Dois mais dois é igual a cinco
Marques – Para mim, essa ampliação da atmosfera cínica não é uma fatalidade, é resultado das ações dos deuses que dão as cartas nesta nave azulzinha, é produto e produtora da prevalência das finanças sobre o homem. De certa maneira, o ter comprou o ser. Não é a economia para o homem, é o homem para a economia. Essa inversão perversa cada vez mais atravessa a nossa vida, cada vez mais o valor que vale é o do mundo das finanças. Os valores humanos meus e seus só serão levados em conta se não contrariarem os interesses dos que nos veem como números em uma conta.
Arantes – Eu não tenho nenhuma dúvida que o estrago feito por esse "trator", movido por um único valor, é grande causador da poluição do ar que respiramos e do lamaçal que nos atinge.
Gusmão – Não concordo com essas críticas de vocês, para mim a evolução humana brilha em nossos dias.
Marques – Penso que você está propenso a confundir a evolução tecnológica com a humana. Social e politicamente andamos a passos de tartaruga.
Gusmão – E você é contra a evolução tecnológica, deseja a "destruição das máquinas"?
Marques – Claro que não. As inovações são bem-vindas, delas eu desfruto. O avanço tecnológico é positivo, negativo é o uso dessas ferramentas para desumanizar: neutralizar o pensar, o enxergar, o emancipar... debilitar a humanidade.
Arantes – Não é só a bomba atômica que representa o mau uso das tecnologias, dia após dia explodem por aí coisas nocivas que danificam as estruturas da humanidade.
Gusmão – Deixe-me ver se entendi, os frutos do neoliberalismo, que você tanto critica, são bem-vindos, mas o neoliberalismo é maldito. Correto?
Arantes – O que há de bom para a Humanidade há apesar do neoliberalismo, não graças a ele.
Gabriel – O neoliberalismo tira humanidade da Humanidade.
Marques – Às vezes, eu acho que o Gusmão veste algumas roupas da extrema direita. Outro dia eu vi um governante extremista de direita – por "coincidência" neoliberal como o Gusmão – pedir aplausos pelas poucas ações corretas que ele tinha executado e negar qualquer responsabilidade sobre os erros da administração dele, culpando sempre os outros até mesmo pelos erros que ele próprio cometeu. Para mim, essa face do tal governante representa a face neoliberal que está por baixo das máscaras com as quais o modelo se apresenta.
Gabriel – Lembro-me do universo do Brás Cuba, onde os séculos: "[...] continuavam a passar, velozes e turbulentos […] o século presente, e atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros [...]" (DE ASSIS, 2014, p. 54/55).
Arantes – O passado está presente. Os que dão as cartas sempre agem para impedir qualquer mudança que diminua os privilégios deles. E o neoliberalismo parece que foi costurado por alfaiate, feito sob medida para atender aos interesses dos mais ricos. Um dos principais feitos do neoliberalismo é a ampliação da fome e da concentração de renda. A mão invisível do senhor deus neoliberal é a mão de um Robin Hood ao contrário: ela sangra a base da pirâmide para acumular no topo.
Felipe – Onde você enxerga essa ação neutralizadora promovida "pelos que mandam"?
Arantes – Vamos olhar para uma conquista da Humanidade: o fato de todos votarem e de o voto de cada um ter o mesmo peso, "um homem, um voto," é uma das conquistas que vieram depois de muitas lutas. Dar poder ao povo, obviamente, nunca foi um desejo dos poderosos. O que os moços que dão as cartas fizeram para neutralizar essa conquista? O que sempre fazem quando o povo está indo para frente, eles sorrateiramente colocam esteiras ergométricas no caminho do povo para que mesmo andando para frente sejamos puxados para trás.
Felipe – Onde você vê essas esteiras ergométricas?
Arantes – Eu as vejo por todos os caminhos que nos leve e eleve o nosso espírito. O caminho da maturidade, da emancipação, da autonomia, do pensar, da democracia, da cidadania, da dignidade...
Gabriel – O neoliberalismo tem debilitado certas conquistas da Humanidade. O direito de participar das decisões – de ser representado onde elas forem tomadas e consequentemente de desfrutar da democracia – está entre essas conquistas que são significativamente atingidas pelas manobras dos que mais se beneficiam desse modelo.
Marques – Vejamos o nosso Congresso Nacional: é bancada da indústria religiosa, da ruralista, da armamentista... Era para ele ser composto por membros que representassem o povo, nos representassem!
Gabriel – Essa distorção torna-se uma ferrugem que aos poucos vai deteriorando os pilares da democracia. E nessas deteriorações, obviamente, estão as digitais dos que mais ganham com isso, os privilegiados que são produtos e produtores do neoliberalismo.
Gusmão – Para mim, esse problema de representação só reforça a ideia de que os indivíduos são os únicos culpados pelos danos que sofrem ao serem arrastados pelas "águas das enchentes". São eles próprios que jogam nas ruas e nas urnas os lixos que "entopem os bueiros". Eles fazem escolhas ruins, por isso são mal representados.
Gabriel – Os indivíduos estamos em um barco no qual nem sequer sabemos onde fica a direção. Como que o indivíduo é o único responsável pelas turbulências que ele enfrenta nesse barco?
Felipe – Eu, particularmente, acho legítimo que o mundo das finanças imponha limites ao mundo da política.
Gabriel – Que todos os poderes precisam encontrar limites, quem se opõe a isso? Mas os das finanças não impõem, implodem os limites que eles queiram transformá-los em pó.
Arantes – Eles ultrapassam todos os limites e marcham rumo a uma nova forma de totalitarismo. Cada um deles marcha a passos largos vestido em um sobretudo norte-americano.
Marques – O espírito neoliberal é um espírito de porco.
Arantes – Esse modelo jamais pôde, nem poderá, aparecer em público sem máscaras.
Gusmão – Você vê fantasma por todas as partes.
Arantes – Você acha que ele pode?
Felipe – O mundo nunca comportou a verdade. Não esqueça o que foi dito há séculos a.C. pelo homem que foi obrigado a tomar cicuta: "O fato é que pessoa alguma sobreviverá se opor-se com franqueza a vós ou a qualquer outra multidão [...]" (SÓCRATES apud PLATÃO, 2019, p. 55).
Gusmão – Outro dia eu vi, em um programa de humor, alguma coisa mais ou menos assim: no mundo de hoje, se você falar a verdade é louco; se não falar a verdade é mentiroso. E aí, você é louco ou mentiroso?
Marques – A diferença entre a realidade e a aparência sempre existiu. Vivemos em um mundo no qual a verdade é bem-vinda quando é conveniente. Mas isso não pode servir para naturalizarmos o alargamento desse fosso infecto.
Gabriel – Em outro lugar eu estava falando sobre nossa condição de país subdesenvolvido. Eu falava sobre fome, moradores de rua, assassinatos..., e alguém quis justificar esses problemas sociais dizendo: Isso também existe em países desenvolvidos. Eu disse, sim, eu sei que existem, mas em que proporção? Compare, proporcionalmente, a nossa população de moradores de rua, a nossa população carcerária, o nosso espantoso número de assassinatos... Compare os nossos problemas sociais com os de qualquer país desenvolvido.
Marques – Para mim, é indecente essa conversa de: Ah, nos países desenvolvidos também há os mesmos problemas. Como também é indecente a gente naturalizar o mar de mentiras que existe, só porque a gente sabe que sempre houve mentiras, que sempre houve uma diferença entre a realidade e a aparência.
Arantes – Ela existe, sempre existiu e vai existir, mas o fato de a gente não poder eliminá-la, não pode nos levar a achar natural que ela não pare de crescer.
Gabriel – Outro dia eu vi na TV que a vigilância sanitária tinha encontrado pelos de roedores em excesso no extrato de tomate. Não sei por que, eu falei para minha esposa: então é aceitável que haja pelo de ratos no extrato de tomate?! Ela riu e citou uma lista de coisas nocivas que são toleráveis: de pelo de roedores nos alimentos e coliformes fecais nas águas à soda cáustica nos alimentos e outras substâncias nocivas nos processados que ingerimos. Diante desse quadro, eu diria que também há pelos de roedores no espírito de cada um de nós: mentira, hipocrisia, cinismo, dissimulação, manipulação, egoísmo... esses pelos de roedores, essas bactérias estão em nós também. Em alguns, em uma quantidade ínfima que – ao contrário do que encontramos nos alimentos processados, por exemplo, – não causa nenhum mal. Em outros, em quantidades toleráveis e em outros em quantidades inaceitáveis. Então, creio eu que sempre conviveremos com pelos de roedores nos extratos de tomate e nos nossos espíritos, mas é preciso fortalecer a vigilância sanitária para que os excessos possam ser contidos.
Marques – A sujeira que polui os espíritos é lucrativa para os moços que dão as cartas e descartam os limites.
Gusmão – Quem ultrapassa todos os limites são os políticos, eles sim devem ser criticados.
Marques – Os nossos representantes do legislativo e os nossos escolhidos para o executivo são atacados permanentemente.
Gusmão – Onde você vê ataques aos políticos?
Marques – Na mídia neoliberal e em outros meios da indústria cultural. Por exemplo, vemos com frequência, nos shows de stand up e fora deles, os humoristas fazerem inúmeras piadas sobre os nossos representantes. Mas eu não vejo uma única piada referente: aos juros que pagamos por uma dívida que não fizemos, ao fato de vendermos açúcar para comprar caramelo, ao milagre da multiplicação dos pães e dos peixes dos deuses rentistas...
Arantes – Quem realmente põe, pra valer, as mãos nos nossos bolsos, são os moços das finanças, mas isso não vem ao caso.
Marques – Ao nosso lado, hora ou outra, aparece alguém culpando apenas os políticos pelos problemas sociais. Isso é ou não é um reflexo das ações da mídia neoliberal?
Gabriel – Outro dia eu estava em um Uber e vi no pulso do motorista um símbolo do CSA, que estava vivendo um bom momento no futebol, e, depois de confirmar que ele era torcedor do CSA, falei: seu time está muito bem. Ele disse:
─ Tá vendo aí, foi só tirar um político e botar um empresário que as coisas funcionaram.
─ Realmente o CSA tinha tido momentos ruins nas mãos de alguém que tinha ocupado cargo eletivo e naquele momento estava muito bem nas mãos de um empresário. Mas só isso seria suficiente para a impetuosa e talvez inconsciente defesa da bandeira neoliberal?
Marques – A fala do motorista é mais um exemplo dos efeitos do veneno que a mídia neoliberal lança sobre a sociedade.
Gabriel – Ela, o tempo todo, vende a ideia de que quem pode trazer bons frutos para o povo é o agente privado e não o público. O privado é o competente, o decente, o honesto, o trabalhador... É essa atmosfera que favorece o passeio dos cardeais neoliberais pela legislação, pelos recursos naturais, pelo orçamento público...
Marques – Pra que sufrágio universal? Os cardeais neoliberais é que deveriam escolher os deputados, senadores, governadores e Presidente. Coloquemos nossos interesses nas mãos dos cardeais neoliberais. Teremos um mundo melhor se colocarmos a força pública na privada.
Arantes – Nós não acreditamos em Papai Noel, mas há muitos adultos por aí que acreditam que quem pode guiar bem essa nave azulzinha é o agente privado.
Marques – E, além disso, ultimamente foi fortalecida a ideia de que os mais ricos são caridosos. É a onda da filantropia.
Gusmão – Você vê algo negativo em dar comida a quem tem fome?
Marques – Sabe o que é negativo, é você acumular explorando o meu suor e depois lançar migalhas aos seus pés para que eu as recolha. A filantropia neoliberal é uma hipocrisia colossal.
Arantes – No passado, eu ouvia muito aquela que diz: "é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus". Eu sei que a finalidade dela é: enganar aos pobres. Mas havia um efeito colateral: a percepção de que os mais ricos não estão nem aí para o sofrimento dos pobres. Hoje o neoliberalismo consegue vender a ideia de que os mais ricos são homens bons, filantropos; ou socialmente responsáveis.
Gusmão – As coisas estariam piores sem as ações filantrópicas e as socialmente responsáveis.
Arantes – Estamos falando da hipocrisia dos neoliberais em torno dessas ações filantrópicas e das socialmente responsáveis. Há esse grande número de pessoas em más condições porque esses "nobres" filantropos conduzem um modelo que oprime e causa miséria, que é matéria-prima para essa indústria da filantropia maquiar a face do "nobre" neoliberal.
Gabriel – Essa indústria é uma filial muito pálida da indústria do pão e circo.
Marques – Eu diria que ela está mais para um programa piloto feito para ser usado em uma propaganda enganosa.
Gabriel – É nesse passeio pelo planeta hipocrisia que se cria o mito da filantropia dos ricos.
Marques – As nuvens da justiça social estão cada vez mais distantes, sumindo no horizonte.
Arantes – Nessa atmosfera neoliberal, falar em justiça social é uma heresia inaceitável.
Felipe – Vocês criticam fortemente as ações hipócritas. Vocês realmente acreditam em justiça social?
Gabriel – A democracia é um regime ruim, mas até hoje a Humanidade não criou outro melhor. Essa que é a melhor criação da Humanidade, para a finalidade que ela tem, está longe de ser uma área com fronteiras bem definidas. Não faltam por aí discussões sobre as fronteiras da democracia. Se quisermos podemos até discutir a existência dela. E se mergulharmos fundo vamos chegar a um ponto em que a democracia não existe. Então, meu caro Felipe, você acha que é hipocrisia falar em democracia?
Felipe – Claro que não. Tudo bem. Aceitemos que é aceitável falar em justiça social. Mas de qualquer modo, não há como negar que se trata de um tema espinhoso.
Gusmão – Eu acho abusivas as pretensões carregadas por essa bandeira da justiça social. E não entendo por que vocês, antineoliberais, esquecem que é a iniciativa privada que sustenta o Estado e, consequentemente, sustenta os que mais precisam do assistencialismo estatal.
Marques – Alguém que eu conheço, iria dizer agora: você acha que fazer justiça é uma injustiça?
Arantes – Bom, pelo raciocínio do Gusmão, o Estado é um Robin Hood e os pobres são os parasitas dos ricos, que são os que sustentam tudo.
Gabriel – Eu sou brasileiro. Uma parte da riqueza natural que há no Brasil pertence a todos os brasileiros. A iniciativa privada usa nossos recursos naturais, explora nossa mão de obra... O Estado viabiliza o funcionamento dos geradores de riquezas, promove a segurança necessária para vida em sociedade...
Arantes – Quem é que não sabe que não é possível as coisas funcionarem sem a atuação do Estado?
Marques – E toda a riqueza que é produzida sustenta-se, direta ou indiretamente, em três bases: o trabalho, o capital e os recursos naturais. E quem mais trabalha não são os mais ricos. Então, que história é essa de que quem está na base da pirâmide é sustentado por quem está no topo?
Gabriel – Os ricos pagarem impostos não é uma caridade ou um desperdício, é realmente uma quitação de uma dívida. As riquezas não são construídas com uma lâmpada mágica ou com uma varinha de condão.
Marques – Todos sabem que pagar impostos não é apenas um dever legal, é também moral. As ações para que os mais ricos paguem menos impostos são apenas ferramentas do estoque de cinismo dos neoliberais.
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