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As asas das serpentes

Felipe – "Fabricar consensos", voltar ao passado, papel da extrema direita, Robin Hood ao contrário... vocês falam dessas coisa levando em conta o justo ou o injusto. Mas a vida não é movida pela justiça, e sim pela necessidade.

Gusmão – "Não haverá no organismo funções repugnantes cujo funcionamento regular seja necessário à saúde individual?" (DURKHEIM, 2007, p. 12).

Felipe – Fabricar consensos é manipular, é mentir, mas é necessário para o funcionamento do organismo social, para conduzir os rebanhos pelos caminhos que levam à prosperidade. Voltar ao passado é um processo de restauração das cercas para garantir que os rebanhos não vão alcançar as áreas elevadas de onde eles possam enxergar o que não deve ser visto por eles. Quanto à extrema direita, ela também tem um papel necessário, por mais indesejada que ela seja. Ela é como uma arma que você guarda, finge que não existe, mas na hora da necessidade você faz uso desse recurso para a defesa dos seus interesses. Quando fabricar consensos e restaurar o passado forem insuficientes, é legítimo que os senhores do topo usem a extrema direita para defender os interesses deles. Quanto ao Estado ser um Robin Hood ao contrário, isso é algo absolutamente necessário para a promoção do desenvolvimento. E a iniciativa privada deve sim se apropriar do orçamento público e dos recursos naturais para poder gerar mais riqueza e ofertar mais empregos para o rebanho faminto.

Marques – Estarrecedor!

Gabriel – Felipe, eu concordo com a aplicação dessa ideia de prevalência da necessidade sobre a justiça, desde que ela seja coerente. Para que ela seja legítima é preciso que essa prevalência da necessidade seja válida para patrões e para empregados.

Felipe – Você sabe que isso não é possível!

Gabriel – Então é essa a sua virtuosa ideia de prevalência da necessidade sobre a justiça?

Arantes – O pensamento dos amigos neoliberais é sempre voltado para a preservação dos privilégios.

Gabriel – É para beneficiar uma minoria.

Marques – A imensa maioria deve ser um rebanho preso às cercas que o neoliberalismo constrói para nos desumanizar.

Arantes – Meu amigo Felipe, como são bonzinhos os moços que abocanham o orçamento público e os recursos naturais com a finalidade de gerar riqueza para todos. Só faltou você dizer que temos que esperar o bolo crescer para depois distribuir.

Gabriel – Como disse o Felipe, a extrema direita é uma arma importante para os moços que mandam. Ela ainda é capaz de vir com essa de "espere o bolo crescer pra depois distribuir". Aliás, ela é capaz de dizer qualquer coisa. E a gente não precisa puxar pela memória para chegar ao planeta mentiras. Porque o caldeirão que frita a verdade está a todo vapor. Esse caldeirão entrega para o planeta mentiras uma produção recorde. Bonnon, Trump, Bolsonaro, Orbán, Meloni, Milei... Essas peças põem lenha na fogueira que faz ferver o caldeirão que frita a verdade, que é temperada ao gosto dos patrocinadores.

Gusmão – Esse nexo entre a extrema direita e os "moços que mandam" só existe na sua cabeça. Bonnon, Trump, Bolsonaro... eles são contra o sistema. Aliás, eles declaram abertamente que lutam contra o sistema.

Marques – Puta que pariu! Os extremistas navegam na direção contrária das águas que correm para o mar? Nadam contra a maré? Daqui a pouco você diz que eles são do grupo de São Francisco de Assis.

Gabriel – Quando os extremistas saem de suas bolhas, criam asas e tomam as praças públicas, é sinal de que os moços do topo estão fazendo uso de suas forças para colocar mais pesos nos ombros de todos que estamos na base da pirâmide social. O Felipe já admitiu aqui que a extrema direita é "um recurso" preservado pelos moços que mandam, mas o Gusmão vem nos dizer que não vê nexo entre ela e os moços. E para justificar essa falta de nexo ele usa as declarações dos extremistas, agentes do mercado disfarçados de agentes públicos (Trump, Bolsonaro, Orgán, Meloni, Milei...). Não há nexo entre o que querem os moços e o que entregam os extremistas? Debilitar a previdência social não faz parte dos interesses dos moços? Passar o trator por cima dos direitos trabalhistas não faz parte dos interesses desses moços? Colocar o orçamento público nas mãos dos moços também não é favorecê-los? Colocar a Petrobrás e nossos recursos naturais no barco desses moços não é um entreguismo revoltante? Preparar o cenário para que os moços possam brincar de deuses e transformar em ouro o nosso couro também não é viabilizar a exploração?

Felipe – Digamos que vocês estejam certos até aqui. Mas a gente viu, por exemplo, nos Estados Unidos e no Brasil, como Trump e Bolsonaro brigavam com segmentos alinhadíssimos com "os moços que mandam".

Gabriel – A briga deles com a imprensa, por exemplo?

Felipe – Sim.

Gabriel – Quem foi que disse que os que servem ao mesmo deus não atacam uns aos outros? Quem disse que irmãos não se agridem?

Arantes – Não dá pra negar o nexo entre os poderosos e os "bondosos" líderes extremistas.

Gabriel – O desfile dos que fritam a verdade tem pisoteado e rasgado a razão e posto touros mecânicos no espírito de muita gente por aí.

Marques – No barco dos extremistas não cabe o porquê, porque tem que caber o touro mecânico que passeia pelos espíritos dessas criaturas.

Arantes – No circo fascista o ilusionista tira da cartola o tempo e o espaço e põe-se nos braços dos que lhe adora.

Marques – É claro que o palhaço fascista não iria longe se não houvesse, por aí, gente cortando árvores, abrindo caminhos para a serpente serpentear.

Gabriel – Árvores destruídas, espíritos enlameados, valores resumidos ao valor do mercado; fome, insegurança e outras violências. É a safra fascista. Olhando as pistas eu desejo saber como se sente os que dão corda para o passeio da serpente.

Marques – Dos hipnotizados eu nem quero falar. Os que bebem o vinho da igreja estão embriagados, não sentem nada. Os que são movidos por um único valor – em real ou em dólar – só sentem alguma coisa quando põem a mão no bolso. E o Gusmão que apoia a guerra, mas se diz de paz, eu não sei do que é capaz.

Gusmão – Não sou eu quem cria os mares de lama, se, às vezes, neles eu ponho os pés é porque acredito que preciso defender os meus interesses. Se eu acreditar que marchar ao lado de um fascista será melhor pra mim, não adianta você gastar o seu latim.

Felipe – Marques, você criou quatro categorias: os hipnotizados, os embriagados, os que respiram usura e os que não estão nas três primeiras. Nessa quarta categoria eu conheço muita gente boa que não merece ser classificada como cúmplice dos pássaros fascistas que pairam no ar.

Marques – Eu não sei como posso contribuir para o passeio do trator fascista e olhar para trás e dizer que naquela destruição não estão as minhas digitais.

Gabriel – Para mim, é claro que não dá pra contribuir para a marcha fascista e dizer que tem as mãos limpas. Mas agora eu quero me referir àqueles que mais se beneficiam da atuação dos fascistas – os moços que dão as cartas. Eu vejo o fascismo como uma máquina que funciona com a energia que está em cada um dos que respira esse ar, os componentes dessa população. Mas eles não podem ir muito longe apenas com essa energia própria. Sempre que o fascismo chega a uma posição da qual ele possa causar muitos estragos, ele está sendo abastecido e impulsionado pelos moços que dão as cartas. E a gente viu isso aqui claramente em 2018.

Felipe – E qual foi a contribuição dos "moços que dão as cartas" para o fascismo chegar ao poder no Brasil em 2018?

Gusmão – Acho que essa questão não é pra gente, deixa isso para os especialistas.

Gabriel – Talvez você esteja certo. Mas meu espírito é meio indígena. Como mostrou o professor Darcy Ribeiro, os indígenas não reconhecem essa hierarquia (ou pelo menos não reconheciam, os colonizadores podem estar devorando isso também), essa coisa de: isso é assunto para o doutor fulano ou sicrano, não para um cidadão comum como eu e você.

Marques – Não estamos fazendo ciência, estamos apenas conversando. Vamos falar do que a gente quiser.

Gabriel – Respondendo ao Felipe, os moços que dão as cartas alçaram o fascismo ao poder, em 2018, por diversos meios. Vou citar apenas dois desses meios. Um é a Operação Lava Jato que no seu moralismo seletivo, imoral, atuou para atordoar o povo, debilitar os representantes do povo e fragilizar a democracia. O outro é a mídia neoliberal, que não deixou faltar combustíveis para a carreata fascista poder desfilar e tomar conta da pista. Toda a mídia neoliberal e a Lava Jato – ambos instrumentos dos moços – contribuíram para deixar o mundo mais doente. Elas baixaram a imunidade dos corpos e deram asas aos "Cavalos de Troia" que deixaram as portas abertas para a cavalgada fascista.

Arantes – Cavalgaram e galgaram êxito porque encontraram um terreno fértil onde plantaram o que quiseram plantar. E conseguiram vender de tudo: os perigos comunistas, a destruição dos costumes, a terra é plana...

Marques – "A partir de hoje, acredito que estou agindo de acordo com a vontade do Poderoso Criador: defendendo-me contra o judeu, estou lutando pela obra de Deus" (HITLER apud FINCHELSTEIN, 2020, p. 53).

Gabriel – Sem dúvida, a desfaçatez está tatuada na alma dos extremistas.

Marques – E na alma dos piratas das finanças também.

Gusmão – Quem são esses piratas?

Marques – Pode ser quem você quiser que seja. Para mim, são os especuladores que lidam com as economias nacionais da mesma maneira que lidam com as fichas de um cassino qualquer, os grandes acionistas que põem a faca no pescoço do empresário para obrigá-lo a tirar o couro do trabalhador para que eles, os acionistas, possam colecionar casacos de pele...

Gabriel – Para mim, todos esses que buscam transformar o Estado em mero protetor dos interesses dos mais ricos são piratas das finanças ou estão a serviço deles.

Marques – Eu acredito que um dia será classificada como doentia essa face fascista que esperneia e grita insaciavelmente: menos Estado, mais mercado; menos Estado, mais mercado...

Arantes – Por você falar em doentio, eu lembro que conversei com alguns intransigentes defensores do Bolsonaro – não é bem conversei, eu quase só escutei. E quero destacar um ponto que me deixou tonto. Um ponto comum a todos os que eu tive contato: uma assombrosa dificuldade para admitir uma única falha do ídolo em questão, por mais evidente que ela seja.

Marques – Na primeira metade do século XX: "Os fascistas eram obcecados com a infalibilidade de seus líderes [...]" (FINCHELSTEIN, 2020, p. 65).

Arantes – Esse é o mundo dos mocinhos que dão as cartas. Esses poderosos quase sempre estão entre os principais responsáveis pelas causas dos quadros mais mal desenhados que existem: Obrigaram Sócrates a beber cicuta, puseram Jesus na cruz, arquitetam guerras, escravizam, matam de fome... E transformam filhos de Deus em membros de um exército de zumbis. Eles, sempre eles, com ou sem laços sanguíneos, mas sempre com os laços que preservam o espírito suíno.

Felipe – Os que "mandam" cometeram erros sim, mas isso não significa que o barco não está no caminho certo. O fato de a grande maioria trabalhar para gerar riqueza para uma minoria é absolutamente natural. Isso sempre foi assim e será. As coisas não funcionam de outro modo. Como eu já disse aqui, o mundo é movido pela necessidade e não pela justiça. Se as pessoas não tivessem necessidade, não venderiam suas forças de trabalho.

Gabriel – Você acha que é necessário sufocar da maneira que sufocam a grande maioria dos cidadãos?

Felipe – Continuo acreditando que o sistema precisa disso para funcionar.

Gabriel – Pois eu acredito que o sistema precisa é de se livrar da face fascista neoliberal, ou ao menos reduzi-la. Ser movido pela necessidade não é a mesma coisa de ser movido pelo medo. A face fascista neoliberal tem como sua moeda forte o medo. Ele é um dos principais combustíveis para essa máquina neoliberal. E o resultado disso aí está: somos cada vez mais, mais doentes. A ansiedade, a insegurança, a paranoia, o pânico e outros transtornos se alastram.

Marques – E a depressão já é considerada o mal do século, a indústria dos antidepressivos faz a festa.

Arantes – Outro dia, o Papa Francisco, ante a assombrosa nuvem da Covid-19, nos disse que: "Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente" (apud GOMES, 2020, p. 24).

ESCRITO POR Magno Ferreira 1 K leituras
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