O Touro
Marques – Juros altos, baixos salários e as últimas reformas trabalhista e previdenciária estão entre os exemplos dessas ações exploratórias que esmagam o trabalhador para ampliar a concentração de renda.
Felipe – Olha, reformas como, as previdenciárias e trabalhistas são absolutamente necessárias para que haja uma adequação à realidade. E o atendimento aos necessitados deve observar a reserva do possível.
Gabriel – Para mim, é indecente falar em "reserva do possível" sem falar no "mínimo existencial". Sem buscar esse equilíbrio não dá para expor algo respeitável. E quanto aos remédios amargos usados nas reformas, eles podem até serem necessários, mas em relação às dosagens aplicadas eu não vejo como elas possam ser justificadas diante de um horizonte de concentração de renda e crescimento da pobreza, no qual os mais ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
Gusmão – As reformas trabalhistas visam viabilizar a ampliação dos postos de trabalho.
Felipe – Para enfrentar o problema do desemprego é fundamental que haja flexibilização das leis trabalhistas, a remoção dos entraves que desestimulam o empreendedorismo.
Arantes – Gente, essa aqui não! Aqui é só uma conversa entre a gente. Não há ninguém aqui para ser enganado.
Marques – Quem não sabe que as reformas trabalhistas e previdenciárias promovidas pelos neoliberais são para tirar do trabalhador e dar aos acionistas?
Arantes – São muitos os exemplos de que quanto mais os alossauros neoliberais ganham fôlego, mais se amplia e se aprofunda a precarização do trabalho.
Marques – O arrocho salarial, o desemprego, o subemprego e a informalidade não são uma fatalidade.
Gusmão – As pessoas aceitam salários menores porque não estão aptas para buscarem algo melhor.
Arantes – Eu fico boquiaberto com a capacidade incapaz que se alastra nos amigos neoliberais.
Marques – Às vezes, eu tenho a impressão que o Gusmão e o Felipe são capazes de falar qualquer coisa para não admitir uma única falha do neoliberalismo.
Gabriel – Olha, se eu tenho a percepção de que posso ser facilmente substituído e isso pode me jogar na fila de espera por uma nova oportunidade de emprego é evidente que eu não terei nenhuma força para negociar com o empregador.
Arantes – Essa, infelizmente, é a realidade de muitos trabalhadores por aí. Eles vivem sob ameaças. O medo do desemprego é uma assombração que os persegue.
Marques – Cartazes com a frase "a sua falta não faz falta" estão fixados nas paredes dos pressentimentos dos trabalhadores.
Arantes – Não há dúvida que: os altos índices de desemprego, a "flexibilização" das leis trabalhistas e o enfraquecimento dos sindicatos são situações que tornam o trabalhador ainda mais vulnerável.
Felipe – É claro que os patrões tiram proveito dessa situação. Mas isso faz parte do jogo. É a prevalência da lei da oferta e da procura. Se você fosse um patrão não iria tirar proveito dessa realidade?
Arantes – E se essa realidade não for uma fatalidade e sim um produto de uma ação planejada pelos que mais irão se beneficiar dessa situação?
Gabriel – "[...] um dos fundamentos da ordem econômica e social é o desemprego em massa e a ameaça que ele faz pesar sobre todos os que ainda dispõem de um trabalho" (BOURDIEU, 1998, p. 129).
Arantes – O mercado está em um barco tripulado por piratas.
Marques – Mas o Gusmão acredita que a exploração, a trapaça, a usura, tudo isso colocado no liquidificador dará vitaminas suficientes para todos. Isso é o melhor que podemos ter. Sai desses excessos o sucesso neoliberal, inigualável, insubstituível, irretocável...
Gusmão – Eu realmente acredito que não há, nunca houve, nem haverá um modelo mais funcional que o neoliberalismo, mas eu nunca falei que o modelo é irretocável.
Arantes – E por acaso você concorda com a ideia de que o Estado realize os retoques que a obra mal acabada que você venera necessita?
Marques – Retoques não resolvem. Este imóvel é mal construído desde a fundação.
Gabriel – Esse modelo promove a objetificação do ser humano e a debilitação da sociedade.
Gusmão – Ah! Você está de brincadeira! O modelo debilita a sociedade?
Gabriel – E o que significa a promoção do individualismo? Ele é promovido para o fortalecimento dos laços sociais, da consciência cidadã, da capacidade de se indignar com a exploração excessiva, da conscientização de que juntos somos mais fortes? A diva de vocês foi explícita: "[...] sociedade não existe; existem homens e mulheres individuais, e existem famílias [...]" (THATCHER apud WHEEN, 2007, p. 41).
Marques – Promover o individualismo é promover o fortalecimento da sociedade?
Felipe – A força propulsora está no indivíduo. "Ao buscar apenas o interesse pessoal, ele costuma trabalhar de maneira bem mais eficaz pelo interesse da sociedade que se tivesse realmente por objetivo nela trabalhar" (SMITH apud DUFOUR, 2008, p. 87).
Arantes – Interesse pessoal mais eficácia mais motivação é igual a eficiente sociedade neoliberal?
Marques – Pois é, o resultado dessa equação está aí, estamos vendo a eficiência dessa sociedade na qual os que menos entregam são os que mais dela se apoderam.
Arantes – A mais "bela" das sociedades não é a da informação, a industrial, a de consumo... é a do individualismo.
Gabriel – O individualismo nos torna presas fáceis, nos torna humanos menores, fáceis de sermos levados pelo vento, como qualquer outro objeto sem peso e solto.
Arantes – Olhando para os horizontes, o que eu vejo são nuvens sombrias que sinalizam a continuidade do passeio do modelo opressor que corrói os meios que possam fortalecer a defesa do interesse público ou do bem comum.
Marques – Partidos políticos, sindicatos, associações, movimentos sociais, tudo que possa promover o fortalecimento dos canais coletivos é sufocado.
Arantes – De certa maneira, o capitalismo surgiu para conter os privilégios dos nobres, mas esses privilegiados deram um jeito de neutralizar essa função do capitalismo: criaram o liberalismo econômico.
Marques – Que em sua versão atual (o neoliberalismo) parece ter sido feito por encomenda, na medida exata, na lata perfeita para a festa dos nobres privilegiados dos nossos dias.
Arantes – Quando eu vejo um patrão tirando o couro dos empregados, eu me lembro do papel do carrasco medieval, que precisava ganhar a vida causando a morte.
Gabriel – Mas o fato de o carrasco precisar daquela função para conseguir os seus rendimentos não o torna perdoável.
Arantes – Claro. Mas os grandes responsáveis pelo papel do carrasco eram os poderosos que criaram e sustentavam aquele sistema.
Marques – Hoje os grandes responsáveis pelo papel do carrasco (o patrão) são os grandes acionistas. São eles quem põem a faca no pescoço dos que hoje tiram o couro do trabalhador.
Arantes – É repugnante essa ditadura dos acionistas.
Felipe – Há alguns excessos no mercado de ações, mas ele é um mecanismo fundamental para o funcionamento do mercado como um todo.
Arantes – Talvez o mercado de ações seja como o aparelho digestivo, o nosso corpo não funciona sem ele, mas isso não o torna menos repulsivo.
Marques – O aparelho digestivo será indispensável sempre. O mercado de ações é indispensável hoje.
Gusmão – Arantes, se você tivesse recursos para investir, seus valores ético-morais iriam lhe impedir de comprar ações?
Arantes – Não, eu compraria. Não pretendo estar nas alturas, livre de qualquer impureza, mas também não quero estar no fosso infecto dos que são movidos apenas pelos valores do mercado. Eu não tenho nada contra os que compram. A meu ver, o problema não está aí, está nas manobras da mão invisível que instala no barco dos grandes acionistas uma toda poderosa central de comando.
Marques – Os que comandam o barco, os que dão as cartas, os que jogam em um jogo no qual eles mesmos fazem as regras, os mocinhos de sempre, fazem a festa.
Gusmão – Quem define as regras é o Estado.
Arantes – Teoricamente, mas você sabe o que prevalece na prática.
Marques – O que fariam os nobres senhores privilegiados de hoje se não existissem ações para comprar? Iriam guardar seus tesouros embaixo da cama? Cavariam um buraco no chão e os guardariam?
Arantes – É claro que teriam que empreender em um dos três setores da economia ou guardar suas fortunas nos bancos.
Gusmão – Essa discussão é uma bobagem.
Arantes – Creio que refletir sobre o fato de o mercado estar nas mãos dos acionistas e sobre a fragilidade do eixo moral que sustenta essa anomalia não é uma bobagem.
Gusmão – Pois, a meu ver, os acionistas são as molas mestras do mercado.
Felipe – Os acionistas estão no mercado para promover o desenvolvimento.
Marques – Eles não estão no mercado, é o mercado que está nas mãos deles.
Arantes – Os acionistas precisam muito mais da economia real do que esta precisa deles. Mas a mão invisível do senhor deus do deixa fazer fez o milagre, transformou em aceitável que: os que menos entregam sejam os que mais recebem. Consequentemente, esses privilegiados pervertem a lógica e festejam.
Gabriel – O deus neoliberal, pai criador dos gigantes das finanças, fez o milagre de colocar o mar em uma piscina.
Felipe – O mundo sempre esteve nas mãos de poucos. Isso não é uma criação neoliberal.
Gabriel – Mas, não do mesmo modo. Hoje o modelo ampliou, aprofundou e dissimulou essa dominação.
Marques – A ditadura dos acionistas só prevalece graças às forças invisíveis de um deus que só existe para servir aos seus.
Felipe – Olha, eu sei que há agressividade do lado dos acionistas, mas isso se justifica porque os riscos que eles correm são enormes.
Arantes – É claro que no selvagerismo do mercado de ações as mãos e as pernas de alguns são devoradas.
Marques – Mas quem são os criadores desses riscos? São os da base da pirâmide?
Arantes – Claro que não. São os próprios jogadores (acionistas), mergulhados no espírito dos cassinos.
Gabriel – Se esse mundo não tivesse com o mundo nas mãos seria até divertido, mas os que mais perdem com esse jogo são os que jamais puseram os pés nessa arena.
Marques – Sempre são os da base que pagam o preço mais alto pelo assalto praticado pelos moços do topo.
Gabriel – Aqui somos cinco cidadãos. Há pouco, o Arantes usou a expressão "economia real" e ninguém riu.
Gusmão – E o que há para o riso nessa expressão?
Gabriel – Só existe o bem porque existe o mal. Só existe o fictício porque existe o real. Essa necessidade de classificar a economia como real ou não real está na pista porque existe o acionista.
Marques – A face oposta da expressão "economia real" é mais carregada de contradição do que um navio negreiro vindo da África para o Brasil.
Arantes – Se eu fosse um humorista, escreveria várias piadas amarradas na expressão "economia real".
Gabriel – Ah! Você não as escreveria. Primeiro porque a alienígena (A face oposta da expressão "economia real") já faz parte da paisagem. Segundo porque colocar na prateleira a sujeira que há embaixo do tapete das finanças resultaria, para você, no fechamento de todas as portas e a sua obra nasceria morta. A liberdade neoliberal não lhe dá liberdade para você surfar nessas ondas.
Gusmão – A censura neoliberal só existe na sua imaginação.
Gabriel – Não se faça de desentendido, você sabe que os filhos do senhor deus neoliberal controlam as chaves que abrem e fecham as principais portas.
Arantes – Eles não aceitam que as escolas formem cidadãos, vão aceitar que os meios de comunicação abram as portas para os "hereges".
Marques – Os ilusionistas precisam controlar olhos e ouvidos, precisam ser os senhores dos nossos sentidos. De outro modo, como iriam fazer tantos milagres? Como iriam conseguir vender o que não existe e esconderem o que quiserem em suas cartolas?
Arantes – Como iriam conseguir vender a ideia de que menos impostos é mais arrecadação, ou a de que é preciso deixar o cofre dos mais ricos transbordar para que todos possam se beneficiar, ou ainda aquela que diz que a nossa dívida pública não precisa ser auditada?
Marques – Os cofres dos mais ricos têm um fundo falso que esconde um buraco negro sem fim.
Arantes – Como iriam vender a ideia de que o Estado não deve pôr as mãos no mercado, mas deve pagar pelo leite derramado ou pelo ouro que some pelo ralo ou por um rabo de foguete?
Gusmão – Mas que conversa é essa? Onde ou quando você viu o Estado socorrer o mercado?
Arantes – De certa maneira, você tem razão. O socorrido não é o mercado, e sim os moços que o transforma em uma rede de cassinos. Ou você vai me dizer que nunca ouviu falar em "manobras" do Estado para colocar o orçamento público a disposição dos moços das finanças?
Marques – É bem claro que vivemos a ditadura das finanças e é bem sombrio saber que elas estão cada vez mais nas mãos de piratas.
Gabriel – Ontem à noite eu tive um pesadelo, nele eu vi alguma coisa que talvez eu possa chamá-la de metamorfose da espécie humana. Mas a mudança não era física, continuávamos com cabeça, tronco e membros e sem deformações no corpo. O que nos desumanizava era o nosso comportamento. A metamorfose era no espírito, era na capacidade de preservar os quadros pintados por Sócrates, Kant, Descartes e todos que contribuíram para que o nosso espírito possa evoluir, possa sair da caverna e buscar a luz, possa quebrar as correntes e marchar rumo à emancipação, à racionalidade, à virtude; enfim, cultivar os traços espirituais que nos diferencia de todos os outros animais.
Gusmão – Andou vendo filme de terror antes de dormir?
Gabriel – A única coisa desagradável que eu vi foi esta afirmação: "[...] não haverá, no período pós-histórico, nem arte nem filosofia, mas apenas o cuidado perpétuo com o museu da história humana" (FUKUYAMA apud WHEEN, 2007, p. 87).
Arantes – O deixa fazer, deixa circular é a maior fábrica produtora de pesadelos.
Marques – Deixa fazer e circular quem e o quê?
Felipe – Tudo. Universalidade é a alma do neoliberalismo.
Marques – Pois ele é mesmo desalmado.
Arantes – A liberdade que há para o mercador do Tio Sam "passear" no Brasil é a mesma que há para o brasileiro no território norte-americano?
Marques – A liberdade que há para a circulação de produtos é a mesma que há para a circulação dos trabalhadores?
Gabriel – Os do Tio Sam são e sempre foram protecionistas. "O espírito do protecionismo, blindando os produtores domésticos da competição estrangeira, obviamente está vivo e passa bem" (STIGLITZ, 2020, p. 58).
Arantes – Quando os interesses dos mocinhos estão em jogo, as regras neoliberais se transformam em peneiras com malhas flexíveis que ficam finas ou grossas conforme os interesses desses moços.
Marques – Elas, quase sempre, são meios de conservação dos privilégios. A competição é defendida quando não diminui a festa dos privilegiados.
Arantes – "A competição é para perdedores" (THIEL apud STIGLITZ, 2020, p. 71).
Gusmão – Se você sair por aí dizendo que não existe competição, você será ridicularizado.
Arantes – Ah! Você sabe ao que estou me referindo, você sabe que as gigantes não querem nem saber do "que vença o melhor". Isso nunca foi respeitado por elas. Na selva neoliberal, não é o jogo limpo que prevalece.
Gabriel – Creio que se quisermos ser um pouquinho mais que títeres não podemos perder de vista a diferença entre o que se diz e o que se faz.
Marques – O jogo sujo sempre existiu, mas o neoliberalismo o institucionalizou.
Arantes – E nessa atmosfera é cada vez mais agressiva essa onda de fusões e aquisições na selva dos negócios.
Gabriel – E essa onda de fusões já avançou para as tais "[...] fusões preventivas, que consistem em comprar os potenciais competidores antes que eles possam se tornar uma ameaça [...]" (STIGLITZ, 2020, p. 84).
Marques – As grandes estão engolindo as menores cada vez mais cedo.
Arantes – Hoje, elas, na selva neoliberal, devoram as competidoras ainda "miúdas" para que estas não cresçam e possam incomodá-las algum dia.
Marques – A covardia e a paranoia ocupam espaços significativos na atmosfera neoliberal.
Gabriel – Essa tal de "fusão preventiva" corrói um dos principais pilares morais do capitalismo: a concorrência.
Marques – Sempre fez e faz parte do espírito do neoliberalismo impedir o amadurecimento.
Arantes – E não são apenas as pessoas jurídicas que são impedidas de crescer, de amadurecer.
Gabriel – Na bilheteria do circo mágico que cobre a nossa nave azulzinha não há ingresso para maiores de dezoito anos.
Felipe – Mas em relação às empresas, eu creio que o fato de as grandes comprarem as pequenas não é motivo para que se faça qualquer tipo de crítica ao modelo.
Gusmão – Em regra, há liberdade para que todas possam atuar.
Marques – A pequena que for cobiçada por uma gigante é livre para se entregar ou ser impiedosamente esmagada.
Gabriel – Permitam-me um exemplo de uma manobra esmagadora. Sabe o que fazia uma gigante do mercado aéreo? "Quando uma nova companhia aérea entrava no mercado, a American Airlines aumentava o número de voos e baixava o preço na rota que queria dominar" (STIGLITZ, 2020, p. 92).
Gusmão – Que bom! Mais transporte e mais barato.
Arantes – É mesmo piadista? Quem não sabe que isso é só uma jogada suja para estrangular a concorrente. Depois os preços abusivos tiram o couro dos usuários.
Marques – Acredito que esse exemplo da American Airlines representa apenas os fatos notórios. Se os bastidores dessa arena viessem à tona essa manobra da gigante se tornaria inexpressiva.
Arantes – Esse espírito esmagador passeia por todos os segmentos do mercado.
Gabriel – "Eles falam muito sobre acreditar na competição, mas, no fim das contas, gostam de seus arranjos confortáveis" (STIGLITZ, 2020, p. 237).
Arantes – Junto-me ao Marques, creio que essa notória realidade é apenas uma ponta do iceberg.
Marques – A farsa fuça e o suspiro da fossa nos deixa numa atmosfera de bosta.
Arantes – Os senhores de ontem não aceitavam os quilombos, os de hoje também não aceitam que ninguém viva fora dos domínios deles. Ninguém pode viver livre do livre mercado. Deus me livre desse caminho errado!
Marques – Esse mundo livre sempre foi escravocrata. John Locke não foi uma exceção.
Felipe – Não esqueça que a Inglaterra atuou em prol do fim da escravidão.
Marques – Os ingleses – depois de lucrarem muito com o tráfico negreiro – atuaram pelo fim da escravidão explícita, de um modelo que tinha se tornado inconveniente, não vantajoso para os interesses deles.
Arantes – Depois de lucrarem, por muito tempo, tratando seres humanos como coisas, passaram a lucrar pondo as coisas sobre os seres humanos.
Marques – Creio que, de certa maneira, seres humanos continuam sendo tratados como coisas.
Gabriel – O direito de propriedade continua se sobrepondo ao direito à vida.
Felipe – Hoje, o que vocês chamam de escravidão é simplesmente o combustível que faz funcionar o barco no qual todos nós nos encontramos. Portanto, essa "escravidão" é absolutamente necessária para que o progresso continue.
Marques – Esse céu carregado de nuvens sombrias não é o melhor cenário que podemos ter.
Gabriel – Aqui ninguém sonha com um mundo que nunca existiu. Nossa conversa é sobre um mundo melhor do que este que aí está. E estamos sob tantas nuvens sombrias que qualquer raio de sol já vai nos oferecer uns ares melhores.
Marques – Nunca tivemos céu de brigadeiro, mas já tivemos tempos menos sombrios.
Arantes – Já tivemos dias melhores. Eu também acredito que só em conter os excessos, já passaríamos a respirar melhor, a desfrutar de uma atmosfera mais saudável.
Gabriel – Eu não sei até que ponto é possível diminuir a desigualdade social, mas não tenho dúvida que é inaceitável que ela não pare de crescer.
Marques – No mundo neoliberal o futuro viaja para o passado.
Gabriel – A máquina neoliberal é elaborada para viabilizar que a vida seja uma festa para os do topo e um sufoco para os da base.
Arantes – A modernidade neoliberal é selvagem.
Marques – "Um veio social-darwinista atravessa o pensamento liberal desde o seu início" (LOSURDO, 2006, p. 252).
Felipe – De Thatcher e Reagan para cá a riqueza tem sido multiplicada. A evolução tecnológica está a todo vapor, a expectativa de vida aumentou, a mortalidade infantil diminuiu. Então eu não sei por que vocês pintam esse quadro tão sombrio.
Marques – A expectativa de vida para os ricos é uma, para os pobres é outra.
Arantes – É claro que há avanços, o neoliberalismo não poderia ser tão tenebroso a ponto de congelar tudo. Há evolução sim, mas não é graças a ele; é apesar dele.
Marques – Há evolução em determinados tópicos, mas no geral tem prevalecido a promoção de retrocessos sociais.
Gabriel – Para mim, o neoliberalismo é sinônimo de retrocesso social. O mundo neoliberal é menos fraterno, mais desigual, menos livre... Na liberdade neoliberal você é livre para fazer o que eles querem.
Felipe – Para preservar o modelo, a liberdade tem que ser limitada sim.
Gusmão – E nenhum modelo fica de braços cruzados vendo uma alternativa a ele ganhar musculatura.
Arantes – Se assim for, como fica a bandeira neoliberal do deixa fazer, deixa circular? Como fica a defesa da competição, do "que vença o melhor"?...
Marques – Das sombrias nuvens neoliberais chovem contradições que formam um lamaçal que salpica o modelo de ponta a ponta, do pé a cabeça.
Gabriel – No mundo neoliberal, liberdade, igualdade e fraternidade são três fantasmas. O espírito neoliberal é feudalista, é voltado para conservar os privilégios, para tornar os mocinhos do topo uma espécie de nobres absolutistas, intocáveis.
Arantes – Creio que no terreno neoliberal é preciso remover muitos entulhos para que se possa fincar os pilares e construir uma fundação de uma obra que possa representar um razoável grau de liberdade, igualdade e fraternidade.
Gusmão – Esse mundo mais humano, essa atmosfera de igualdade e fraternidade só funciona nos sonhos dos sonhadores.
Felipe – As ameaças, os medos, são combustíveis indispensáveis para que o sistema possa funcionar.
Gabriel – Eu sei que os medos e as ameaças cumprem uma função. Por exemplo, o medo de perder o emprego e a ameaça de ficar para trás estão entre as coisas que têm uma função social. Essas coisas, de certa maneira, são motivadoras, impulsionadoras. Mas o fato de o homem precisar dessas armas, não o autoriza a usá-las quando, como e o quanto quiser.
Marques – Também não é aceitável que o principal causador dos problemas nunca seja responsabilizado.
Gusmão – Mas isso não existe.
Marques – Não existe? Quem sempre é responsabilizado pelos problemas sociais? E, no entanto, sabemos que o Estado se encontra nas mãos do modelo e não o contrário.
Arantes – A crise de 1929, por exemplo, foi obra do Estado ou do modelo tocado pelos mágicos que tiram da cartola coelhos de ouro?
Gusmão – Essa crise "[...] foi causada pela incompetência do governo - e não pela instabilidade inerente à economia privada" (FRIEDMAN, 1985, p. 43).
Arantes – Essa desfaçatez desfaz até o sopro que nos fez, nos desfaz.
Marques – Não foi do nada, nem do dia para noite, que chegamos ao planeta fake news, à debilitação dos sentidos, à realidade paralela e ao mar amarrado ao rabo de uma caravela.
Gusmão – Só falta vocês dizerem que o Estado é um programa de computador, apenas executa aquilo que foi programado.
Arantes – Na teoria é o Estado quem controla tudo, mas na prática você sabe o que acontece.
Marques – Os agentes do mercado disfarçados de agentes públicos colocam as mãos na direção do Estado e aguçam os sentidos para mover as mãos conforme os comandos de seus patrocinadores.
Gusmão – Agente do mercado disfarçado de agente público, esse personagem só existe na imaginação de vocês.
Felipe – Quem sabe o Marques possa desenhar a face desse disfarce.
Arantes – Ele não precisa lhes apresentar o que vocês já conhecem.
Marques – Se o Gusmão ou o Felipe assumissem cargos importantes no Estado, eles seriam agentes do mercado disfarçados de agentes públicos. Eles iriam demonizar a política, tentar transformar o Estado em um capataz, pôr nas reformas trabalhistas verdadeiras ofensas à lei Áurea, promover reformas previdenciárias que façam com o trabalhador o mesmo que o vendedor de caldo faz com a cana: transforma em bagaço e joga no lixo. Nas investigações dos ilícitos, os dos moços das finanças não viriam à dança, fariam parte da arte do "não vem ao caso". Eles esmagariam o salário dos da base da pirâmide para fermentar o bolo dos que estão no topo, soltariam fogos para comemorar o incessante crescimento da concentração de renda, defenderiam com unhas e dentes a queima de arquivos permanentes para formar uma cortina de fumaça que possa encobrir a formação da nossa dívida pública...
Gabriel – "O governo não é a solução para o nosso problema, o governo é o problema", (REAGAN, BBC, 2021).
Gusmão – Ninguém mais diz isso!
Gabriel – Amigo neoliberal, seus atos dizem isso o tempo todo.
Arantes – Como explicar que um escolhido pelo povo seja capaz de dizer que: o governo não é a solução, é o problema?
Marques – Esse tipo de representante do povo não deixou de existir, apenas se camuflou.
Gabriel – Acabamos de sair de governos desse tipo, de 2016 a 2022 comemos o pão que o diabo amassou.
Felipe – Ainda acredito que não está certo colocar na conta do neoliberalismo as coisas que foram feitas por aqui ultimamente.
Gabriel – Eu não sei onde nem quando houve um governo de extrema direita que não se movesse conforme os mandamentos da bíblia neoliberal, que não agisse para facilitar a passagem das águas que correm para o mar.
Arantes – E no mundo neoliberal o mar está nas mãos dos piratas das finanças.
Marques – Eu diria que sem o dedo dos piratas das finanças nem sequer haveria a conservação dos ninhos para chocar os ovos da serpente. Jamais a extrema direita chegaria ao poder sem ser patrocinada pelos moços que dão as cartas.
Gabriel – "O mundo é governado por figuras que aqueles cujos olhos não penetram nos bastidores não podem nem imaginar" (DISRAELI apud JIMÉNEZ, 2020, p. 267).
Arantes – Aqui, quando a gente elege um governo progressista, o mercado fica todo arrepiado, desenha um quadro psicodélico, faz previsões sinistras, sopra o vento para espalhar chantagens pelos quatro cantos do país... Mas alguém sabe por que não vemos nem um chilique do mercado quando um governo fascista é eleito? Aqui em 2018 houve algum chilique do mercado?
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