão "volta ao passado" e realmente o governo dele foi nessa direção. E o governo sucessor, acelerou ainda mais a velocidade da máquina do tempo rumo ao passado.
Gabriel – Além disso, os operadores dessa máquina do tempo intensificaram, a partir de 2019, o uso de dinamites para destruir as estruturas que estavam no caminho das águas que correm para o mar.
Arantes – Essa é a cara neoliberal, essa é a face que está por baixo dos disfarces com os quais ele se apresenta.
Marques – Os ataques a tudo que possa contribuir para desacelerar a passagem das águas que correm para o mar sempre fizeram parte do espírito neoliberal. Faz parte desse espírito sempre tentar derreter tudo que dificulte, minimamente que seja, a passagem dessas águas.
Arantes – "O derretimento dos sólidos levou à progressiva libertação da economia de seus tradicionais embaraços políticos, éticos e culturais" (BAUMAN, 2001, p. 11).
Gusmão – A economia está longe de se libertar do jugo dos políticos.
Arantes – Meus amigos neoliberais, é impressionante como vocês são insaciáveis.
Marques – Se os membros do "exército da salvação" são tão insaciáveis assim, imagine os proprietários desse exército.
Arantes – Ou talvez os membros sejam mais realistas que o rei.
Marques – Eu não sei como uma criatura tem coragem de dizer que a economia está longe de se libertar. Ela está com a política no bolso e com o Estado e a sociedade nas mãos.
Gabriel – No mundo neoliberal, o mercado não existe para as pessoas, elas é que existem para ele. Nessa situação "[...] o próprio caráter e sensibilidade das pessoas foi reelaborado, reformulado, de tal forma que elas se agrupam aproximadamente... com as mercadorias, experiências e sensações... cuja venda é o que dá forma e significado a suas vidas" (SEABROOK apud BAUMAN, 2001, p. 110).
Arantes – As nuvens neoliberais, carregadas de contradições, pairam sobre nossas cabeças e provocam temperaturas que destemperam a nossa alma.
Felipe – Só falta vocês dizerem que o neoliberalismo nos transforma em animais.
Arantes – Ele tem nos tornado menos virtuosos, tem deixado nossos sentidos auditivos e visuais "fora de forma" e tem tentado nos afastar de tudo que possa nos levar a pensar com autonomia.
Gabriel – No caminho que estamos indo, somos cada dia mais coisas e menos humanos. Estamos nos integrando às contradições do mercado.
Felipe – O que você chama de contradição eu chamaria de controle.
Gabriel – Por exemplo, o papel do mercado em relação ao meio ambiente, você o chamaria de controle? Dizer que está preocupado com as mudanças climáticas enquanto radicaliza o estímulo ao consumo e transforma os recursos naturais em fumaças para promover a concentração de renda é controle ou contradição?
Marques – Dizer que é socialmente responsável enquanto colhe o que não plantou e torna as condições de vida instáveis, precárias e vulneráveis é controle ou contradição?
Arantes – Dizer que promove qualidade de vida, enquanto envenena os nossos alimentos para aumentar os lucros dos acionistas, em detrimento da saúde pública, é controle ou contradição?
Gabriel – Há uns moços por aí que se vestem com o sobretudo da responsabilidade social, mas que na verdade o valor dessa imagem posta a venda é o mesmo de uma cédula de três reais.
Marques – Lembrei-me do seu José do mercadinho, ele vive a sonegar impostos, a sugar os empregados e a abusar dos consumidores. Outro dia eu comprei um produto no mercadinho dele e quando cheguei a minha casa, antes de colocar o produto na geladeira, percebi que por baixo da etiqueta, que traz o preço e a validade, havia outra etiqueta. Cuidadosamente consegui tirar a de cima. O preço na debaixo era o mesmo, mas a validade não era. Depois eu descobri que o desgraçado habitualmente vende produtos com a validade vencida. Mas no final do ano seu José enche algumas caminhonetes com cestas básicas, chama o pessoal da TV e vai fazer doações para os necessitados. Vai posar de bom samaritano para as câmeras.
Arantes – Essa hipocrisia abastece as baterias dos homens de negócio que se vestem de Papai Noel no período natalino.
Gusmão – Isso é muito comum por aqui, mas é um problema do nosso país subdesenvolvido.
Arantes – Você nunca ouviu falar em ajuda de um país desenvolvido para um país subdesenvolvido? Essa semana eu vi, no site da embaixada dos EUA no Brasil, esta afirmação: "EUA doam ao Brasil mais de R$ 100 milhões em ajuda adicional para resposta à Covid-19" (2023) Qual é a diferença entre o espírito samaritano dos ianques e o do seu José do mercadinho?
Marques – Acredito que você está sendo muito injusto com o seu José do mercadinho.
Gabriel – A hipocrisia, a contradição, o ilusionismo dos moços das finanças... fazem parte do espírito neoliberal, que nos faz ser cada vez mais, mais consumidores e menos cidadãos. Respiramos o gás neoliberal e nessa atmosfera vivemos para consumir e consumimos para ser consumidos pelos moços que dão as cartas.
Marques – Repito: "Assim, eis a espécie humana dividida em rebanhos de gado, nos quais cada um tem seu chefe, que o guarda para devorá-lo" (ROUSSEAU, 2013, p. 19).
Gabriel – Nem sei o que dizer, o consumo consumiu meu pensamento.
Arantes – Há muito o consumismo não devora apenas os recursos naturais.
Gabriel – Vivemos em um mundo no qual o espaço iluminado pelo "penso, logo existo" diminui, enquanto aumenta o espaço coberto pelas nuvens sombrias do "consumo, logo existo".
Felipe – Eu sei que a crítica de vocês é referente ao consumo excessivo, mas mesmo assim, eu creio que vocês estão sendo demasiadamente dramáticos. Essa ideia de "o consumo como razão de existir" não entra na minha cabeça.
Gabriel – O homem busca distinção desde que o mundo é mundo. Até aí, para mim, está tudo bem. O que a mim não cheira bem são os anúncios da venda de "ingressos" que dão acesso aos gloriosos símbolos distintivos, que são enfiados goela abaixo como valor supremo que dá sentido à vida, que justifica o existir.
Arantes – A busca pela distinção por meio da competência, do merecimento, está sendo tragada pela busca de distinção por meio da aquisição de produtos e serviços ou de uma imagem artificial fabricada pela mídia neoliberal. Nessa atmosfera, a honestidade, a ética, a busca pela verdade e todas as virtudes relacionadas aos princípios e valores que não são os do mercado estão sendo empalidecidos.
Gabriel – Nessas condições, a racionalidade que estimula o pensar, o amadurecer, o emancipar, é sufocada, atacada pelo espírito do "consumo, logo existo".
Gusmão – Então, Arantes, lhe cheira mal a busca de distinção por meio da aquisição de produtos e serviços?
Arantes – Negativo. De certa maneira, eu, você e quase todo mundo busca distinção por esses meios. Eu não tenho nada contra o consumo, apenas não sou movido por ele, não é ele que dá sentido a minha vida. A crítica, aqui, não é ao consumo, é aos excessos em torno dele, é à overdose, ao consumismo. São esses excessos que empalidecem todos os valores que não sejam os do mercado.
Marques – A sensação que eu tenho é que hoje, para muita gente por aí, a realização não está em fazer alguma coisa, em ter algum mérito; ela está nos efeitos do consumo.
Gusmão – Você está no mundo da lua? Não existe essa de os efeitos do consumo fazerem alguém se sentir realizado!
Felipe – Talvez os ébrios ou os consumidores de alucinógenos se sintam realizados enquanto duram os efeitos das substâncias consumidas, mas não os lúcidos, os consumidores que impulsionam o mercado.
Marques – Que bom seria que a falta de lucidez fosse um problema apenas dos que se encontrem sob o efeito de alguma substância.
Arantes – Outro dia eu vi um vizinho do Gusmão (o Clóvis) dizer para o primo dele: você não pode deixar de ter um carro, no mínimo, assim, assim, assim... você trabalha pra quê?
Marques – Você trabalha pra quê? Essa desgraça eu também já ouvi.
Arantes – Você trabalha pra quê? Você não pode deixar de tomar tal cerveja, de beber tal vinho, de comprar tal roupa, de morar em tal bairro, de não fazer uma viajem para tal lugar, de não visitar tal restaurante... você trabalha pra quê?
Gabriel – Para o Lúcifer incorporado no "você trabalha pra quê?" sempre cabe mais no seu salário.
Marques – Viver com essa faca no pescoço é o que eu chamo de ser consumido pelo consumo.
Gusmão – Senhores críticos do consumo, vocês trabalham para outra coisa que não seja para o consumo?
Gabriel – Já dissemos que não estamos criticando o consumo, a crítica é referente aos excessos que nos tornam humanos menores, que nos embriagam, nos hipnotizam; que fazem a gente ficar mais tempo de passageiro do que de motorista dessa nossa máquina inigualável, dotada de cinco sentidos, autodefesa e poder de criação.
Marques – A máquina do tempo consumista embrulha o presente e o pretérito para transformar a máquina inigualável em uma ovelha que segue o rebanho tangido pelo pastor.
Arantes – O espírito consumista neoliberal nos vende a ideia de que viver para o consumo basta.
Gabriel – "[...] não haverá, no período pós-histórico, nem arte nem filosofia [...]" (FUKUYAMA apud WHEEN, 2007, p. 87).
Arantes – "A arte existe por que a vida não basta" (GULLAR, TRIBUNA DO NORTE, 2014).
Marques – Você quer dizer que a vida vivida para o consumo não basta?
Arantes – A arte, em sentido amplo, é um tempero para a vida. Mas viver para consumir não é apenas uma vida mal temperada, é uma vida esvaziada, anestesiada, roubada...
Gabriel – Essa desgraça de viver para o consumo é uma coisa. Outra coisa é trabalhar apenas para consumir – sem acumular, sem formar um patrimônio – que é a minha condição e da imensa maioria. Isso é diferente da condição daqueles que veem o consumo como algo que dá sentido à vida.
Arantes – Meu avô costumava dizer que: infelizmente, o homem vale o que tem. Hoje, olhando para o consumo excessivo, eu diria que esse "vale o que tem" está sendo substituído pelo "vale o que consome".
Felipe – Se o homem vale o que consome, então não existe o consumo excessivo, porque nessa atmosfera tudo é necessidade.
Arantes – Meu amigo, só por uma perspectiva doentia é que o consumo excessivo pode ser considerado uma necessidade.
Gabriel – Certa vez, eu vi um dos meus sobrinhos com dois celulares, um que ele tinha acabado de comprar e o outro que ele tinha comprado há três meses. Eu quis saber o que o celular que tinha acabado de sair da caixa tinha a mais que o velho de três meses que estava prestes a ser desprezado. Ele me disse que isso não tinha importância, o importante era ter em mãos o último lançamento. Eu quis saber qual era a vantagem de possuir esse último lançamento. Ele disse: ser notado, elogiado, invejado e tudo mais.
Arantes – Eu não sei se o "tudo mais" deveria receber um ponto final ou uma reticência, mas afinal o que vale o sinal no planeta aparência?
Gabriel – O consumismo e a preponderância do parecer sobre o ser são partes de uma mesma unidade. O ser ao ser suplantado pela aparência – pelo que parece, mas não é – tende a estar muito mais com a bandeira do "consumo, logo existo" do que com a do "penso, logo existo".
Marques – Às vezes, eu tenho a impressão que a gente quer que a vida, com todas as suas durezas, com todo o seu peso, seja sustentada em um mundo de aparência. Depois a gente pergunta por que a depressão é o mal do século? Por que a indústria dos antidepressivos está em festa? Por que, no período eleitoral, não conseguimos escolher bem os nossos representantes? Por que?...
Arantes – Estamos distantes de completar dezoito anos.
Felipe – Creio que hoje não faz mais sentido falar em emancipação.
Arantes – Os moços que dão as cartas não estão movendo os cordões e se divertindo enquanto a gente dança?
Felipe – Não houve, não há e nunca haverá um mundo sem manipulação, mas hoje – ao contrário de quando era válida a ideia de emancipação – as coisas estão dentro do aceitável.
Arantes – É razoável que o consumismo seja a luz dos nossos dias? É razoável que sejamos humanos menores e grandes consumidores? É razoável que a aparência nos empurre para as trevas dos porões? É razoável o ser ser suplantado pelo que parece ser, mas não é? É razoável que o porquê não venha ao caso, seja uma causa fora de pauta, bata asas e desapareça? É razoável que a ideia de que "a terra é plana" esteja nos planos de formação de algumas tribos? É razoável a debilitação do que nos difere dos outros animais? É razoável o passeio dos hipócritas tremulando as bandeiras da responsabilidade ambiental e do socialmente responsável? É razoável que não se perceba essa profunda hipocrisia desses defensores do meio ambiente e do socialmente responsável? É razoável que as nuvens de fake news estejam movendo montanhas? É razoável que as marés que trazem a realidade paralela estejam avançando cada vez mais? É razoável que filhos de Deus estejam sendo transformados em membros de um exército de zumbis? É razoável que...
Gabriel – "Foi só o sentido atribuído à emancipação sob condições passadas e não mais presentes que ficou obsoleto - não a tarefa da emancipação em si" (BAUMAN, 2001, p. 65).
Marques – O show dos ilusionistas continua. Hipnotizam o público para tirar da cartola o que eles quiserem tirar.
Gabriel – Os cavaleiros das finanças, imbuídos no espírito feudalista, que é disfarçado pelas capas da liberdade, da meritocracia e da oportunidade, só conseguem passear pela praça em cima do nosso lombo porque antes conseguiram reduzir o nosso espírito e nos transformar em cavalos mansos que seguem cegamente todos os comandos dos nobres cavaleiros que seguram as rédeas sem nem sequer amassar suas luvas brancas.
Marques – Sendo movidos pelo consumo seremos sempre cavalos mansos.
Arantes – Eu vou dizer pra vocês o que um senhor lá da minha terra – o seu Jerônimo – fazia com os trabalhadores da fazenda dele. Seu Jerônimo não pagava nem sequer o salário mínimo, não pagava nenhum direito trabalhista ou previdenciário, cobrava por tudo que os trabalhadores usavam para o trabalho (botas, luvas, foices...) e às vezes os largava depois do horário, sem jamais pagar um centavo de hora extra. Seu Jerônimo tinha um armazém de alimentos onde fazia mágica, transformava a saca de arroz de cinquenta quilos em cinquenta e cinco pacotinhos que ele jurava que eram de um quilo. Além disso, ele quase sempre errava na soma dos fiados dos trabalhadores – roubava no preço e no peso. Certo dia, inesperadamente, um dos trabalhadores resolveu insinuar que eles, os trabalhadores, eram quem construíam o patrimônio de seu Jerônimo. Diante dessa insinuação, o velho avermelhou, levantou a voz, falava e gesticulava, batia na mesa... Fez um teatro desgraçado para convencer os trabalhadores que ele – o seu Jerônimo – era quem os sustentava e não o contrário.
Gusmão – Esse quadro lá do seu mundo rural não tem nada a ver com o mundo civilizado da sociedade de mercado.
Marques – Sociedade de ou do mercado?
Arantes – Eu não sei qual é a diferença entre o seu Jerônimo e os cavaleiros das finanças que passeiam em nosso lombo.
Marques – Ambos juram de pés juntos que são eles quem sustentam o trabalhador.
Gabriel – Para esses moços não é a base que sustenta o topo da pirâmide, é o contrário.
Arantes – O cinismo passa por cima do Everest e do absurdo.
Felipe – Para que o mercado funcione e promova o progresso do qual todos nós nos beneficiamos "[...] é necessário que a grande maioria permaneça ignorante e pobre" (MANDEVILLE apud LOSURDO, 2006, p. 113).
Marques – Você está de brincadeira.
Arantes – Hoje ninguém mais fala uma coisa dessas.
Marques – Não fala, mas faz.
Gabriel – Não há dúvida que continuam fazendo tudo para que a "grande maioria permaneça ignorante e pobre".
Arantes – Eles fazem o tempo todo. Não existe neoliberalismo sem o cultivo da ignorância e expansão da pobreza. Mas não mais defendem isso abertamente.
Gabriel – Todo mundo sabe que as águas correm para o mar. Mas as máquinas neoliberais querem muito mais. O mar é pouco, o sufoco da maioria ainda é pouco. As máquinas não param de remover o que encontram pela frente para deixar o caminho livre para escoar até as últimas gotas de suor e sangue do trabalhador.
Arantes – Os deuses neoliberais agem para manter o pobre na pobreza e para afastar os olhos estatais das mãos que controlam os capitais. Eu olho para o esquema que nos imprensa e fico a imaginar qual seria o limite dessa máquina de imprensar.
Marques – Os fiéis dessa religião são insaciáveis, eles não querem nem ouvir falar em limites.
Gabriel – A população dos que precisam de assistência dá uma dimensão da indecência.
Felipe – Seria pior se não houvesse tantos neoliberais por aí contribuindo para combater a fome.
Marques – Hipócritas! Como combater a fome sem tocar nas causas que impulsionam essa caravela?
Arantes – Isso é impressionante. Algum "fato social", alguma força que não vem da lei, mas que é lei, impede que no combate à fome haja apetite para falar das causas da combatida.
Gabriel – "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista"(CÂMARA, DCM, 2023).
Arantes – As causas da fome comem tudo que falta ao homem.
Marques – As causas não vêm ao caso. As coisas não se casam, são soltas, vêm do nada. As causas não estão em casa, voam nas asas de um disco voador guiado por um homem tocado por um único valor.
Felipe – Buscar as causas que desencadeiam outras causas não solucionaria nada, só traria desordem e mais problemas.
Marques – Os que combatem a fome escondendo as causas dessa vergonha, nunca quiseram nem querem combater porra nenhuma.
Gabriel – Como vão querer que a matéria-prima de suas indústrias desapareça?
Arantes – Lembrei-me que o meu avô falava muito sobre a indústria da seca. Hoje eu vejo a alma da indústria da seca no que a gente pode chamar de indústria da pobreza. Porque a pobreza é para a máquina neoliberal parte da energia que a faz funcionar. Eu duvido que os arquitetos do neoliberalismo tenham um plano para que essa máquina funcione sem triturar o pobre.
Marques – Não têm, nem querem.
Arantes – Para mim, no neoliberalismo, a evolução é apenas para os disfarces, a face do modelo não evolui, a essência não muda.
Marques – O carvão da termoelétrica neoliberal não é vegetal nem mineral, é animal.
Gusmão – Só na cabeça de vocês que a pobreza é utilizada para produzir riqueza. Ela sempre foi problema, nunca serviu pra nada.
Marques – Olha, até o Felipe, está rindo do seu lapso de memória.
Arantes – Ao longo da história da Humanidade, a escravidão e tantas outras formas de exploração têm sido os meios utilizados para produzir riqueza para uma minoria.
Felipe – Claro que se usa a pobreza para gerar riqueza, mas esse não é um traço neoliberal, isso sempre existiu.
Marques – Sim, é claro que a maioria ser explorada pela minoria é algo que sempre existiu. Mas também é claro que o neoliberalismo sistematizou essa exploração.
Arantes – Não surgiu a partir dele, evidentemente, mas hoje ela tem a cara dele: uma representação do espírito feudal disfarçada pela máscara da meritocracia.
Gusmão – No barco que estamos nunca houve espaço para todo mundo e é natural e necessário que seja assim.
Marques – Suponho que as causas de o barco não caber todo mundo não vêm ao caso, analisá-las seria subversivo, causaria prejuízo ao bom andamento do barco que nos leva para algum lugar que não precisamos saber, pois somos passageiros que devem confiar cegamente nos pilotos.
Arantes – Não sei como é possível que se advogue que as maldades que aí estão são naturais e necessárias.
Gabriel – Nas últimas décadas os espaços para a maioria têm diminuído porque uma minoria insaciável tem abarcado tudo.
Gusmão – As coisas não funcionam melhor porque o Estado atrapalha.
Marques – Você ainda tem coragem de falar isso?
Arantes – O Estado é, cada vez mais, um preposto dos moços que dão as cartas.
Marques – Às vezes, eu vejo o Estado como um assistente de palco dos ilusionistas.
Arantes – Ele é utilizado para viabilizar a festa dos mágicos.
Felipe – É claro que o mercado pressiona o Estado, mas isso não é suficiente para que se possa afirmar que o mercado o controla.
Gabriel – Não controla? O mercado é um trem dirigido pelos ilusionistas e não pela vontade dos consumidores ou de qualquer outra força relacionada à maioria. E nenhum governo democrático resiste se quiser sobrepor os interesses do povo aos dos maquinistas desse trem.
Marques – Então, como é que os moços que controlam o trem não controlam o Estado?
Gusmão – Isso que vocês chamam de controle é apenas um meio para promover o progresso, uma liberdade para empreender com segurança.
Gabriel – A liberdade neoliberal aprisiona a maioria.
Marques – E dá asas aos leões que estão no espírito dos moços das finanças.
Gabriel – O deixa fazer, deixa circular, sempre foi um mecanismo para disfarçar o espírito colonizador e escravizador dos que o patrocinam.
Arantes – Ele é a promoção do selvagerismo disfarçada de promoção da liberdade econômica.
Gabriel – Eu não sei se é promoção de selvagerismos ou de massacres. Imagine uma guerra entre um exército com armas modernas e um povo armado com paus e pedras; e que vença o melhor! A história nos mostra que há muitos registros de massacres. E, em nossos dias, os massacres disfarçados de promoção do livre comércio continuam. O neoliberalismo é essa covardia, é esse "e que vença o melhor" em uma disputa na qual uns estão com armas modernas e outros com paus e pedras.
Marques – Viva ao neoliberalismo! Tornemos o nosso mercado uma fazenda sem porteira e deixemos os patrões negociarem com os trabalhadores, nada de leis trabalhistas. Deixemos a iniciativa privada tomar conta da previdência; morte à previdência social. Deixemos os recursos naturais nas mãos equânimes do mercado, rasguemos os artigos da Constituição que dizem que determinados recursos naturais nos pertencem. Deixemos que os grandes acionistas e especuladores tomem conta do banco central, os juros altos e outros mecanismos nos sufocam, mas é para o bom funcionamento do mercado. Deixemos que a iniciativa privada cuide do interesse público. Deixemos de ser, pertençamos ao ter.
Arantes – Não é por acaso que cresce a concentração de poder.
Felipe – Que conversa é essa? Vivemos na era da descentralização.
Arantes – Mas a descentralização que existe é a relacionada à produção de alguma coisa. Para os poderosos que não produzem nada, mas ficam com quase tudo, não há descentralização. O poder é muito concentrado nas mãos de poucos.
Marques – Às vezes, eu imagino o neoliberalismo como um sobretudo costurado por alfaiate, feito por encomenda, para chegar ao resultado conforme o encomendado.
Arantes – Creio que os amargos remédios neoliberais são muito eficientes para a saúde financeira dos alossauros e para deixar o caminho livre para o passeio dessas criaturas.
Gabriel – A missão do modelo é liberar as feras "[...] e submeter os governos e os cidadãos às forças econômicas e sociais assim 'liberadas'" (BOURDIEU, 2001, p. 60).
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