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Meu avô

Parei para ouvir dois repentistas,

Que davam alma a uma feira camponesa.

Ao lado de frutas, verduras e legumes orgânicos,

Coisa boa para o corpo,

Ofereciam coisas para a alma.

Com tudo na ponta da língua, relampeavam as palavras,

Desenhavam um quadro do mundo rural.

Ali viajei pra minha infância.

Senti o vento, vi o baile das árvores,

Ouvi os pássaros festejarem o amanhecer.

Vi os aboios do meu avô,

Que cantava e contava o que via.

Ele não sabia apreciar pratos chiques,

Degustar Beethoven, Picasso, Camões.
Mas não alimentava a alma com alimentos enlatados,
Temperados ao gosto de quem perdeu o paladar

E de quem só é capaz de sentir quando põe a mão no bolso.

Meu avô gostava de pôr os pés no chão,
Equilibrar a cabeça, montar e galopar sem se curvar,
Sem seguir os ventos que arrastam tudo para o mesmo lugar.

Não abria mão de ser dono do próprio nariz.
De outro modo, não se sentiria feliz.
Aboiava, cavalgava, cantava, contava, escrevia cordéis...
Gostava de usar a voz para desatar seus nós.
Fazia e refazia os seus papéis.

Corria para onde queria,
Dentro dos limites que havia.
Livre até os ossos... é um sonho ou pesadelo.
A verdade também está nesse novelo.
Mas meu avô dizia que depois dos filhos e da mulher,
Buscar um barquinho de verdade
Era o que o mantinha de pé,

Para balançar o esqueleto
Sem ser balançado, lançado nas ondas
Para que a elas responda como o eco à voz.
Estando na rede sendo apenas um dos nós
Que não amarra nem solta, apenas conecta.
Apenas um conector.
Isso nunca seria o meu avô.
Ele sempre soube onde queria estar.
E eu sei que ele está em algum lugar.
Apesar das chamadas de vídeo, do envio de áudios...
O meu avô gosta de receber cartas.
E eu escrevo para o meu avô.

ESCRITO POR Magno Ferreira 1 K leituras
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