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Touro selvagem

Gabriel – Essa ideia de que precisamos continuar esmagando as pessoas para produzir as coisas é uma maçã podre que precisa ser descartada.

Arantes – Já foram tidos como imprescindíveis: as colônias para as metrópoles, a religião para o Estado, os escravos para os senhores...

Marques – Se fôssemos esperar que a evolução social fosse promovida pela boa vontade dos moços conservadores, não existiria o sufrágio universal, não se falaria em democracia; não existiriam direitos iguais nem na imaginação de uma criança, não existiria a busca pela harmonia social nem absolutamente nada que traga consigo a promoção da verdade.

Felipe – O neoliberalismo vem de uma raiz opositora ao conservadorismo!

Marques – É claro. Mas hoje ele é muito mais descendente dos conservadores do que dos liberais.

Arantes – O neoliberalismo nos oferece um mundo onde somos livres para caminhar por todos os caminhos neoliberais.

Gabriel – Caminhos nos quais o "penso, logo existo" é uma agressão a Jesus Cristo.

Marques – Domar o animal político é uma forma de poder colocar o cabresto, a viseira de burro... e tocar as esporas no animal para definir o ritmo e o roteiro da viagem.

Arantes – Para mim, é evidente que o neoliberalismo tem um quê de fascismo.

Marques – Não vamos esquecer que sempre que o fascismo voa alto ele está sendo abastecido pelos moços do topo da pirâmide. Por exemplo: "O sucesso de Trump teve por base a formação de uma coalizão com a comunidade empresarial [...]" (STIGLITZ, 2020, p. 38).

Gabriel – E isso não foi muito diferente em outras épocas. A essência dessa parceria entre fascismo e finanças é praticamente a mesma.

Arantes – No passado: "[...] os fascistas só chegaram ao poder por causa do apoio de uma ampla aliança conservadora que incluía a comunidade empresarial" (STIGLITZ, 2020, p. 38).

Felipe – Acho que vocês têm sido ácidos em demasia. Vocês estão falando de um modelo que tem promovido prosperidade. E o quadro que vocês desenham do modelo neoliberal é de um mero mecanismo para os grupos dominantes. Ou pior ainda, como se ele fosse a praia perfeita para os radicais das finanças acionarem as forças fascistas e massacrarem os trabalhadores.

Arantes – Onde você viu um governo de extrema direita que não esteja com a bíblia neoliberal embaixo do braço?

Felipe – Prefiro acreditar que essa acidez de vocês é consequência do momento que vivemos. Acabamos de sair de um governo fascista. Vocês estão indignados com o que tem acontecido ultimamente. Vocês estão avaliando esse momento como se ele representasse toda a história neoliberal.

Gabriel – Se a gente colocar a mão na massa, se a gente escavar a terra para analisar as raízes do neoliberalismo, a gente vai perceber que a semente que gerou a árvore neoliberal contém um percentual de fascismo assustador.

Gusmão – Agora você viajou por fora das asas de um disco voador!

Marques – Você sabe que essa conversa é sobre o liberalismo econômico.

Gabriel – Numa rápida olhadinha para trás, a gente pode observar o show dos liberais para a diversão dos mais ricos. Esses liberais defendiam abertamente a exploração das "classes inferiores". Também defendiam o massacre dos "selvagens", a escravidão, a dizimação de populações "primitivas" para se apropriarem das riquezas dos dizimados...

Arantes – Isso é apenas uma pequena amostra do que está na raiz do neoliberalismo.

Gusmão – Gabriel, essa realidade de um passado remoto não tem nada a ver com os nossos dias.

Marques – O mundo hoje é outro, mas o espírito explorador cultivado pelos mocinhos continua o mesmo.

Gabriel – Está a todo vapor o motor que impulsiona o barco das velhas forças sombrias. Esse motor fornece energia para que os agentes dessas velhas forças sombrias possam passear e transformar o nosso meio em alguma coisa meio circo, meio hospício, em um palco apropriado para a festa dos moços que dão as cartas.

Arantes – E nesse palco os atores invisíveis fazem o show como quiser. Tocam na ponta do pé para tocar a pontapé, e por mais que toquem errado jamais o bando é culpado.

Gusmão – Não sei em que mundo você vive, porque eu vejo as pessoas serem responsabilizadas pelos erros que cometem.

Arantes – Você fala do que vê nas telas que mostram para você não ver. Diferentemente do mundo que nos mostram, no mundo por trás dos muros, das portas, das cortinas, são escondidos os espetáculos dos piratas das finanças e de outros exploradores.

Marques – Esses moços do topo são os principais responsáveis por crises como as de 1929, 2008 e outras. E esses, ao invés de pagarem pelos erros que cometem, saem ganhando. Lucram com a crise que provocam.

Arantes – Quando que os grandes piratas das finanças são responsabilizados?

Gabriel – Há pouco, o Gusmão me acusou de estar falando bobagens que não têm nada a ver com os nossos dias. Eu não sei se ele não consegue ou não quer ver que o passado está presente. O show de exploração, massacre, escravidão continua em nossos dias. Não há mais a escravidão propriamente dita, a gente não mais vê homens acorrentados ou trabalhando arrodeados de jagunços armados. Hoje os meios de coação são outros. Mas a essência dos proprietários de escravos – o enriquecer com a miséria alheia – continua.

Gusmão – Não há como comparar! Hoje há liberdade para que se possa escolher.

Gabriel – Ah! Você está se esquecendo daquela conversa com o Paulinho, o servente do seu Francisco – o pedreiro que construiu a sua casa. A vida para o seu Francisco é dura, mas para o Paulinho é ainda pior. Você, com sua sensibilidade neoliberal, teve a coragem de receitar para o rapaz aquela lá de poupar 20% do salário que ele recebe. O seu Francisco disse que quem trabalha no pesado é assando e comendo, não há como fazer poupança. E o Paulinho foi além dizendo que não trabalhava para comprar comida, trabalhava para pagar a comida que comprou. Então meu amigo, os jagunços e as correntes de hoje são a fatura do cartão de crédito. Qual é a liberdade que há para o Paulinho?

Arantes – No passado, os escravos formavam a camada mais baixa da pirâmide social, hoje os que trabalham muito por quase nada morrem de medo de serem rebaixados para a categoria dos que não têm o que comer.

Marques – Podemos ver por aqui, não é preciso ir à África ou ao Haiti para enxergarmos as consequências da exploração massacrante.

Felipe – Outro dia eu ouvi um pastor dizer que o rap é música de "maloqueiro". Eu quis saber qual seria o fundamento para essa afirmação. Ele justificou com uma interrogação: você já viu um maloqueiro que não goste de rap? Mas sabemos que mesmo que fosse verdade que todos os "maloqueiros" gostam de rap, não seria verdadeiro dizer que todos que gostam de rap são "maloqueiros". Dos cinco que aqui estamos nessa conversa, dois (Arantes e Marques) gostam de rap e eu sei que os colegas não se encaixam nessa definição do pastor. Assim como o pastor, o Arantes também não foi feliz quando quis lançar o lamaçal fascista no neoliberalismo dizendo que todo governo de extrema direita se move "com a bíblia neoliberal embaixo do braço".

Arantes – Evidentemente, fascismo e neoliberalismo não são sinônimos. Mas os moços fascistas não apenas surfam em ondas neoliberais, o micróbio fascista está na raiz do neoliberalismo.

Gabriel – Para mim, os governos fascistas são e sempre foram instrumentos para que se possa aprofundar a exploração. E o que fizeram conosco de 2016 a 2022 é a nossa mais recente ilustração. O golpe de 2016, a Lava Jato – que aprofundou o colonialismo –, a reforma da Previdência Social (que apertou ainda mais os que vivem no aperto e favoreceu os favorecidos) e a reforma trabalhista (que ofende a Lei Áurea) estão entre os atos que demonstram o espírito neoliberal fascista.

Arantes – O barco da legislação trabalhista foi direcionado para o passado. E essa volta ao passado foi vendida como modernização das leis trabalhistas.

Marques – Isso é bem típico. Eles fazem restauração e dizem que estão fazendo revolução, conduzem o barco para o passado dizendo que estão indo para o futuro.

Arantes – Isso também é a cara dos agentes do mercado disfarçados de agentes públicos, de jornalistas e de outros.

Felipe – Gabriel, você acredita que as coisas podem funcionar sem essa "exploração do homem pelo homem"?

Gabriel – Você sabe que eu não acredito em outro sistema que não seja o capitalismo. E aquela ideia de que a democracia é um regime falho, mas que não inventaram outro melhor; para mim, ela se aplica também ao capitalismo. Isso, porém, não significa aceitar as ações dos piratas das finanças que conduzem o barco de uma maneira que amplia e aprofunda as falhas do sistema. A exploração existe, sempre existiu e vai existir, mas é inaceitável que ela ultrapasse certos limites.

Arantes – As lutas contra a exploração, na verdade, são lutas para reduzi-la ou torná-la aceitável ou adequá-la aos novos tempos, atualizá-la.

Marques – Quando o assunto é exploração, o Felipe e o Gusmão não têm noção de limites.

Gusmão – Essa conversa de limite é uma bobagem. Veja a cadeia alimentar: as pragas comem as plantas, as rãs comem as pragas, as cobras comem as rãs, as águias comem as cobras... É natural. É assim que funciona.

Arantes – Só você, meu amigo neoliberal, pra falar uma coisa dessas. Esse processo predatório não cabe no barco da racionalidade social. Nessa, você até se esqueceu de Montesquieu. É preciso haver limites!

Marques – Talvez o Gusmão acredite que é só o poder estatal que precisa encontrar limites.

Felipe – Claro que os excessos precisam ser combatidos, mas vocês falam de exploração como se ela fosse um problema exclusivo dos que estão na parte de baixo da pirâmide social. E não é bem assim, a imensa maioria dos cidadãos, também somos explorados, mas isso faz parte do funcionamento do sistema.

Marques – "Assim, eis a espécie humana dividida em rebanhos de gado, nos quais cada um tem seu chefe, que o guarda para devorá-lo" (ROUSSEAU, 2013, p. 19).

Arantes – É claro que os explorados não são apenas os da parte de baixo da pirâmide social, mas são esses da parte de baixo que suportam um peso maior.

Marques – Controle social, funcionamento do sistema, produção de riqueza, desenvolvimento... São alguns dos cobertores usados para encobrir os excessos exploratórios. "Sem meias palavras, o capitalismo é um sistema parasitário" (BAUMAN, 2010, p. 8).

Gabriel – Aqui ninguém nega que há falhas no sistema. Eu gosto de comparar o capitalismo com o Estado. A maior parte das falhas do Estado é resultado das ações dos agentes do mercado disfarçados de agentes públicos. Os que mandam no mercado querem transformar o Estado em um feitor, um capataz, um capitão do mato, um garantidor dos privilégios desses mocinhos. A meu ver, o mesmo se aplica ao capitalismo. As principais disfunções do capitalismo resultam do veneno neoliberal, que viabiliza o parasitismo dos piratas das finanças, que não produzem nada, mas ficam com quase tudo.

Gusmão – Pra você, quem são os piratas das finanças?

Gabriel – São os grandes rentistas, os especuladores, os moços que promovem essa vergonhosa concentração de renda, os que jogam sujo para quebrar os concorrentes e criar aglomerados que extrapolam os limites...

Marques – Esse selvagerismo neoliberal causa desemprego, fome, medo de se tornar desempregado ou faminto... Medo que nos leva a viver para pagar contas.

Gabriel – "[...] o crime 'do colarinho branco' (geralmente cometido num 'topo' extraterritorial) pode em última análise ser uma das causas principais ou secundárias da insegurança existencial [...]" (BAUMAN, 2021, p. 133).

Gusmão – Esse cenário existe devido às irresponsabilidades dos nossos políticos.

Marques – Os maiores responsáveis pelos problemas que aí estão – não são os políticos – são os piratas das finanças e outros detentores do poder econômico.

Arantes – Se a gente quiser conservar ao menos um pouquinho de honestidade intelectual, não dá pra negar que o mercado cada vez mais dá as cartas e descarta a soberania nacional. Eu não sei como alguns encontram coragem para negar que os que mais têm poder são os maiores responsáveis pela realidade que aí está.

Marques – No passado, o jogo entre Estado, sociedade e mercado não era tão desequilibrado. Mas há algum tempo, principalmente depois de Thatcher e Reagan, o mercado nos tem colocado no bolso. De certa maneira, a gente vive para o mercado, para produzir e consumir o que ele quiser que seja produzido ou consumido.

Gabriel – Outro dia eu cheguei à casa da minha irmã no momento em que a minha sobrinha lia em voz alta um trabalho escolar sobre a substituição do homem pela máquina no mercado de trabalho. Eu, minha irmã e meu sobrinho de cinco anos fomos atrapalhar a atividade escolar da menina. Ao se aproximar da filha, a minha irmã exclamou: as máquinas estão deixando as pessoas sem trabalho! O meu sobrinho disse: isso é bom, porque as pessoas podem viver sem trabalhar. Então, a minha irmã pensou que estava diante de uma oportunidade de ensinar ao filho e disse: se as pessoas não trabalharem como é que vão comprar as coisas? O menino disse: as máquinas não precisam de dinheiro, se elas fizerem o trabalho, o dinheiro fica para as pessoas!

Arantes – Uma parte dos frutos do trabalho deveria servir ao trabalhador, mas hoje só uma criança pode ser capaz de falar isso em qualquer lugar.

Gabriel – Com tanta tecnologia e tanta gente desempregada, não mais deveria ser necessário que o trabalhador enfrente 44 horas semanais para poder sobreviver. E eu nem vou falar dos que fazem horas extras ou dos que precisam trabalhar em dois ou três empregos.

Marques – Somos escravos dos moços das finanças. O neoliberalismo existe para esse fim.

Gusmão – Ah, deixa disso! Somos escravos da liberdade?

Marques – No reino neoliberal somos livres para seguirmos as linhas traçadas pelos arquitetos dessa liberdade, somos livres para dançar conforme as músicas tocadas pelos agentes dos que mandam nesse reino. Somos livres para seguir as águas que correm para o mar. Somos livres para circular no cercadinho neoliberal.

Gabriel – E os exploradores ainda conseguem nos convencer que somos os únicos culpados pelas dificuldades que enfrentamos.

Arantes – "[...] se tivermos uma corda no pescoço e alguém nos vier sorrindo negar a existência dela, acho que nos convenceremos facilmente" (RAMOS, 1984, p. 34).

Marques – Os excessos exploratórios são as principais causas dessa realidade que aí está, que nos sufoca, que provoca os desarranjos sociais que vivemos.

Felipe – Acho que vocês estão escurecendo em demasia o desenho do quadro social que estamos tentando pintar.

Marques – O quadro real não é tão feio assim? Eu creio que o amigo neoliberal deve ter algum tipo de vertigem que o impede de pôr a cabeça na janela da pirâmide social para uma olhadela para baixo.

Gabriel – As pessoas, em sua maioria, vivem sufocadas e preocupadas com o futuro. Além dos apertos do momento, há a ameaça de que o amanhã poderá ser ainda pior. Vivem com medo de não conseguir pagar as contas, de ficar para trás, de perder o trabalho, de entrar para o grupo dos que passam fome... Depois nos perguntamos por que a depressão é o mal do século, por que os mentirosos vivem do que nos mata, por que...

Gusmão – Todos nós nos beneficiamos do progresso, os efeitos colaterais fazem parte do processo, isso não pode ser motivo para atrapalhar o desenvolvimento.

Arantes – É claro que não se deve atrapalhar o progresso. Por outro lado, não podemos fingir que não vemos as ações daqueles que a pretexto de promover o progresso promovem uma exploração perversa.

Marques – Pois é, quem causa desarranjos sociais não é o progresso, e sim as maldades promovidas em nome dele.

Gusmão – Maldades em nome do progresso?

Marques – Sim. Fazem maldades em nome do progresso, de Deus, da segurança...

Gabriel – Não é de hoje que fazem maldades em nome de Deus.

Arantes – O palco para o show neoliberal é construído para viabilizar a encenação. Nele, os agentes dos mocinhos, fingindo tocar pra Deus, fazem o show para o satanás.

Marques – A mãe do "deixa fazer, deixa circular", vive a parir monstros que não podem mostrar a verdadeira face, então eles usam e abusam dos disfarces.

Gabriel – A manipulação é, sem dúvida, um dos principais mecanismos para exploração excessiva.

Arantes – Eu acredito que o neoliberalismo promove tanto parasitismo quanto o colonialismo promoveu. Ele tira de nós tanto quanto tiraram Portugal e a nossa metrópole informal, a Inglaterra.

Marques – "Roubar os recursos de nações inteiras é chamado de 'promoção do livre comércio'[...]" (BAUMAN, 2021, p. 131).

ESCRITO POR Magno Ferreira 1 K leituras
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