Tema Acessibilidade

Coisas que não têm preço

Gabriel – Eu acredito que os excessos relacionados ao individualismo, ao egoísmo e a outras mazelas do nosso espírito são, ao menos em parte, frutos dos ataques neoliberais ao que de melhor o homem produziu ao longo de sua existência.

Gusmão – E o que o homem produziu de melhor? O capitalismo?

Gabriel – Você sabe que eu vejo o capitalismo como insubstituível. Competição, mérito, oportunidade são, a meu ver, ingredientes indispensáveis para a confecção do bolo. Mas para mim, nada que seja do interesse imediato do senhor deus dinheiro está entre o que de melhor o homem produziu. Nessa prateleira eu não coloco as coisas que têm um preço, ela é para as coisas que não têm preço.

Gusmão – E o que você coloca na sua prateleira?

Gabriel – Para mim, o que o homem produziu de melhor está no espírito de cada um que se encontra com os pés no chão e com a cabeça no lugar, a olhar com os próprios olhos para terra, céu e mar.

Arantes – É essa elevação do ser humano que os deuses neoliberais procuram queimar na fogueira e transformá-la em cinzas.

Marques – Quase tudo que não tem preço, não tem o apreço dessas criaturas e os que não têm preço e são obstáculos para o barco neoliberal são apresentados como algo do mal ou ultrapassado, que precisa ser descartado ou descaracterizado.

Gabriel – Valores éticos e morais, princípios relacionados à honestidade, ao caráter, ao respeito, à liberdade, à igualdade, à fraternidade são componentes de um espírito que cultiva essa elevação do ser humano.

Arantes – Sermos próximos do porquê, buscar as causas das coisas, pensar, ter apego pela verdade, querer ser emancipado, apreciar a justiça social, tudo isso compõe o espírito que cultiva essa elevação.

Marques – Por outro lado, o que está por trás da ideia de "o fim da história" e também a tentativa de inutilizar o que foi produzido pelos que buscaram a verdade representam o sufocamento dos esforços que contribuem para a elevação da humanidade.

Felipe – As aparentes maldades são, na verdade, ações necessárias para que as coisas funcionem.

Gabriel – Eu não tenho dúvida que para o neoliberalismo ser o que se propõe a ser, ele precisa transformar a imensa maioria em fantoches.

Marques – É evidente que a manipulação é essencial para que se possa justificar o injustificável.

Arantes – "As liberdades subjetivas do sujeito de direito privado são só os fios em que os cidadãos autônomos dessa sociedade balançam como marionetes" (HABERMAS, 2016, p. 260).

Marques – Balançar como marionetes. Sempre que ouço isso me lembro das nossas eleições gerais. E as duas últimas (2018 e 2022), infelizmente, nos mostraram como estamos, cada vez mais, nas mãos dos moços que dão as cartas.

Arantes – Nesses dois pleitos, um perverso projeto neoliberal foi defendido, com unhas e dentes, por gente que se encontra entre os mais afetados pelo trator neoliberal: os que estão entre os 50% da parte de baixo da pirâmide social.

Gabriel – Na base da pirâmide sempre houve os que defendem aquilo que vai apertá-los ainda mais, mas é claro que os da base defender o neoliberalismo significa jogar contra o patrimônio, fazer gol contra. E também é inegável que os processos eleitorais de 2018 e de 2022 realmente mostraram que os que apertam estão apertando cada vez mais e conseguindo convencer que essa situação é a que há de melhor para os apertados.

Marques – Os ilusionistas sempre tiraram coelhos da cartola, mas agora tiram elefantes.

Arantes – Como é possível os "apertados" agirem contra os próprios interesses dessa maneira?

Marques – O vinho servido na igreja faz milagre, permite que o pastor conduza o rebanho para o abate e não bate nada no coração dos pobres animais.

Arantes – Os "pastores" das igrejas e da mídia neoliberal fazem milagres.

Felipe – Eu quero voltar à fala do Gabriel sobre os supostos ataques neoliberais ao que de melhor o homem produziu. Eu acredito que o que se faz é conter determinados avanços que poderiam afetar o funcionamento do sistema. Para mim, não há ataque, há um necessário controle social.

Marques – Você não se cansa de colocar todas as frutas podres do neoliberalismo no cesto mágico do controle social?

Gabriel – Meu caro Felipe, não creio que tentar diluir o conhecimento emancipador seja conter avanços de coisas prejudiciais; para mim, isso está mais para destruição de uma fundação indispensável para a elevação da humanidade.

Arantes – Essa destruição abre caminhos para a desumanização. Isso não pode ser vendido como controle social.

Marques – O neoliberalismo antes de causar danos ao estômago causa ao espírito.

Arantes – Não seria possível vender gato por lebre para quem consegue distinguir um do outro.

Gusmão – Eu sei que quem mata as pessoas de fome é o socialismo.

Felipe – Olha, exceto o Marques, ninguém aqui acredita em um mundo melhor sem o capitalismo. Daí, temos que aceitar as consequências da competição. Sempre existiram e existirão os que ficam para trás. É uma lei natural.

Gabriel – Não é a competição que causa fome e concentração de renda, são os excessos em torno dela: a competição desleal, o jogo de cartas marcadas e outras sujeiras disfarçadas de competição.

Arantes – Nessa ideia de "sobreviva o mais forte" há uma carga enorme de cinismo, de hipocrisia, de desfaçatez, de perversidade... Ela serve para que o "nobre" neoliberal se vista de bom moço e tente esconder seus verdadeiros objetivos: manter o pobre na pobreza, conservar seus privilégios, explorar sem limites...

Gusmão – Você está se esquecendo que a meritocracia prevalece.

Arantes – Já falamos disso. A meritocracia, assim como o controle social, tem servido de pretexto para exploração.

Gabriel – Eu, particularmente, acredito que tudo que há de ruim (fome, exploração e outras violências) existirá sempre. Mas isso não pode ser motivo para aceitarmos a crescente exploração neoliberal e o consequente crescimento dos problemas sociais.

Marques – Para mim, o darwinismoe o neoliberalismo são da mesma família e essa família quer que a maioria da população exista apenas para puxar a charrete que a transporta. E os que excedem a necessidade de mão de obra para puxar a charrete não precisam existir.

Arantes – O neoliberalismo joga nossa nave azulzinha nas mãos de certos moços que não estão em nenhum esboço.

Marques – A sensação que eu tenho é que ela foi jogada em uma máquina do tempo e viaja para o passado.

Gusmão – Não. Estamos na direção contrária! Nunca estivemos tanto na direção do futuro. A ciência e a tecnologia avançam noite e dia.

Marques – Nesse momento, nossa conversa é sobre a evolução humana, é sobre cidadania, virtude, honestidade; é sobre aquilo que não tem preço, que eleva a humanidade; é sobre nos livrar das viseiras de burro que limitam a nossa visão. Como já dissemos, não vivemos no planeta maravilhas e não é certo usar a bandeira da evolução científico-tecnológica para esconder o quadro mal pintado que aí está.

ESCRITO POR Magno Ferreira 1 K leituras
18 textos
Direitos Autorais

© 2026. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.

±100 leituras
Classificação de conteúdo:
Seguro

Publicado
Denunciar conteúdo
Este conteúdo foi publicado por um autor da plataforma e é de sua responsabilidade. Ele deve respeitar a Política de Conteúdo do Portal Escritores. Caso identifique alguma violação, utilize o Fale Conosco.

Comentários


Mais textos deste autor

Poesias

Não há tempo

Ganhamos tempo com a máquina de lavar, Com liquidificador, com o avião... Da cozinha às vias de comunicação,... [Continue lendo.]
Publicado