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Jogo de cartas marcadas

Gusmão – Digamos que vocês estejam certos sobre a legitimidade da cobrança dos impostos. Mas vocês não acham que o modelo antineoliberal que vocês defendem – acreditando em um Estado equalizador – ao invés de equalizar vai é desestimular o empreendedorismo com impostos e mais impostos e asfixiar a meritocracia?

Marques – Eu pensei que não ia ouvir mais essa conversa de menos impostos para gerar mais emprego, nem essa de "prevalência da meritocracia".

Arantes – Outro dia eu vi um apresentador de um telejornal, em rede nacional, ter ainda a coragem de dizer: É preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo.

Marques – É um oceano de cinismo.

Gabriel – Marques, eu não consigo compreender por que você critica o Gusmão ou quem quer que seja que defenda a meritocracia. Eu não consigo imaginar um mundo que funcione bem sem que se leve em conta esse valor: o mérito.

Marques – Alguém verifique a temperatura corporal do Gabriel.

Gabriel – Não, não há delírio.

Marques – Então, se você acredita em meritocracia consequentemente também acredita que vivemos em um mundo justo?

Gabriel – Marques, imagine o percurso de uma corrida de São Silvestre para dois competidores: um, filho do patrão; o outro, filho do empregado doméstico. O filho do patrão, bem calçado; o do empregado, descalço. O filho do patrão bem preparado, descansado, acompanhado e amparado; o do empregado sem preparação, sem amparo e acompanhado pelo cansaço da jornada de trabalho. Durante a corrida, o filho do patrão recebe água para se hidratar e aplausos para motivar; para o filho do empregado, nem água nem motivação. No final da competição, vitória do filho do patrão. Nessas condições, podemos dizer que a vitória do filho do patrão é justa e merecida?

Marques – Claro que não.

Gabriel – Essa corrida é uma competição vergonhosa, mas nossos amigos neoliberais vão exaltar o mérito do filho do patrão.

Marques – Então, vamos dizer que a meritocracia dos neoliberais é uma cédula de três reais.

Arantes – É claro que o alvo da indignação não pode ser a ideia de mérito, e sim as bactérias neoliberais que nela se escondem: hipocrisia, cinismo, manipulação, desfaçatez... o falseamento desse mérito.

Gusmão – Gabriel, você acredita mesmo que o seu mundo imaginário tem alguma coisa a ver com o real?

Gabriel – Eu não vou nem sequer falar sobre diferenças entre a base e o topo da pirâmide. Vou apenas falar de pequenas diferenças entre classes de trabalhadores. Por exemplo, o seu Francisco – o pedreiro que construiu a sua casa – começou trabalhar com dez anos de idade; você pôs os pés no batente depois de concluir a faculdade. Aos dez anos seu Francisco trabalhava de manhã e estudava à tarde. A partir dos quinze, ele passou a estudar à noite porque tinha que trabalhar o dia todo para ajudar aos pais a pôr comida na mesa. Seu Francisco aos trancos e barrancos concluiu o ensino médio na escola pública e parou por aí. Enquanto seu Francisco, aos quinze, tinha que estudar à noite e trabalhar o dia todo para ajudar aos pais; os seus pais lhe davam de tudo para que você tivesse tempo livre para aprender dentro e fora da escola e desfrutar da infância e da adolescência. Resultado: hoje enquanto você fica em uma sala com ar-condicionado e uma acomodação confortável; seu Francisco molha a camisa de suor para construir a sua casa. E o seu Francisco trabalha duro, uma semana inteira, para ganhar o que você ganha em um dia. Será que o "meu mundo" não tem nada a ver com o real?

Arantes – Nessa selva podemos ser vários animais, mas jamais devemos ser o que eles querem que sejamos: cães.

Felipe – Mas por que esse preconceito justamente com eles, os melhores amigos do homem?

Arantes – Os cães são fiéis aos donos, mas jamais dão as mãos aos semelhantes.

Marques – Numa sociedade de cães, seria cada um marcando seu território, cada um por si e salve-se quem puder.

Gabriel – Mas é nessa direção que estamos indo, o individualismo promovido pelos neoliberais cada vez mais desfaz os laços que nos unem.

Felipe – Busca-se o individualismo porque é a opção mais vantajosa. E, como há muito sabemos, cada um buscando o melhor para si termina criando um todo mais forte.

Marques – O todo é esfarelado, transformado em partículas desconectadas e essas formarão um todo mais forte? Que beleza!

Arantes – Destroem os pilares da sociedade para que as águas que correm para o mar possam passear e levar o que tiver pra levar.

Gusmão – Destroem os pilares da sociedade? Isso não existe!

Arantes Não esqueça que a senhora Thatcher – símbolo do neoliberalismo – sentenciou: "Não existe essa coisa de sociedade [...]" (apud BAUMAN, 2001, p. 42).

Marques – Ninguém embarque nessa de se unir para defender seus interesses por meio de canais coletivos. Não queira saber de sindicatos, partidos políticos, movimentos sociais, associações... O neoliberalismo diz isso o tempo todo, não com essas palavras, obviamente, mas essa bandeira é defendida o tempo todo.

Gabriel – Vejamos uma modalidade esportiva, o futebol por exemplo. Os clubes se enfrentam, competem acirradamente, mas se unem para a defesa de interesses comuns. As indústrias formam federações para a defesa de interesses comuns; os mandachuvas das finanças competem entre si pela maior fatia possível, mas também se unem para a defesa de interesses comuns... A ação de se unir para defesa de interesses comuns só é uma ação de hereges que precisam ser contidos quando praticada pelo povo.

Gusmão – Mas que conversa absurda é essa! Estão aí os sindicatos, os movimentos sociais, os partidos políticos...

Marques – Estão, eles resistem aos atacados dos agentes dos moços que dão as cartas, mas estão debilitados.

Gabriel – Não querem acabar com os instrumentos coletivos, mas querem debilitá-los.

Arantes – Eles promovem o individualismo para que cada um se sinta sozinho no meio da multidão.

Gabriel – A promoção do individualismo visa quebrar os laços, para que os passos dos privilegiados não encontrem dificuldades, para que assim possam andar como e por onde quiserem. Nada de limite para eles. Todas as limitações para o povo e seus instrumentos coletivos: movimentos sociais, sindicatos, associações... tudo que tiver a finalidade de fortalecer o povo é uma bandeira do mal que deve ser atacada pelos agentes do bem. Bem, o bem é tudo que é praticado pelos mocinhos de sempre.

Gusmão – Por vocês falarem em mal e bem, eu quero lembrar que não há nenhum ataque a minha religião.

Marques – Claro. A sua religião é uma dinamite que frequentemente explode no caminho dos que buscam a verdade, é um trator que abre os canais para as águas que correm para o mar, é um vinho que embriaga o rebanho para que ele seja facilmente tangido pelo pastor que serve aos deuses do mercado. A sua religião, além de transformar rocha em pó, ainda limpa os caminhos para o "que vença o melhor", desde que o melhor seja um escolhido pelas mãos invisíveis de um deus que só existe para servir aos seus.

Arantes – Esse cristianismo deformador largou a mão de Cristo e em Cristo.

Gusmão – Agora a religião é culpada pelos problemas do mundo?

Arantes – Não é isso. Mas o cristianismo deformador tem sido um instrumento manuseado para transformar filhos de Deus em membros de um exército de zumbis.

Marques – No nosso processo eleitoral de 2022, por exemplo, o cristianismo deformador teve um papel asqueroso.

Felipe – Você gostaria que não existisse religião?

Marques – Não defendo isso. Estou me posicionando contra o uso da religião para a exploração, para a manipulação, para se afastar da verdade e para outras perversidades.

Gusmão – Você usa a expressão "cristianismo deformador" para se referir a qual denominação religiosa?

Marques – Não estou me referindo a nenhuma denominação. Mas há, em muitas denominações cristãs, indivíduos de pouco escrúpulo que formam essa "religião": o cristianismo deformador.

Gabriel – Há fiéis infiéis em todas as religiões. E em todas as religiões cristãs há membros do cristianismo deformador.

Arantes – Para mim, é evidente que o cristianismo deformador tem contribuído para que o nosso barco seja levado pelas ondas que nos puxam para dentro para nos jogar pra fora. Esse cristianismo forma uma coligação com outra "religião": o neoliberalismo. A "religião" da senhora Thatcher, do senhor Reagan... do Felipe e do Gusmão. Os cardeais dessa "religião" querem batizar todos nós, para que sejamos seus servos ou seguidores que seguem cegamente a cartilha que eles nos empurram goela abaixo.

Marques – Se não formos cegos seguidores como vamos acreditar que somos os únicos responsáveis pelas nossas dificuldades?

Gusmão – Vocês acreditam mesmo que o sistema é culpado pelos problemas do indivíduo?

Gabriel – Estamos em um barco que não é dirigido por nós, mas quando esse barco quebra, o bicho pega pra cima de nós. Nós é que pagamos o conserto, e não os moços do concerto que fazem a festa nos transportando.

Arantes – O combustível desse barco é suor, sangue e lágrimas dos que não estão na festa.

Marques – E além dessa exploração contínua, volta e meia as crises nos batem à porta. A crise chega para uns como uma assombração, para outros como uma nuvem de gafanhotos... mas para alguns moços do topo da pirâmide, os eternos mocinhos, ela chega trazendo cartolas, das quais esses mocinhos ilusionistas tiram coelhos de ouro. A cada crise, enquanto a maioria fica com a corda no pescoço, esses moços enchem os bolsos.

Gabriel – Os que mais contribuem para quebrar o barco – imprimindo excesso de velocidade e de carga para buscar o lucro rápido e máximo – se transformam em beneficiários das crises que eles criam. É, mais ou menos, como se a indústria armamentista provocasse guerras para lucrar com a venda de seus armamentos.

Marques – Os mocinhos sempre privatizam os bônus e socializam os ônus. E nos períodos de crise esse espírito se manifesta com muito mais perversidade.

Arantes – A crise amplia a concentração de renda! E a base da pirâmide não se emenda.

Marques – Agora com a crise da Covid-19 vimos mais uma vez a repetição dessa festa nefasta, o festival dos super-ricos que viram os seus lagos transbordarem enquanto o deserto se alastrava.

Gabriel – "Riscos e contradições continuam a ser socialmente produzidos; são apenas o dever e a necessidade de enfrentá-los que estão sendo individualizados" (BAUMAN, 2001, p. 48).

Marques – Essa história de que o indivíduo é o único responsável pelos seus problemas é mais uma cédula de três reais lançada pelos neoliberais.

Felipe – É claro que não podemos julgar a caminhada de um indivíduo sem levar em conta as condições do caminho, que, obviamente, podem sim interferir na caminhada. Também é claro que privatizar os bônus e socializar os ônus é realmente um problema a ser equacionado. E não podemos negar que essas coisas têm levado a uma concentração de renda. Essa concentração geralmente aumenta nos períodos de crise e isso é difícil de ser compreendido. Mas creio que tudo isso pode ser negociado. Inegociável é o ponto referente a unir o povo para a defesa de interesses comuns. As indústrias e todos os outros ramos da iniciativa privada precisam dessa garantia. Precisam dessa união para a defesa de interesses comuns. Mas aplicar esse mesmo raciocínio para estimular o povo a se unir para defesa de interesses comuns é uma ação temerária, uma ameaça ao controle social e ao funcionamento do sistema como um todo.

Marques – A tal "ameaça ao controle social" tem sido um pretexto para que se possa impor uma exploração esmagadora.

Gabriel – Para mim, é difícil entender a perversidade causada por essa mistura de mentiras, medo e paranoia que paira na atmosfera neoliberal. Eles têm medo de qualquer coisa que possa arranhar seus privilégios, que possa conter o crescimento da concentração de renda. Eles precisam usar e abusar de mentiras porque nos mares do oceano neoliberal não há como navegar em um barco de verdade; se embarcar na verdade eles vão dizer o quê? Queremos que vocês não pensem para que possamos tanger vocês como um pastor tange um rebanho; queremos colocar cabresto em vocês para que andem apenas por onde quisermos; queremos colocar viseira de burro em vocês para que enxerguem apenas na direção que a gente quiser que vocês enxerguem; queremos que vocês se matem de trabalhar e acreditem que nós é que lhes sustentamos... Não dá. Essa turma, para arrastar a base para a procissão, precisa estar a transbordar mentiras, a transpirá-las por todos os poros. E a paranoia é porque esses mocinhos estão com o povo nas mãos de segunda a sexta e acham pouco e querem mantê-lo nas rédeas sábado e domingo também. Não basta o controle econômico, querem controlar o espírito, querem controlar o momento de lazer, querem controlar qualquer coisa que o cidadão possa fazer. Querem um controle total. É um totalitarismo paranoico e perverso.

Marques – Onde eu vejo totalitarismo vejo paranoia. E no neoliberalismo não é diferente.

Arantes – Outro dia eu vi um homem, na frente de uma igreja, com uma bíblia embaixo do braço, um microfone na mão; sem nenhum ouvinte ao seu redor e a berrar aterrorizantemente: "Jesus está voltando, Jesus está voltando..." Penso que aquela criatura não tem a menor ideia de que se Jesus voltasse o chefe daquela igreja seria um dos primeiros a pedir a cabeça de Jesus, porque esses dois mil anos que passaram não foram suficientes para diminuir significantemente a diferença entre as coisas como elas são e as coisas como elas são mostradas. Por causa dessa diferença, nossa nave não suportou a presença de Jesus, assim como não suportou a de Sócrates, Galileu Galilei, Giordano Bruno... e – respeitando as devidas proporções – não suporta a presença de Snowden, Assange... A verdade continua sendo uma criatura sem nenhuma roupa, que, portanto, não tem permissão para sair à rua.

Gabriel – Às vezes, eu procuro me colocar no lugar dos que mandam (os neoliberais, os que dão as cartas, os tubarões das finanças ou qualquer outra nomenclatura que queiramos) e me pergunto: o controle social requer realmente essa metamorfose que estamos sofrendo?

Felipe – Olha, eu não nego que o controle social requer que coloquemos algumas viseiras de burro nas pessoas e que criemos mecanismos para deixar os cérebros sedentários, mas chamar isso de metamorfose é algo demasiado.

Arantes – Eu acredito que o neoliberalismo conseguiu impor um processo de alteração: no pensar, no caráter e em outros traços fundamentais que nos diferenciam dos outros animais. Essas alterações, a meu ver, estão sim metamorfoseando o nosso espírito.

Gusmão – Que loucura! Vivemos o esplendor do desenvolvimento. Como você pode falar em metamorfose do espírito ou em qualquer outra alteração negativa?

Marques – A esplendorosa e bem-vinda evolução científico-tecnológica não é sinônimo de evolução geral.

Arantes – Como eu posso dizer que vivo no planeta maravilhas, se vivo envolvido em um desfile de fome, de concentração de renda, de desorientação humana, de festa nefasta dos moços das finanças?...

Gabriel – Será que podemos dizer que o neoliberalismo tenta debilitar o nosso cérebro?

Marques – Eu, particularmente, acredito que a questão é o quanto o neoliberalismo debilita a nossa massa cinzenta?

Arantes – Certa vez, eu e meu filho assistíamos a uma propaganda eleitoral, na qual um candidato dizia algo mais ou menos assim: vamos estatizar os bancos, colocar os trabalhadores no comando das empresas... O meu filho disse que o candidato era corajoso. E justificou dizendo que os poderosos soltam fumaça só de ouvir falar em direito trabalhista e previdência social; imagine ouvirem falar em trabalhadores no comando das empresas. Os poderosos soltam fumaça só de ouvir falar em salários justos, redução dos juros e da concentração de renda; imagine ouvirem falar em estatização dos bancos. Eu disse a meu filho que por essa cantoria, eu não classificaria o grilo falante como corajoso.

Marques – Mudou de camisa, tornou-se neoliberal?

Arantes – Eu acredito que os poderosos, em vez de fumaça, soltam fogos quando ouvem essa cantoria do grilo falante.

Gusmão – Fogos? Pra comemorar o quê?

Arantes – Outro dia eu ouvi alguém falar que os horríveis atentados de onze de setembro deram munição para alguns moços de Washington usarem por onde e como quiserem.

Gusmão – E o que tem a ver o Onze de Setembro com o grilo falante?

Arantes – O Onze de Setembro deu muitas munições para que os mocinhos possam usá-las à vontade, a pretexto de estarem fazendo justiça ou prevenção. E ele ainda fortaleceu a moeda que é muito mais forte que o dólar: o medo. Sabemos que os poderosos, para arrastar os indivíduos para as "procissões" neoliberais, precisam passear no trem da manipulação, da hipocrisia, do cinismo, da "fabricação de consensos"... Para esse passeio, o medo é uma moeda inigualável. Medo da fome, do desemprego, de outras violências, de falta de distinção, da perda de privilégios... e o medo de ser atacado por um feroz inimigo externo. Como, por exemplo, um Saddam Hussein e seu arsenal de armas de destruição em massa; ou o medo que se baseia na realidade, o medo de um atentado terrorista.

Gabriel – Tanto o Onze de Setembro quanto a cantoria do grilo falante dão munição para os mocinhos. Ambos viabilizam que se explore o pesadíssimo valor do medo. E o medo do comunismo tem sido uma inesgotável mina de ouro para os senhores exploradores.

Marques – Creio que, para os cardeais neoliberais, o "perigo" do comunismo tem sido muito mais frutífero do que o perigo dos atentados terroristas. Se eu fosse um bilionário, eu financiaria esses que ficam falando em estatizar os bancos e pôr os trabalhadores no comando das empresas, porque o neoliberalismo precisa dessa fumacinha de cigarro eletrônico para dizer que o mundo corre o risco de ser incendiado.

ESCRITO POR Magno Ferreira 1 K leituras
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