Liberdade na gaiola
Arantes – Ludibriar, impedir que as pessoas vejam as coisas como elas são e impedir que elas consigam se emancipar fazem parte do espírito neoliberal.
Felipe – A maioridade deve ser para uma minoria. A grande maioria deve ser eternamente menor, nada de emancipação. A grande maioria não pode ser emancipada, não pode ser dona do próprio nariz, não pode ver com os próprios olhos... Vocês ficam defendendo a emancipação, acreditando em um mundo melhor; pois eu acredito que se tirarmos os cabrestos, as viseiras de burro e derrubarmos as cercas seremos todos pisoteados.
Marques – Sem dúvida, você está sendo coerente com o seu espírito neoliberal: a maioridade para a minoria, o máximo para um mínimo, o mar para alguns, o deserto para a maioria... É a cristalina naftalina que afeta os meus sentidos.
Gusmão – Há pouco, você falou que o neoliberalismo provoca o medo para tirar vantagens. Mas tirar vantagem do medo do outro não é uma invenção neoliberal.
Marques – Mas no universo neoliberal o medo é usado de forma sistêmica, ele está entre os principais instrumentos que tornam possível a conservação desse modelo.
Arantes – O medo favorece a montagem de um cenário no qual os poderosos podem vender o que eles quiserem vender (os perigos do comunismo, do terrorismo, do desemprego, da fome, de ficar para trás...).
Marques – Não tenho a menor dúvida que o medo do comunismo, do terrorismo, do crime organizado e de outras violências tem empurrado muita gente para o barco onde tremulam as bandeiras neoliberais.
Arantes – O medo da falta de distinção, de não conseguir pagar as contas, do desemprego, da fome, de ficar para trás... sem dúvida empurra eleitores, militantes, seguidores, fieis e outros para o barco dos ilusionistas neoliberais.
Marques – Comendo nas mãos desses senhores nos tornamos cada vez mais incapazes de distinguir o certo do errado, o verdadeiro do falso e até mesmo o favorável do desfavorável... Marcantemente aderimos a interesses que são contrários aos nossos.
Gabriel – No mundo neoliberal a "hegemonia cultural" é cada vez mais ampla, profunda e perversa.
Arantes – Os que a mim mostram para eu não ver, roubam os meus olhos, os meus ouvidos e o meu querer. Sem ver, humano não posso ser, sou um sei lá o quê. Sou um bem do senhor. Sou o que restou: sem olhos, sem ouvido, sem dúvida, não duvido. Sem sentido vou seguindo a ração que vai caindo.
Gusmão – O fato de ser combatida a emancipação da maioria dos indivíduos não significa que o modelo está desumanizando ou transformando essa maioria em bichos.
Marques – O sopro humano está sendo sufocado. O homem neoliberal está sendo confeccionado para ser um repetidor, que apenas reproduz o que recebe, apenas segue os comandos, um mero seguidor.
Gabriel – "É muito precisamente esse traço que nos parece propriamente caracterizar a virada dita 'pós-moderna': o momento em que uma parte da inteligência do capitalismo se pôs a serviço da 'redução das cabeças'" (DUFOUR, 2005, p. 10).
Arantes – Somos cada vez mais, menos capazes de ter vontade própria, cada vez mais dançamos conforme a música neoliberal e sentimos o que eles quiserem que a gente sinta. Ficamos comovidos com as maldades que são mostradas na televisão ou na internet, mas somos indiferentes às maldades que acontecem bem embaixo do nosso nariz. Estamos sendo consumidos.
Gabriel – Outro dia, enquanto um programa de TV fazia barulho na cobertura de um assassinato de um homem branco de um bairro nobre, alguém ao meu lado disse: se fosse um negro da comunidade seria apenas mais um número. Por um momento aquela fala me incomodou. Mas depois fiquei encabulado com o incômodo, porque a tal fala... expõe uma realidade que está aí diante dos nossos olhos.
Marques – Consciente ou inconscientemente, não damos o mesmo valor para cada uma das vidas humanas. Às vezes, hipocritamente, enchemos a boca para dizermos "somos todos iguais", mas os ventos que batem a nossa porta mostram como é morta a nossa ideia de igualdade humana.
Arantes – A importância de uma vida humana é relativa, olha-se primeiro para a pirâmide social para que se possa defini-la.
Felipe – Bem, essa é uma mazela do nosso terceiro mundo.
Marques – Ah! Qual é? Nem vou falar nos Estados Unidos. Veja a inaceitabilidade de uma guerra na Europa; veja a indiferença a guerras na África, na Ásia, na América Latina... Isso não lhe desbaratina?
Arantes – E em relação às periferias das grandes cidades, nos quatro cantos do mundo, nelas, a vida é sempre menos importante.
Marques – Esse porco cheio de lama não passeia só aqui.
Arantes – Por todas as partes o porco deixa a sua arte.
Marques – De vez em quando eu ouço uma criatura dizer que a região Sul é a mais elevada do Brasil.
Gusmão – E você discorda? Há vários indicadores que comprovam. Veja o índice de desenvolvimento humano.
Marques – Gusmão; democracia, dignidade humana, paz, respeito, liberdade são valores universais. Você acha que eu posso não os levar em conta e reivindicar, para mim, superioridade moral, civilizatória ou qualquer coisa de traços nobres?
Gusmão – Claro que não!
Marques – Então me responda por que a região que você define como a superior às outras foi a que mais abraçou o Bolsonaro?
Gusmão – É que... É...
Marques – Acho que há coisas relacionadas ao poder aquisitivo que estão sendo confundidas com valores e princípios que elevam a humanidade.
Arantes – Os que sufocam todos os valores para cultivar o valor que vale no vale de ouro não podem estar nas alturas que pretendem.
Marques – Talvez eles estejam abaixo do nível do mar.
Arantes – Os rastros do porco estão por aí nos espíritos situados nos quatro cantos dessa nave azulzinha.
Felipe – Isso é resultado do lamentável papel dos entes públicos.
Arantes – O que há de lamentável no papel do Estado é, em grande parte, resultado das ações dos agentes do mercado disfarçados de agentes públicos. O que há de pior nessa história não vem de quem paga o pato, vem dos infiltrados que corroem o Estado por dentro. São cavaleiros que agem para servir aos deuses das finanças que tocam o barco como quiser e por mais que toquem errado, jamais o bando é culpado.
Gabriel – Volto às assombrações do individualismo para dizer que às vezes sinto que tratores passeiam em nossas almas visando transformá-las em uma terra arrasada sem mais nada que não tenha a bandeira do mercado. Nessa atmosfera, vivemos para as mercadorias e a cada dia ficamos cada vez mais, mais parecidos com elas.
Felipe – Não vou negar que de certa maneira está se destemperando o tempero que nos diferencia dos outros animais. Mas isso não é nada mais do que um assimilável efeito colateral que não vai derrubar nem as roupas do varal.
Marques – Estamos vendo um certo derretimento de algo essencial. Isso não se trata de roupa do varal, se trata do risco de ficarmos sem a roupa do couro.
Felipe – Vejamos este exemplo: a população carcerária de um país cresce, proporcionalmente, em um ritmo mais acelerado do que o da população geral. Se você seguir apenas uma "lógica de computador", você vai dizer que daqui a x anos todos estarão presos. Mas sabemos que isso é absolutamente impossível. Esse mesmo raciocínio pode ser aplicado para essa perda de humanidade. O fato de estarmos perdendo um pouco de humanidade, de maneira alguma pode significar que corremos o risco de ficarmos... "nu com a mão no bolso".
Gabriel – Eu compreendo você, mas não quero esquecer que destruímos muitas coisas pelos caminhos que caminhamos. A floresta do pensar, coitada, está ficando deserta.
Marques – "[...] a própria humanidade do homem perde sua vitalidade na medida em que ele se abstém de pensar [...]" (ARENDT, 2008, p. 18).
Arantes – E os algoritmos estão cada vez mais a nos guiar, a pensar por nós, a indicar os caminhos.
Gabriel – Nesses mares, o nosso barco anda na direção definida pelos que programam tudo para que ninguém dê a mão a ninguém.
Marques – Estamos sendo condicionados a sermos individualistas, indiferentes às injustiças e a dor alheia e até mesmo inescrupulosos. Afinal é para isso que esse mundo da pseudomeritocracia nos desumaniza.
Arantes – Como diz o Quincas Borba: "[...] não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias" (DE ASSIS, 2012, p. 171).
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