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Marques – A força pública está na privada.
Gabriel – A atmosfera que prevalece é a que resume o cidadão a consumidor, o Estado a preposto e a soberania nacional a uma piada.
Felipe – O que você chama de "falta de soberania" é, na verdade, a substância da globalização, que promove o progresso, o crescimento econômico, em uma teia na qual um problema em uma parte pode afetar a teia como um todo.
Gabriel – Você sabe que eu não sou contra a globalização. O que eu lamento é que ela seja usada como um mecanismo para a máquina do tempo neoliberal conduzir o futuro para um passado colonialista.
Gusmão – Você está "viajando". Não há nada parecido com colonialismo.
Felipe – Eu sei que no mundo dos negócios as transações não são realizadas em pé de igualdade. Os mais fortes impõem condições desfavoráveis aos mais fracos, mas isso não se aproxima da realidade colonial.
Gabriel – Se prevalece a lei do mais forte, onde fica o deixa fazer, deixa circular?
Marques – Fica nas capas e cartolas dos ilusionistas.
Arantes – A liberdade para fazer e circular é para os que podem fazer e circular.
Marques – O espírito colonizador – espírito de porco – continua a assombrar.
Gabriel – E se, por exemplo, o nosso país quisesse exorcizar essa assombração; só por querer ficar livre dela, já passaria de assombrado a assombroso, mal-assombro, representaria uma ameaça à "harmonia" do modelo neoliberal promotor do colonialismo dos nossos dias.
Marques – E provavelmente passaríamos para o grupo formado por: China, Rússia, Coreia do Norte, Irã, Venezuela, Cuba...
Arantes – Mas ser independente, defender sua soberania, não significa ser uma sociedade não capitalista.
Marques – Hoje, ser uma sociedade capitalista ou não, não tem a menor importância quando se trata de não dançar conforme a música neoliberal.
Gabriel – O modelo é brutalmente intolerante, qualquer alternativa a ele é uma ameaça a ser esmagada.
Felipe – Se ele fosse essa desgraça desenhada por vocês não teria vindo para ficar.
Gabriel – Meu amigo, a história está repleta de exemplos de coisas ruins que foram ou são dificílimas de serem removidas.
Marques – Os exploradores, por meio de seus modelos ou não, sempre deram as cartas. Ao longo do tempo, mudam-se os disfarces para preservar a face dos "nobres" senhores.
Arantes – Eu ouvia o meu avô dizer que "o mundo é dos mais espertos", hoje eu diria que o mundo é dos mais desonestos.
Gabriel – Sabemos que a exploração excessiva sempre existiu. Mas nas últimas décadas ela tornou-se mais elaborada, mais capaz de existir e negar a sua existência. E nessa atmosfera, no topo da pirâmide social, a desonestidade é cada vez mais ampla, profunda e intensa.
Arantes – Vemos o mapa-múndi cada vez mais, mais pintado com as cores dos "lobos em pele de cordeiros".
Gabriel – É essa capacidade de se disfarçar, de fingir ser o que não é, de enganar, que torna o neoliberalismo tão difícil de ser combatido, ele consegue promover viagens para o passado e vendê-las como viagens para o futuro. É exemplo disso essa nossa recente reforma trabalhista, na qual eles levaram a legislação na direção anterior à lei áurea e conseguiram vender essa volta ao passado como um caminho para o futuro, como modernização das leis trabalhistas.
Arantes – Na órbita neoliberal todas as reformas na área social, sejam na trabalhista, na previdenciária, na saúde, na educação... são sempre voltadas para sangrar a base da pirâmide para acumular no topo, são para promover a concentração de renda e consequentemente sufocar a imensa maioria. E esses retrocessos são sempre vendidos como evolução, modernização.
Marques – A fonte da vida neoliberal é a capacidade de enganar. E o calcanhar de Aquiles são as capas e cartolas que viabilizam essa enganação.
Gusmão – O mundo de vocês não está na história, só existe na imaginação dos três.
Gabriel – "Existem duas histórias: a história oficial, mentirosa, aquela que nos ensinam; e a história secreta, na qual se encontram as verdadeiras causas dos acontecimentos, uma história vergonhosa" (BALZAC apud JIMÉNEZ, 2020, p. 25).
Felipe – Vocês não deveriam esquecer que isso que chamam de mentir e enganar tem tido uma função social e é indispensável para o funcionamento da sociedade. O mundo não comporta a verdade. Às vezes a escondemos até das pessoas que mais amamos.
Arantes – Você sabe que não somos radicais, não viajamos no barco do "ou oito ou oitenta".
Gabriel – E o fato de sabermos que é difícil buscar a verdade não deve nos levar a aceitar que a mentira se alastre sem limites. O fato de não podermos viver no planeta verdade não deve nos levar para o planeta mentiras.
Arantes – Estamos numa barca na qual você defendendo o capitalismo (a concorrência, a meritocracia, a oportunidade) pode ser tachado de comunista.
Gabriel – Para os moços que dão as cartas, meritocracia é estar no degrau mais alto e não importa como se chega até lá. Ser incomodado pela concorrência é para quem não é filho de um deus que abre caminhos para os seus. Os gigantes privilegiados não aceitam que haja liberdade para quem "ameaça" os interesses deles.
Arantes – Qual é a liberdade que há para quem for assediado por um gigante? O assediado poderá dizer que não está a venda?
Marques – Delmiro Gouveia, por exemplo, não pôde, não teve essa liberdade.
Felipe – Estamos em outro tempo, a realidade é outra.
Marques – Vivemos em outro tempo, nesse templo de mentiras?
Gabriel – Os mais de cem anos que se passaram de Delmiro para cá não passam de um passado que não passa.
Arantes – Mas se você criticar esse passado, que está presente no templo neoliberal, é porque você é um comunista desgraçado.
Gabriel – O neoliberalismo favorece os privilegiados. E para eles é fundamental que a gente viva nesse templo de mentiras. Como é que eles iriam colocar o mundo em seus barcos e jatinhos sem pôr as mãos no controle da narração?
Arantes – Como é que os mestres da escuridão iriam fazer a festa se vivêssemos em um mundo iluminado? O que seria dos ilusionistas sem suas capas e cartolas?
Gabriel – "O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção [...]" (ARENDT apud KAKUTANI, 2018, p. 9).
Marques – Ao olhar para os horizontes eu vejo os ares cada vez mais favoráveis ao show dos ilusionistas.
Arantes – Depois nos perguntamos por que vivemos num mundo tão doentio.
Gabriel – O gás neoliberal subtrai oxigênio e nos enche de veneno. O percentual do gás neoliberal na atmosfera que respiramos não para de aumentar. Ele é inodoro e incolor, mas nos deixa um sabor. Amargamos os frutos do neoliberalismo, comemos o pão que ele amassou.
Gusmão – O modelo tem lá suas imperfeições, mas está longe de ser algo que envenene a atmosfera ou que viabilize a debilitação dos sentidos e promova uma sistemática manipulação.
Marques – Nessas alturas do campeonato você ainda tem coragem de dizer que o neoliberalismo não promove uma sistemática manipulação?
Arantes – Ele não existe sem manipulação, ela o pariu e o alimenta.
Marques – Manipulação, mentira, hipocrisia, cinismo, dissimulação, desfaçatez são partes integrantes da espinha dorsal do neoliberalismo.
Arantes – Por exemplo, o que foi feito na reforma trabalhista de 2017 – vender uma reforma escravocrata como libertadora – é uma amostra representativa do espírito neoliberal.
Marques – Ele é isso, mete a mão no bolso do trabalhador, suga, e diz que nutre o sugado.
Arantes – Essa é a poesia neoliberal, nela a palavra não precisa estar entre aspas para significar o seu antônimo. Na barca neoliberal pode, sem nenhuma sinalização ou entoação, iluminar ser escurecer, abrir, fechar; libertar, acorrentar... pode o ser ser um ter, pode o ser não ser nada, pode tudo para quem pode.
Marques – Mas o que é bom para o mercado é bom para todos.
Felipe – Eu nunca vi ou ouvi alguém falar isso.
Marques – Não usam essas palavras, mas defendem essa ideia o tempo todo.
Arantes – E cinicamente negam que aquilo que pode ser uma delícia para os mais ricos, pode ser muito amargo para o trabalhador.
Gusmão – A verdade de vocês é apenas de vocês.
Arantes – Aqui não há essa verdade. Apenas pincelamos sobre um quadro captado pelas nossas retinas.
Gabriel – O neoliberalismo, alimentado pelo gás da mãe manipulação, cada vez mais se apodera de tudo. Coloca sua feição no mercado, no Estado, na sociedade, no homem, na vida...
Marques – E os neoliberais fazem com a riqueza pública uma festa privada. Não querem nem saber de barreiras, fronteiras, cercas, porteiras ou qualquer outro tipo de limite.
Gabriel – Estão a atear fogo em tudo que eles considerem obstáculo para o espetáculo privado.
Arantes – Fazem isso para se apoderar de tudo. Eles só não buscam se apoderar daquilo que não possa interferir na expansão deles e na composição do ar que respiramos.
Felipe – Você tem certeza que se sente à vontade para acreditar no capitalismo e criticar o neoliberalismo?
Arantes – O neoliberalismo amplia e aprofunda as falhas do capitalismo, aquele impede que este funcione melhor.
Marques – O filho da manipulação alimentado por toda a família dela intensifica a exploração e promove a deformação dos sentidos.
Gabriel – No palco neoliberal, as nossas visão e audição estão nas mãos dos ilusionistas. Nesse palco vemos e ouvimos o que eles querem que seja visto ou ouvido.
Marques – Eles nos hipnotizam e nos fazem vestir a camisa deles.
Arantes – No palco neoliberal, prevalece uma atmosfera na qual fato e falso passeiam no mesmo compasso e vestem a mesma roupa.
Felipe – É claro que há uma comédia da vida real, mas creio que ela seja necessária e até divertida.
Arantes – Não consigo enxergar nenhuma graça nessa debilitação dos sentidos, nessa deformação do que nos torna únicos no reino animal. Não posso achar graça nessa metamorfose.
Marques – Engraçado é dizer que é preciso imbecilizar as pessoas, ao mesmo tempo em que se diz que as pessoas não vivem melhor porque são imbecis, merecedoras de todo o sufoco que passam.
Gusmão – Quem diz isso?
Felipe – Está exagerando, Marques!
Marques – Calma, eu sei que vocês são muito eufemistas. Eu sei que fazer as pessoas de tolas, debilitar os sentidos, tornar as pessoas vulneráveis aos ataques manipuladores, ao bombardeio de notícias falsas... são práticas que vocês a elas atribuem outros nomes.
Arantes – Sem debilitar os sentidos, sem impedir que as pessoas vejam com os próprios olhos, sem neutralizar o senso crítico, como funcionaria a "fabricação de consensos"?
Gabriel – Explícita e desavergonhadamente os agentes do neoliberalismo responsabilizam o indivíduo pela condução de um barco do qual ele não sabe nem sequer onde fica a direção.
Marques – "Para a felicidade da sociedade é necessário que a grande maioria permaneça ignorante e pobre" (MANDEVILLE apud LOSURDO, 2006, p. 113).
Arantes – O tempo que passou não levou esse espírito dos moços que dão as cartas e vivem do que nos mata.
Felipe – Repito: "Ninguém se submete voluntariamente aos seus iguais e se o cavalo soubesse tudo o que um homem sabe, eu certamente não gostaria de ser o seu cavaleiro" (MANDEVILLE apud LOSURDO, 2006, p. 115).
Arantes – Degradar para explorar. É o espírito neoliberal.
Marques – De outro modo, ele não seguiria em frente.
Arantes – É isso! Sustentar o insustentável faz parte da filosofia desses moços.
Gabriel – Nela, os que vivem no sufoco estão assim porque não fazem por onde estar em outra situação. Não merecem coisa alguma ou são merecedores de tudo que passam.
Marques – Essa é a cara do neoliberalismo. Ele nos torna humanos menores.
Arantes – O mundo neoliberal é um mundo de mentiras.
Marques – A mídia neoliberal semeia e cultiva as mentiras no mundo.
Gabriel – Ela distorce a realidade e essa distorção danifica a humanidade.
Felipe – Creio que vocês estão sendo pessimistas. Vivemos em uma era na qual é difícil esconder a realidade por muito tempo. Nessa atmosfera onde quase nada permanece escondido, a história nos desenha um quadro bem representativo do que realmente existe e existiu.
Marques – Puta que pariu! Você não está se dirigindo a uma plateia. Isso aqui é uma conversa entre a gente. Pensamos diferente, mas ninguém aqui será punido pelo que falar. Então não vamos pôr a nossa conversa abaixo do nível do mar.
Arantes – Vivemos em um mundo vigiado, mas os "olhos artificiais" que estão em todas as partes não servem aos nossos olhos, são servidos e se apoderam deles.
Marques – As coisas estão sendo, cada vez mais, construídas em cima de bases podres.
Gabriel – "O historiador sabe o quão frágil é a tessitura dos fatos no cotidiano em que vivemos" (ARENDT apud KAKUTANI, 2018, p. 11).
Arantes – Para mim, é claro que o fortalecimento dos "olhos artificiais" tem fragilizado o nosso ponto de vista, tem rebaixado as bases sobre as quais nos erguemos para enxergar os horizontes.
Gusmão – O mundo sempre construiu em cima de bases corroídas. Não foram as novas tecnologias que trouxeram isso.
Arantes – Mas a era da informação, que viria para diminuir a quantidade de construções de má qualidade, as ampliou!
Gusmão – Então, agora você lamenta o surgimento dos novos recursos de comunicação?
Arantes – É claro que não. Lamentável é o mau uso deles.
Marques – Esse mau uso reforça as forças que nos empurram para o planeta cinismo.
Gabriel – "Ao lado da ansiedade e da depressão, devemos pensar principalmente no cinismo como sintoma de 'um mundo sem culpa'" (SAFATLE, 2008, p. 138).
Gusmão – Eu não vejo, por ângulo algum, essa febre, esse cinismo revelador de um "corpo social" doentio.
Felipe – Não temos o mundo saudável que desejamos, temos o que podemos. Eu sei que as ações dos principais veículos de comunicação têm colaborado para termos um mundo mais cínico. Mas esses veículos são ferramentas fundamentais para o controle social. E o cinismo é apenas um efeito colateral de uma vacina absolutamente necessária para esse controle, que previne contra possíveis desarranjos no "corpo social".
Arantes – É impressionante como tudo se justifica em nome do tal controle social.
Marques – Em regra, o que prevalece nos principais veículos de comunicação é a defesa dos interesses dos proprietários e patrocinadores e a degradação do senso crítico para impedir que consigamos filtrar o que recebemos desses meios de comunicação.
Gabriel – Filtrar o que recebemos, andar na companhia do "por que" e não se contentar com as causas superficiais são comportamentos que o mundo neoliberal não comporta. E a mídia, regente da orquestra que nos faz dançar, toca tudo para que a gente não toque em nada que interfira nas comportas dessa represa neoliberal.
Marques – A "imparcialíssima" mídia neoliberal esconde as causas dos acontecimentos?
Gabriel – Não são as luzes, são as forças da escuridão quem norteia a "linha editorial" dessa mídia neoliberal que não informa, deforma os que bebem apenas nessas fontes.
Arantes – As causas que desencadeiam outras causas não podem surfar nas ondas neoliberais, não podem entrar na pauta.
Gabriel – As causas que dão origem a outras causas que dão origem as causas da fome, da concentração de renda, do passeio das finanças... são negadas, escondidas em uma caixinha sem vida e fechada com sete chaves.
Arantes – A cara da fome não aparece nos quadros pintados para "pintar o sete".
Marques – Se nem sequer ela aparece nas telas, imagine se as causas dessa vergonha vão aparecer!
Felipe – Eu creio que nos meios de comunicação que vocês chamam de "mídia neoliberal" não tem mesmo que haver espaço para o tema fome e muito menos para as causas dessa situação, porque isso não contribuiria em nada para melhorar as coisas, pelo contrário: poderia promover uma insegurança social.
Marques – Se eu vivo no sufoco e sei que isso não é porque Deus quis – não é porque eu mereço essa situação, e sim por causa das ações de certos moços – haverá alguma possibilidade de eu me opor aos causadores. Mas se for o contrário, se eu culpar a Deus ou a mim mesmo pela oportunidade que eu não tenho, continuarei a caminhar na direção contrária da escada rolante sem saber por que não saio do lugar.
Arantes – Como que é melhor que eu não tenha consciência que estou sendo escravizado? Melhor pra quem?
Gusmão – As críticas sobre as causas da fome eu até entendo, mas sobre as causas da concentração de renda, para mim, não têm sentido devido à naturalidade desse processo.
Arantes – Naturalidade? Quando eu era criança eu ouvia meu avô dizer: ganha dinheiro quem tem dinheiro! E eu achava que essa era uma boa justificativa para a realidade social. Mas hoje, olho para o malabarismo dos mágicos das finanças que abocanham cada vez mais os frutos dos esforços alheios e não vejo nada que possa justificar a crescente concentração de renda e o passeio desses moços das finanças.
Marques – As causas da crescente concentração de renda e as da fome são irmãs gêmeas! São duas faces da mesma moeda.
Gabriel – Nessa nossa era da informação neoliberal as causas não vêm ao caso. Outro dia eu parei para ver uma matéria dramática sobre migração. Os que analisavam a matéria conseguiram falar, por uma eternidade, sobre as causas desse tema, sem demonstrar nenhum sinal de que as causas que estavam sendo analisadas eram apenas as superficiais. Falaram infinitamente sem mergulhar, um pouquinho que seja, vinte centímetros abaixo da superfície do lago ou da lama onde nadavam. Para mim, como receptor, aquilo equivale a um cachorro perseguindo o próprio rabo. Com a diferença de que a ação do cachorro me descontrai e a deles repugna-me.
Gusmão – Eu vi uma bela matéria sobre migração: brasileiros que iam para o Japão, os Estados Unidos, Portugal...; italianos, alemães, chineses, japoneses e outros que vieram para o Brasil.
Gabriel – Mas o que eu falo não se trata dessas histórias bonitinhas, não representativas da atual realidade da migração.
Arantes – Eles jamais se aprofundam em um debate sério sobre as causas da migração ou de qualquer outro problema social.
Marques – Vão se aprofundar como, se todos os caminhos levam aos cardeais que os abençoam? Se disserem que a causa da fome é a escassez de alimentos, como vão explicar os motivos para não existir o suficiente? Se disserem que é a falta de recursos como vão explicar a farra dos financistas e a concentração de renda? Se disserem que é a preguiça do necessitado como vão explicar os motivos de não haver emprego para todos? Como vão explicar que o modelo neoliberal é incompatível com o pleno emprego? Se disserem... Como se aprofundar sem rasgar os disfarces e expor a face sombria do neoliberalismo? Como se aprofundar sem expor os cardeais exploradores, que são seus patrões ou patrocinadores?
Gusmão – Gabriel, o que apresentaram como causa da migração?
Gabriel – Os da mídia neoliberal mostravam o drama migratório e falavam muito para dizer apenas que as pessoas estavam fugindo da guerra (que, na verdade, era uma invasão massacrante).
Arantes – Por que ou pra que promovem guerras ou invasões massacrantes é uma reflexão que não cabe na grade da mídia neoliberal.
Marques – Por que nesse momento estão massacrando as pessoas na Faixa de Gaza?
Gusmão – Para destruir o Hamas.
Marques – Puta que pariu! Todo mundo sabe que destruir o Hamas é apenas um pretexto.
Felipe – Ao mostrar os dramas migratórios, a mídia toca as pessoas e as motiva a doarem comidas, remédios, roupas...
Marques – Mas jamais desperta para que se busque as raízes desses dramas migratórios, ou de qualquer outro problema social.
Arantes – Remédios para aliviar o sofrimento, sim. Mas vacina para preveni-lo, não. Esse é o espírito da mídia neoliberal.
Marques – Aliviar o sofrimento? O que os neoliberais fazem em prol dos que sofrem parece mais com um programa piloto feito para ser exibido em propagandas enganosas.
Arantes – Há muita gente passando fome por aqui. Isso é por que o Brasil é naturalmente pobre?
Gusmão – Se os políticos não fossem tão corruptos não existiria tanta gente passando fome.
Marques – Na mídia neoliberal a gente vê e ouve apenas sobre a corrupção dos políticos, mas não é preciso muito esforço para que a gente possa perceber quem são os grandes usurpadores, os que tornam a vida mais difícil, os escravocratas atuais.
Arantes – Os moços das finanças passeiam, controlam a "fabricação de consensos", e fazem os sentidos terem o sentido que os interessa. Usufruindo desse controle, como eles podem ser responsabilizados por alguma coisa?
Felipe – Eu creio que a "fabricação de consensos" é indispensável.
Gabriel – "Todo mundo tem o direito de ter suas próprias opiniões, mas não seus próprios fatos" (MOYNIHAN apud KAKUTANI, 2018, p. 16).
Arantes – Essa não se aplica ao barco neoliberal.
Marques – Para o barco neoliberal a verdade é uma pirâmide egípcia, nele não cabe e o afundaria.
Gabriel – Aqui, neste mundo neoliberal: "[...] o sistema financeiro rouba e a imprensa mente, invertendo causa e efeito, tornando invisível o assalto real e distorcendo sistematicamente a realidade" (SOUZA, 2018, p. 270).
Marques – As fake news, a realidade paralela e as pérolas que a extrema direita consegue vender são impulsionadas pelo que fez e faz a mídia neoliberal, afinal ela e os radicais são filhos dos mesmos pais.
Felipe – Comparar os que saem do ninho da serpente com qualquer ala dos neoliberais eu acho que é um pouquinho demais.
Marques – Com "filhos dos mesmos pais" eu não quero dizer que são iguais, e sim que servem à mesma religião, à mesma mão invisível de um deus.
Arantes – A meu ver, para os que dão as cartas os meios de comunicação são mais importantes do que tudo. Nenhum outro instrumento contribui mais para a conservação da exploração excessiva do que a mídia neoliberal.
Gabriel – "[...] como já dito por Umberto Eco, quem controla os meios de comunicação controla o mundo" (apud JIMÉNEZ, 2020, p. 27).
Arantes – O chicote, a pólvora, a espada e toda a segurança pública e privada, evidentemente, não seriam suficientes para preservar o neoliberalismo.
Gabriel – O feudalismo, a escravidão, o colonialismo, assim como o neoliberalismo ou qualquer outro modelo excessivamente exploratório não foram ou não são sustentados apenas pelos meios de violência explícitos. Os meios para controlar as mentes e ganhar os corações formam as principais partes da espinha dorsal que sustenta um modelo excessivamente exploratório. Dos velhos meios de controle (religião, bíblia, mitos, teorias convenientes...) aos novos que brotam por meio da internet, todos têm sido, em maior ou menor grau, partes integrantes dessa espinha dorsal que sustenta o navio dos piratas.
Arantes – Atualmente a mídia neoliberal substitui o feitor, o capitão do mato, as correntes e tudo que sirva para pôr a senzala dentro de nós.
Gusmão – Não acho que seja certo comparar a mídia com atores do passado que serviram a exploradores cruéis.
Felipe – As práticas do feitor, do capitão do mato e de outros que conduziam os escravos hoje seriam ações criminosas. Essas práticas não podem ser comparadas às utilizadas pela grande imprensa.
Arantes – Não podem ser comparadas? Ontem eles eram o braço direito dos exploradores, hoje é a mídia neoliberal que exerce esse papel.
Marques – Esse papel de vaqueiro ou de pastor que é exercido pela mídia neoliberal é tão perverso quanto o exercido pelos que serviam aos escravocratas propriamente ditos.
Felipe – Eu sei que a grande imprensa tem contribuído para fragilizar a racionalidade e viabilizar a exploração, mas não concordo que isso possa ser classificado como um papel perverso.
Gusmão – Esse papel da mídia pode não ser decente, mas é absolutamente necessário.
Gabriel – Queimar na fogueira uma pessoa viva, decapitar, torturar e tantas outras atrocidades já foram, um dia, tidas como absolutamente necessárias.
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