Os mesmo ilusionistas com outras roupas
Arantes – Lembrei-me das manifestações de 2013. Eu, como a imensa maioria, acreditava estar diante de manifestações espontâneas, como se fosse possível que manifestações espontâneas, aqui, pudessem receber a cobertura que elas receberam da mídia neoliberal.
Gabriel – Essa mídia foi capaz de tentar esconder até o movimento das Diretas Já.
Marques – Quando eu vejo os movimentos sociais nessa mídia, eles estão sendo demonizados, atacados.
Gusmão – Nem todos os movimentos sociais são atacados.
Marques – Mas eu falo dos movimentos sociais que defendem a justiça social, as conquistas sociais, o mínimo existencial, os trabalhadores, o interesse público; não de movimentos sociais patrocinados pelos mais ricos e abraçados por esta que é o braço direito do neoliberalismo: ela, a mídia neoliberal.
Arantes – Se o movimento de 2013 tivesse sido espontâneo estaríamos diante de um milagre.
Gabriel – Talvez algum deus magicamente iluminou a consciência das pessoas.
Arantes – Com certeza "foi Deus", por meio de seus agentes disfarçados de jornalista, de agente público, de Papai Noel...
Marques – Deus controla todas as coisas, inclusive o orçamento público. O povo não precisamos nos preocupar com nada: funcionamento do banco central, auditoria da dívida pública, soberania nacional, percepção da realidade... deixa tudo nas mãos do senhor deus.
Arantes – O herege que fala em auditar a dívida pública deveria ser queimado vivo numa fogueira neoliberal.
Marques – Para os privilegiados, a dívida pública é fonte perene, na qual lágrima, suor e sangue se transformam em ouro.
Felipe – Eu sei que há excessos por parte de alguns segmentos do sistema financeiro, mas isso não justifica que o Estado seja um Robin Hood, que meta a mão na riqueza alheia para sustentar um assistencialismo insustentável.
Gabriel – Os agentes que produzem riquezas fazem uso de riquezas que a todos pertencem. Riquezas materiais e imateriais. O Estado não é um parasita, nem um Robin Hood. O papel do Estado é ser um racionalizador que possa fazer com que todos os seus cidadãos se sintam filhos da pátria que formam. Todos somos herdeiros da pátria e da humanidade. E é a herança que permite a evolução. Todo conhecimento é desenvolvido em cima de algo que já existe. Algo que é transmitido. Sem a transmissão do conhecimento não teríamos evoluído. Seríamos apenas um animal como outro qualquer.
Marques – Obviamente é por herdar o conhecimento que se pode desenvolver novos conhecimentos. A parte mais alta de uma edificação sempre se apoia nas partes que vieram antes.
Gusmão – Quem produz riqueza são os mais ricos. Dar segurança e liberdade para eles atuarem é o que impulsiona o crescimento econômico que é indispensável para que haja progresso.
Marques – Qual é? Você sabe quem são os mais ricos. Estamos nas mãos dos moços das finanças, você sabe que não são eles quem realmente produzem riquezas. A direção dessa nave azulzinha está ficando cada vez mais nas mãos desses mágicos, milagreiros, alquimistas... eles encontraram a pedra filosofal para transformar o que eles tocam em ouro. Magicamente multiplicam suas riquezas. O milagre de Jesus com os pães e os peixes não chega nem aos pés dos milagres operados pelos moços que estão cada vez mais guiando a nossa nave azulzinha.
Arantes – Fortalecidos por esses meios de colher o que não plantaram, os moços nos obrigam a viver sob a ditadura das finanças.
Felipe – Isso é um exagero! A nossa democracia, assim como as principais, está muito bem estabelecida.
Arantes – Bem estabelecida? Só se for nas mãos dos moços das finanças. A atmosfera que prevalece nos faz caminhar para "[...] um mundo mais caracterizado por 'cada dólar, um voto' que por 'cada pessoa, um voto'" (STIGLITZ, 2020, p. 23).
Marques – Estamos sendo fritados em um azeite mal adquirido por uns moços bem vestidos.
Arantes – E o Estado é, cada vez mais, um charuto cubano no bico dos moços das finanças.
Gabriel – Para mim, a obsessão dos moços das finanças por "menos Estado" faz sentido, pois quanto mais eles reduzem o Estado, mais facilmente eles o têm na palma da mão. E assim, eles tocam o samba, bailam no giro da ciranda e brincam de deuses. Ganham de presente o passado que traz o regime de irresponsabilidade estatal, não respondem por nada que façam, privatizam os bônus, socializam os ônus e reinam como imperadores absolutistas.
Arantes – Cada vez mais o mundo neoliberal é um lugar no qual os deuses das finanças não respondem pelo que eles causam. Podem causar crise que causa desemprego que causa fome que causa... Podem causar à vontade! Qualquer desgraça fica de graça.
Marques – A liberdade que há para os moços das finanças nos prende nas contas a pagar, na indústria dos antidepressivos, no medo do desemprego, da fome, de ficar para trás, nos acorrenta nos porões da servidão; danificam nossos olhos, ouvidos e todos os sentidos.
Arantes – Vivemos no mundo da bolsa. A bolsa fica nervosa, sobe e desce... para balançar as estruturas. E nós somos jogados pra lá e pra cá sem nenhuma consciência sobre o deus da força que fuça na bolsa.
Marques – A bolsa causa terremotos, dores e destroços, mas jamais machuca os que fazem girar a biruta.
Arantes – "Eles criaram um novo despotismo e o embrulharam nos vestidos de sanções legais" (ROOSEVELT, apud BELLUZZO; GALÍPOLO, 2017, p. 22).
Marques – E nessa atmosfera impera aquela que não se diz, mas diz: trabalhador, quando o negócio der lucro, o lucro é meu; quando der prejuízo, o prejuízo é seu.
Gusmão – Isso é um absurdo sem pé, nem cabeça!
Marques – Absurdo é negar que quando a economia vai bem, eles vão enchendo os bolsos; quando vai mal: é arrocho salarial, desemprego, fome, desassistência estatal...
Arantes – E, além disso, em períodos de crise, nos quais a maioria dos cidadãos estão sendo afetados, como, por exemplo, esse da Covid-19, a gente vê os mágicos das finanças voarem alto e festejarem.
Felipe – Olha, é claro que não há santidade no sistema financeiro, mas eu não sei se as coisas funcionariam de outro modo.
Arantes – Já funcionou antes, quando o domínio do mundo das finanças não era tão amplo e profundo como é hoje. Eu não creio que possamos ir bem sendo movidos por tantas imoralidades, tantas ações ilegítimas. Nessa atmosfera, como podemos diferenciar as ações extremas dos grupos das finanças das de grupos criminosos?
Gabriel – Não é apenas moralmente, a apropriação da riqueza pelos que não produzem riqueza – especuladores e outros saqueadores – é reprovável sob qualquer perspectiva.
Gusmão – Não sei por que vocês negam a importância do sistema financeiro.
Gabriel – Aqui não há essa negação. Eu acredito no capitalismo. Eu não acredito é nesse modelo que viabiliza o controle do Estado e da sociedade por um deus mercado marcado pelos moços das finanças e cada vez mais inclinado para a preservação de privilégios e não para a promoção do mérito e da concorrência. Nesse aspecto, o espírito que prevalece no mercado está mais para o feudalista do que para o capitalista.
Gusmão – Você realmente acha que dá pra separar o capitalismo do neoliberalismo?
Gabriel – Eles não são carne e unha, não nasceram juntos. O neoliberalismo (o liberalismo econômico) veio para temperar o capitalismo ao gosto dos moços que defendem a meritocracia, mas que não aceitam ter apenas o que merecem.
Marques – Sabe aquela velha ideia de: aos amigos, os favores; aos outros, os rigores da lei. Ela ainda não é baixa o suficiente para se igualar a baixeza dos "nobres" defensores da meritocracia que não precisam ter mérito para conquistarem os seus troféus.
Gabriel – Creio que o neoliberalismo envenena o capitalismo. Ele é voltado para neutralizar os efeitos do capitalismo sobre os privilégios feudais.
Marques – O espírito do capitalismo sempre foi favorável à manutenção de privilégios.
Gabriel – Capitalismo e feudalismo são a mesma coisa Marques? Os nobres senhores feudais receberam o capitalismo de braços abertos?
Marques – Olhando por esse ângulo, podemos aceitar que o capitalismo surgiu para podar as árvores da exploração.
Arantes – Estamos, cada vez mais, nas mãos dos extremistas das finanças.
Gusmão – Não sei onde vocês veem esse extremismo dos homens das finanças e essa inclinação do neoliberalismo para a conservação de privilégios?
Gabriel – O extremismo dos moços das finanças está em diversos meios que eles usam para colher o que não plantaram. As arapucas estão armadas em agência de risco, bolsa de valores, FMI e outros instrumentos que, por baixo da máscara da imparcialidade, escondem o escudo do Sport Club Financista. Por esses e outros meios, os mocinhos que surfam as ondas da especulação, da chantagem, do comportamento de agiota, põem a faca no pescoço dos que fazem o setor produtivo para que estes suguem ao máximo o trabalhador. E ameaçam o governo para que este governe conforme os interesses deles... Voam alto e fazem um carnaval.
Arantes – Quanto ao papel do neoliberalismo para preservar os privilégios, para mim, é inegável que o deixa fazer, deixa circular, não favorece que seja feito ou circule qualquer coisa que contrarie os interesses dos que mais ganham com o modelo neoliberal.
Gabriel – Um país subdesenvolvido é livre para se industrializar? É livre para realmente ser dono dos seus recursos naturais?
Arantes – Uma nação subdesenvolvida pode se defender dos colonizadores atuais? Pode sobrepor os interesses do seu povo aos dos deuses do mercado?
Marques – Nós – trabalhadores, consumidores e contribuintes – podemos nos defender dos roubos que são praticados por meio de baixos salários, juros altos e indecentíssima dívida pública?
Arantes – Qual é a liberdade que há para se opor a esses juros altos ou para defender que a nossa dívida pública seja auditada?
Gusmão – Que viagem! Não há essa censura.
Marques – Não há? Quem é livre para se opor, na grande mídia, aos juros altos ou as trevas que envolvem a dívida pública?
Arantes – Quem no Congresso Nacional ou no Palácio do Planalto é livre para falar em auditar a dívida pública sem ser apedrejado?
Gabriel – Por mais indecentes que sejam os privilégios, quando alguém marcha contra eles não tem liberdade para progredir nesse caminho.
Marques – O neoliberalismo existe para conservar os privilégios e, além de não aceitar que exista uma alternativa a ele, é tomado por um espírito oligárquico, favorável ao controle de tudo e todos por pouquíssimos.
Gabriel – No jogo entre os privilegiados e os outros, o "que vença o melhor" só é aceito quando os outros não tiverem chance de vencer.
Marques – De certa maneira, o neoliberalismo oferta cheques em branco para os privilegiados moços das finanças. Nessa atmosfera de "liberdade" para lucrar, quem tem mais chance de "se dar bem"? Os que são, pelo escrúpulo, impedidos de meter a mão no que não é deles, ou o sujeito inescrupuloso que faz a festa com o que é nosso e nem sabe o que é remorso?
Gabriel – O neoliberalismo não torna as pessoas inescrupulosas, mas favorece o passeio dos moços menos escrupulosos. E assim, cada vez mais, as chaves que abrem as principais portas estão indo sem alvoroço para as mãos de certos moços.
Marques – Para mim, o neoliberalismo é muito venenoso. E o capitalismo, mesmo que retirem o veneno neoliberal, não tem jeito.
Felipe – Aqui somos cinco cidadãos e você é o único que pensa assim. Ainda bem que esse pensamento é minoritário aqui entre nós e em quase todos os lugares.
Gusmão – Vocês que estão criticando o mercado, esquecem que nós também somos o mercado, somos consumidores. Fazemos parte das decisões.
Arantes – Fazemos parte das decisões? Um certo dia, eu vi umas crianças numa sala assistindo televisão, a que estava com o controle nas mãos disse para as outras que ela iria assistir o que quisesse. Esse "fazemos parte das decisões" me fez lembrar o "vou assistir o que eu quiser".
Marques – Pois é, no mundo mágico do Gusmão, o telespectador tem controle sobre a programação da TV.
Arantes – O controle está nas mãos dos telespectadores?
Gabriel – Sem dúvida, é o telespectador que está nas mãos do controle.
Arantes – Para mim, a força do consumidor sobre os que dão as cartas no mercado é a mesma que a de uma criança sobre a programação da TV.
Marques – No capitalismo o trabalhador não será sujeito, será sempre objeto.
Arantes – Creio que a sua desilusão com o capitalismo diminuiria se diminuísse a diferença entre o que ele é e o que ele se diz ser.
Gabriel – Nessa diferença está a massa de bolo que recebe muito fermento neoliberal.
Arantes – Para mim, o capitalismo é como o efeito estufa, não podemos ficar sem ele, mas não podemos suportar a sua radicalização.
Gabriel – Pois é, precisamos diminuir a poluição do ar, o passeio dos tratores neoliberais em nossas florestas e a festa de outros causadores de emissão de gases que tornam o capitalismo, assim como o efeito estufa, ameaçador.
Arantes – Não dá para negar que o neoliberalismo é o pai dos principais excessos do capitalismo.
Marques – Não vamos esquecer que o "deixa fazer, deixa circular" é uma restauração apresentada como revolução. E esta coloca a nave em direção ao passado e diz que a conduz para o futuro.
Gusmão – A evolução está a todo vapor e você diz que estamos indo para trás?
Arantes – Ao contrário das ciências e das tecnologias, que avançam; a evolução humana está em baixa. Talvez esteja até mesmo andando para trás.
Gabriel – A busca pela verdade, a honestidade, a virtude... As coisas que não têm preço, não têm o apreço do mundo neoliberal. A racionalidade que se harmoniza com o "penso, logo existo", que estimula a busca pela verdade, que serve para o nosso amadurecimento, para a nossa emancipação, está sendo empurrada para trás pelas forças neoliberais.
Marques – Estão querendo passar a borracha nos principais traços que nos diferenciam dos outros animais.
Arantes – Com os ventos soprando nessa direção, os mocinhos vão definindo o que é certo ou errado, verdade ou mentira... Vão passeando como e por onde quiserem.
Marques – Vivemos em um mundo no qual os mentirosos definem o que é verdade ou mentira.
Arantes – Cito como exemplo, essas agências de checagem de fake news criadas por veículos da mídia neoliberal, são de embrulhar o estômago.
Marques – Para mim, elas são amostras representativas do espírito neoliberal.
Arantes – O neoliberalismo passeia soberano nos últimos quarenta anos, justamente por estar montado em um cavalo encantado que traz o passado embrulhado de presente.
Gabriel – "De modo geral, o neoliberalismo faz voltar, sob as aparências de uma mensagem muito chique e muito moderna, as ideias mais arcaicas do patronato mais arcaico" (BOURDIEU, 1998, p. 49).
Marques – Negar que o povo estamos sendo sufocados por esse gás neoliberal é querer tapar o sol com uma peneira.
Gusmão – Pois eu aprecio o desenvolvimento que eu vejo!
Marques – Não esqueça que a vida não se resume ao desenvolvimento tecnológico.
Felipe – Em alguns pontos realmente pode haver retrocessos, mas creio que são sacrifícios necessários.
Arantes – Sacrifícios necessários? Por acaso você aceitaria que sua capacidade de pensar fosse debilitada em troca do que quer que seja?
Marques – O espírito feudalista do neoliberalismo é incompatível com o "penso, logo existo".
Gabriel – Ele precisa do homem incapaz, não emancipado, tutelado.
Arantes – É justamente por isso que ele procura controlar os meios de comunicação e apagar qualquer luz que não seja uma lanterna em suas mãos.
Gabriel – Mas ele não seria incompatível com aquela ideia de que a obediência cega é uma virtude.
Arantes – O atual sistema feudalista lista o que quer, despista o que é e descarta o que não quer.
Gusmão – Que loucura! Nesse seu desenho caricatural não há um traço aproveitável.
Felipe – Realmente, não há como comparar os traços dos nossos dias com os da idade das trevas.
Gabriel – Pois para mim, vários traços feudais saltam aos olhos em nossos dias. Os cavaleiros dos moços mais ricos continuam a recolher a maior e melhor parte do que produzimos. Hoje os canais de exploração (os cavaleiros) são outros: os juros, a inflação, a privatização dos recursos públicos, o salário de fome..., mas a essência da exploração é, praticamente, a mesma. Os senhores feudais continuam nos sangrando. O ímpeto para impedir que o homem pense e possa ver com os próprios olhos permanece a todo vapor. O homem político continua sendo combatido e empurrado para compor o rebanho tangido pelo pastor. Hoje o feudo do senhor feudal não pode ser apresentado pela geografia, mas no mapa das minas encontramos as digitais do explorador.
Arantes – Até no ensino, eu vejo proximidades entre os dois períodos tão distantes. Na idade das trevas, os senhores feudais queriam que o ensino se resumisse a lógica, a gramática e a retórica; os senhores feudais de hoje querem que o ensino se resuma à formação de mão de obra. É o ensino para criar robôs, softwares e outras inteligências artificiais.
Marques – Acredito que os das finanças, atualmente, são mais feudais (exploradores) do que os senhores feudais propriamente ditos.
Felipe – As águas naturalmente correm para o mar. Na idade média o mar eram os senhores feudais, hoje são os senhores das finanças. É assim, sempre foi e sempre será. E os que querem mover as montanhas apenas causam destruição.
Marques – Só faltou você dizer que as mudanças não agradam a Deus. O que está sendo destruído, pelos que querem a preservação dos privilégios, é o que há de mais valioso em nós: é aquilo que nos diferencia dos outros animais.
Arantes – Apesar de todo o verniz da modernidade, o espírito neoliberal se equivale a uma rudimentar máquina de caldo de cana. E o operador dessa máquina, o agente neoliberal, trata o povo como um vendedor de caldo trata a cana. E nessa brincadeira a distância entre o bacana e o bagaço de cana não para de aumentar.
Marques – O neoliberalismo é incompatível com a liberdade.
Gusmão – Assim você não quer conversar, quer me fazer r
Gusmão – Assim você não quer conversar, quer me fazer rir.
Arantes – Olha, o "deixa fazer, deixa circular", nunca deixou a maioria fazer ou circular. A liberdade econômica nunca existiu para a América Latina, para a África, nem para algumas sociedades orientais.
Marques – Nessas três partes do mundo, eu diria que há liberdade econômica nelas, mas não para elas.
Gabriel – Com o neoliberalismo ou sem ele, os citados nunca tiveram liberdade econômica.
Marques – Mas ele sistematizou a exploração e vestiu com as sedas do merecimento os corpos dos piratas saqueadores que festejam nos ares e nos mares das finanças.
Arantes – Esse modelo é um aprisionador que se vende como libertador.
Marques – Faz parte dos costumes neoliberais fingir tocar pra Deus e fazer o show para o satanás.
Gusmão – O mais forte explorar o mais fraco é algo natural.
Marques – É natural que no neoliberalismo não haja liberdade para os "mais fracos" (América Latina, África, sociedades orientais...)?
Gusmão – Claro que é.
Marques – Então por que você desdenhou da afirmação de que o neoliberalismo é incompatível com a liberdade?
Arantes – Como pode haver liberdade onde impera a lei do mais forte?
Gabriel – O neoliberalismo não consegue existir sem ferir gravemente a liberdade, a igualdade, a democracia...
Felipe – Dizer que o neoliberalismo é incompatível com a democracia é demais.
Gabriel – Pois para mim, a liberdade neoliberal é oligárquica e abre caminhos para que os moços das finanças possam violar diversas bandeiras democráticas e consequentemente debilitar a democracia.
Marques – O princípio fundamental "um homem, um voto" é um dos princípios democráticos que são desvalorizados pelos valores das finanças.
Arantes – E o princípio da igualdade é um valor que não vale nada nessa nave neoliberal.
Marques – Efetivamente, todos somos iguais perante a lei? Uma vida humana é igual à outra independentemente da classe social?
Arantes – A igualdade na atmosfera neoliberal é uma piada.
Gabriel – Nessa atmosfera, o valor da vida depende da posição social do vivente.
Gusmão – Uma sociedade planificada seria um desastre.
Marques – Mas aqui, ninguém está defendendo isso! Estamos falando de igualdades que vocês neoliberais dizem que existem, mas não existem.
Arantes – E o desrespeito a essa igualdade fundamental, que preserva a vida, que promove a dignidade humana, a cidadania, a harmonia social, contribui para a ampliação dos mais graves problemas sociais.
Marques – Não estamos nem sequer falando de combater a desigualdade, estamos falando apenas de combater o crescimento dela.
Arantes – As estatísticas mostram que a desigualdade bate recordes e mais recordes nesses tempos que estamos presos à liberdade econômica.
Gusmão – Se o neoliberalismo fosse realmente tão nocivo como vocês descrevem, ele não estaria aí tão vigoroso por tanto tempo.
Gabriel – Esse modelo jamais mostra a sua verdadeira face, conquista o público se apresentando com disfarces. Esse, para mim, é o "nó que não desata", é o pretérito mais-que-perfeito que embaralha o tempo para nos oferecer o passado embrulhado de presente.
Arantes – O tal do "fabricar consensos" faz parte dessas técnicas ilusionistas que fazem o público aplaudir as habilidades mágicas que o cega.
Marques – Os mágicos fazem o público jogar contra o próprio patrimônio. E nessa atmosfera surge uma chuva de gols contra.
Arantes – E nesse campo, ao contrário do de futebol, em geral, o autor do gol contra nem se dá conta do seu feito.
Marques – Pra você saber que fez um gol contra, precisa saber qual é o seu lado.
Gabriel – Para mim, é evidente que o modelo desfila para puxar o tapete da democracia.
Marques – Ontem alguns agentes dos moços que dão as cartas, disfarçados ou cobertos pelo manto da imparcialidade, chegavam a dizer que eram eles que sabiam o que era melhor para o povo; hoje essa não cola mais. Mas ela não se perdeu, ela se transformou em outras bandeiras com a mesma função: ser meios para a exploração e preservação dos privilégios.
Arantes – "O desprezo da elite pela democracia revelou-se de maneira eloquente e impactante na reação às revelações e aos vazamentos de informações do WikiLeaks" (CHOMSKY, 2017, p. 65).
Marques – Esse caso do WikiLeaks, o apoio a golpe de Estado, a parceria com ditadores pró-mercado... são alguns dos exemplos que demonstram como a democracia é desprezada por esses moços.
Gabriel – Cada vez mais, seja lá pra onde for que a gente olhe, olhamos para as propriedades dos moços que dão as cartas. Cada vez mais a nossa praia é deles, a nossa voz é deles, os nossos olhos, braços, pensamentos... são deles.
Marques – Às vezes, eu tenho a impressão que a nossa democracia foi transformada em mais um produto do mercado.
Gusmão – Daqui a pouco você vai dizer que todos somos escravos.
Marques – Não é isso. Mas sabemos que os moços debilitam a democracia para que cada um de nós sejamos muito mais mão de obra do que cidadãos e para tornar o Estado incapaz de combater os privilégios que eles desfrutam.
Gusmão – Do que você fala?
Marques – Quanto à ação contra o povo, eu nem preciso explicar; quanto ao Estado, eu posso lembrar que no passado qualquer ação que mexesse nos privilégios dos "nobres" era tachada de iliberal e despótica. Hoje o que testemunhamos quando um governo tenta reduzir os privilégios dos moços? Eles conseguem vender a ideia de que esse governo está sendo antidemocrático.
Gabriel – Veja como estamos evoluídos, como crescemos com as novas tecnologias, crescemos tanto que se um governo quiser levar a sério a defesa dos nossos interesses, esse governo será visto por nós mesmos como um tirano que precisa ser derrubado.
Arantes – Lembrei-me agora do meu avô. Ele gostava de dizer que se você for denunciar o roubo dos homens do dinheiro, você é quem vai ser preso.
Gabriel – Sempre foi assim. Sócrates, Jesus, Giordano Bruno, Galileu Galilei... foram condenados pelos mágicos que hipnotizam o público e tiram da cartola o que eles quiserem tirar. Os trajes dos mágicos modernos mudaram, mas a essência continua.
Arantes – O neoliberalismo é o sumo de todo o ilusionismo produzido ao longo do tempo.
Marques – Os séculos passaram, muitas coisas ficaram para trás, mas aquela velha ideia de que se você não quiser ser liberal não é digno de ser livre nunca foi expurgada do espírito neoliberal.
Felipe – Essa ideia de radicalização, intransigência, intolerância, esse espírito tendente ao totalitarismo não tem mais nada a ver com os dias de hoje.
Marques – Não tem? O neoliberalismo continua radicalmente intolerante a qualquer alternativa a ele.
Arantes – Nem precisa ser uma alternativa a ele. Basta não segui-lo plenamente.
Marques – Ele acabou de nos impor uma sofisticada versão do "Brasil, ame-o ou deixe-o". Nem sabemos como serão as cicatrizes, estamos ainda curando as feridas. Acabamos de sair de um período – de 2016 a 2022 – no qual era mais prudente ou pelo menos mais confortável não se opor ao trator neoliberal.
Gusmão – Você quer colocar na conta do neoliberalismo a festa fascista desse período?
Marques – A atuação das bancadas da bala, do boi, da bíblia; o papel das fake news em forma de jornalismo e entretenimento; os "movimentos sociais" financiados pelos mais ricos, o Escola sem Partido; os ataques à educação, à cultura, à saúde, aos direitos sociais; o descaso com as vítimas da Covid-19; o crescimento da desigualdade, do desemprego, da fome, do entreguismo, da demonização da política... Meu amigo, todos os ingredientes desse bolo fazem parte da receita neoliberal fascista.
Arantes – O espírito neoliberal expulsa dos nossos espíritos a consciência política justamente para debilitar a democracia, para torná-la vulnerável, manobrável conforme os interesses dos favorecidos por esse espírito.
Marques – A finalidade dos constantes bombardeios à política é nos asfixiar. Se eles debilitam e controlam os nossos representantes onde é que fica a democracia?
Arantes – Na palma das mãos deles.
Gabriel – É claro que a criminalização da política significa debilitar a participação, usurpar a representação e, consequentemente, neutralizar a democracia.
Marques – A democracia direta é impraticável. Precisamos da representação, não dá para seguir em frente sem ser transportado por ela.
Arantes – Debilitar os nossos representantes significa nos estrangular como eleitores e nos fragilizar como cidadãos.
Arantes – O professor Darcy Ribeiro diz que "A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto" (apud GOMES, 2020, p. 44). Creio que o mesmo pode ser dito para a crise política. A crise política não é uma crise, é um projeto.
Felipe – Eu creio que a democracia precisa ser contida. Para isso, no passado, era usado o porrete; hoje é o algoritmo. Manipular a consciência das pessoas, "fabricar consensos", não é um ato nobre, mas é necessário para tornar a democracia funcional. Essa manipulação é indispensável para que as coisas funcionem bem.
Arantes – Esse mundo de fome, de concentração de renda, de desemprego, de arrocho salarial, de medo de ficar para trás, de baixa percepção da realidade, de festa nas indústrias dos juros, das privatizações dos recursos públicos... esse mundo está funcionando bem?
Marques – O mundo neoliberal é um mundo de ilusão, de infantilização, de cabrestos apertados nas escolas e rédeas soltas para os cavalos das finanças.
Gusmão – Que invenção! Cabrestos nas escolas? Escolha outra, essa não cola!
Marques – É invenção os ataques ao ensino de noções de sociologia e filosofia em nossas escolas? É invenção a tentativa de amordaçar os professores, materializada em um projeto de lei: o Escola sem Partido?
Arantes – Esses são apenas dois exemplos recentes, essa história é bem longa.
Gabriel – Recentemente vimos que alguns papagaios tiveram a desfaçatez de alardear que a reforma educacional de 2017 chegaria para proteger os alunos do proselitismo dos professores.
Marques – O que seria de nossa sociedade se os nossos jovens não fossem "protegidos" por esses revolucionários neoliberais que aparecem para livrá-los das maldades dos professores?
Arantes – Nesses ataques aos professores encontram-se, "[...] sob aparências revolucionárias, os meios de destruir qualquer transmissão do saber crítico" (MICHÉA apud DUFOUR, 2008, p. 139).
Marques – Os ventos neoliberais sopram para dificultar que a gente possa: ver com os próprios olhos, ser dono do próprio nariz, participar das decisões que afetam nossa vida, ser representado onde elas forem tomadas...
Gabriel – Representação e participação são palavras nocivas aos ouvidos neoliberais mais do que fogos aos ouvidos dos cães. O neoliberalismo é antidemocrático.
Marques – Para reduzir o tamanho do homem político e a população formada por ele, os agentes do neoliberalismo atacam, constantemente, as linhas de transmissão do conhecimento emancipador. Isso, evidentemente, contribui para promover a debilitação da participação popular e para corroer a representação.
Arantes – A virtude, a vontade de ver com os próprios olhos, a busca pela verdade, tudo que sirva para o nosso amadurecimento é atacado pelo hegemônico modelo.
Marques – Não sei onde alguns arranjam coragem para negar a existência de impurezas no ar que respiramos.
Gabriel – O mundo neoliberal cheira mal.
Arantes – O motorista de um figurão disse, para mim, que o patrão dele – seguidor do Paulo Guedes – costuma dizer que tirar dos pobres para dar aos ricos é uma forma de multiplicar a riqueza. Pois pobre é como gafanhoto, acaba com tudo. E assim, no fundo, no fundo, ao explorá-lo, os ricos estão o protegendo.
Gusmão – Ah! Isso é conversa, ninguém fala uma coisa dessas.
Gabriel – Não fala? Dê uma olhadinha para trás. Relembre o que falavam para justificar: a escravidão, o massacre aos índios, os saques dos colonizadores...
Felipe – Mas tudo isso é do passado.
Arantes – Do passado é o fato de os mocinhos (filhos de Deus, suseranos, senhores escravistas) afirmarem que tinham legitimidade para fazer o que faziam com os "inferiores" (pagãos, hereges, selvagens, primitivos). Hoje ainda continuam fazendo o que querem, mas negam.
Gabriel – Do passado são as cenas (mensagens) explícitas usadas para justificar o injustificável (pode escravizá-los porque são uma raça inferior. Pode assassiná-los e tomar as terras deles porque são selvagens...). Hoje, na era do faz de conta, as mensagens são outras, mas a justificação do injustificável continua. Hoje há novas mensagens para as velhas obscenidades.
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