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A banda toca

Marques – Os deuses do "deixa fazer, deixa circular", os que limitam a nossa visão, para ter o povo nas mãos puseram cães-guia nas mãos do povo.

Arantes – Sem visão, ninguém segura a mão de ninguém e cada um que se segure no balanço desse trem.

Gusmão – Vai dizer que o individualismo também é produto da mídia?

Marques – A banda em questão toca conforme os toques do maestro. Sindicatos, partidos políticos, associações, movimentos sociais, tudo que possa fortalecer o povo assombra ao maestro mais do que a cruz ao satanás. Então como é que se pode dizer que a banda não põe o público para dançar conforme a batuta do maestro?

Arantes – O individualismo atrofia os canais coletivos, debilita os nossos papéis de eleitor, de cidadão... nos torna humanos menores.

Marques – Ele estimula o "salve-se quem puder", o "cada um por si", debilita os princípios humanísticos, tende a resumir os valores ao valor de mercado e a contribuir para que o consumo seja a razão da nossa existência.

Gabriel – "Desconfiamos que o mundo não padeça apenas sofrimentos de uma crise periódica do capitalismo, mas, sim, as dores de um desarranjo nas práticas e princípios que sustentam a vida civilizada" (BELLUZZO; GALÍPOLO, 2017, p. 206).

Arantes – Com tantas nuvens sombrias a pairar sobre as nossas cabeças, como é possível a mídia neoliberal conseguir vender a ideia de que estamos em "céu de brigadeiros"?

Marques – Fazem mágica. Os ilusionistas neoliberais são poderosos! São capazes de vender o mundo neoliberal como o melhor dos mundos.

Gabriel – Sabemos que o cinismo, a manipulação, a desfaçatez... são instrumentos para a exploração excessiva que caracteriza o neoliberalismo.

Marques – Que é uma "[...] ideologia que nos nega e amesquinha como gente" (FREIRE, 2018, p. 21).

Arantes – É para conservar esse cenário que os agentes da mídia neoliberal saltam com quatro pedras nas mãos para ameaçar a qualquer um que tentar mostrar o que eles escondem.

Felipe – É claro que a mídia combate as ideias que causam insegurança aos que promovem o progresso, mas dizer que ela ameaça a quem quer que seja é uma viagem rumo a lugar algum.

Gusmão – No quadro que está sendo desenhado, os que fazem a mídia estão sendo caracterizados como instrumentos utilizados pelos malvados exploradores.

Gabriel – No início do governo Lula, vimos uma gritaria, da mídia neoliberal, sobre a implementação ou não das reformas do ensino médio lançadas em 2017. Mas essa gritaria não era para poder debater; era para promover os interesses dos privilegiados. Toda a gritaria era voltada para promover a consolidação de uma reforma do ensino médio feita para torná-lo cada vez mais mero produtor de mão de obra, sem nenhuma base para formar cidadãos que possam ver com os próprios olhos e defender os seus interesses. O tecido da reforma do ensino médio de 2017 foi costurado por alfaiate, feito sob medida para atender aos interesses dos que querem cobrir a pele e a alma da maioria da população. Esse tecido foi feito para fazer macacão de operário e alma penada, tecido feito com couro de boi para viabilizar cada vez mais o crescimento da boiada.

Arantes – É por esse tecido servir a quem serve que ele voa leve nessa pesada atmosfera.

Marques – Quem disse que a mídia não ameaça ninguém? Ameaçar faz parte das práticas dessa mídia. Ela usa e abusa desse expediente para servir ao modelo ao qual integra. Como negar que há líderes, comunicadores, representantes do povo e tantos outros que morrem de medo de serem "fritados" por ela? Quantos exemplos não há de recuo de governantes, legisladores e outros após uma intervenção dessa usina de moer cérebros.

Gusmão – Meus queridos, se um legislador apresenta um projeto de lei e recua depois que a imprensa faz críticas a ele, é porque nesse tal projeto continha alguma coisa errada.

Marques – Puta que pariu! Não sei como você consegue falar isso. Quem não sabe que a mídia neoliberal não atua para combater coisas erradas, atua para defender determinados interesses. Quem não sabe que entre os interesses do povo e os dos moços das finanças ela tem um lado. Se os nossos parlamentares do Congresso Nacional propusessem: auditar a nossa dívida pública, proibir que sejam perdoadas as dívidas dos mais ricos, conter o entreguismo que usurpa os nossos recursos naturais... A mídia neoliberal seria a favor ou contra a qualquer uma dessas proposituras, ou a qualquer projeto nessa direção?

Gabriel – Por outro lado, se os mesmos membros do Congresso Nacional propusessem: reformar a educação para torná-la cada vez mais instrumental e menos cidadã, retirar mais ainda os direitos do trabalhador por meio de uma reforma trabalhista, debilitar mais ainda a previdência social para deixar os trabalhadores desamparados, ampliar mais ainda a autonomia do Banco Central para que ele, a pretexto de controlar a inflação, por meio dos juros altos, meta a mão no nosso bolso para abastecer ainda mais os cofres dos mais ricos... Aqui a mídia neoliberal seria contra a qualquer uma dessas propostas?

Arantes – Essa mídia é o principal partido de oposição a um governo progressista.

Marques – Para ter como oposição a usina que mói cérebros, o governo não precisa inclinar-se para a esquerda, basta querer diminuir a vazão das águas que correm para o mar. Medidas para conter o insano crescimento da concentração de renda são inaceitáveis para os insaciáveis senhores neoliberais.

Arantes – Vejo o mundo de cabeça pra baixo, vejo o mundo nos escombros e o homem lá embaixo com muito peso nos ombros.

Gabriel – Já falamos aqui do cinismo e da desfaçatez de algumas criaturas que não têm dificuldade para atribuir as suas características aos outros. O corrupto que chama os outros de corrupto, o mentiroso que diz que mentirosos são os outros... A extrema direita e outros grupos de fascistas exalam fortemente esse cheiro neoliberal. A epidemia de fake news que nos atinge é um reflexo desse tempo ruim, carregado de nuvens sombrias que são carregadas pelas ondas da mídia neoliberal.

Felipe – A extrema direita e os fascistas exalam o cheiro neoliberal? Daqui a pouco você vai sentir do neoliberalismo o mesmo que o Hugo Chaves sentiu do George Bush: o tal "cheiro de enxofre".

Gabriel – Não. O neoliberalismo exala cheiros mais realistas e mais fortes.

Marques – Não podemos falar de atores que atribuem suas características aos outros sem mencionar a mídia neoliberal.

Gusmão – Como que é possível a mídia atribuir aos outros as características dela?

Marques – Qual é a diferença do Trump que grita: "Ted Mentiroso", "Hillary Corrupta", "Bernie Louco"... para a mídia neoliberal, que grita contra aqueles que tentam contribuir para que possamos ver com os próprios olhos? Qualquer estímulo à emancipação do indivíduo pode ser visto como uma heresia que precisa ser alvejada pelas flechas da mídia neoliberal. Assim como o Trump, essa mídia também tem chamado de mentirosos, corruptos e loucos aqueles que tentam mostrar os truques que são escondidos pelas capas e cartolas dos mágicos que a compõem.

Arantes – Qual é a doutrina que tem causado fome e miséria e que passeia em cavalos imperiais nas últimas quatro décadas? E quem é a grande responsável pela conservação dessa doutrina?

Gabriel – A programação da mídia neoliberal é voltada para livrar os indivíduos dos hereges perigosos, que sonham em abrir caminhos subversivos, carregados de arrepiantes intenções de estimular o povo a enxergar com os próprios olhos.

Marques – Ela defende a liberdade, defende que todos estejam livres dessas ideias que estimulam o indivíduo a filtrar o que ele recebe dos meios de comunicação.

Arantes – Todos devem ser livres das ideias que não estão nas "quatro linhas" do modelo.

Marques – Lembrei-me dos livros "Nova História Crítica" do Mário Schmidt. A nossa mídia neoliberal bradou com quatro pedras nas mãos, ateou fogo nos livros e apedrejou o autor.

Gusmão – Mas esses livros mereceram tudo que foi feito para tirá-los da rede pública de ensino.

Marques – Você fala baseado no que recebeu da mídia neoliberal. Eu li os livros dessa coleção, livros do primeiro grau e do ensino médio. Neles eu não vi nada mais do que estímulos a pensar e a enxergar com os próprios olhos.

Gabriel – Para mim, o ataque aos livros foi mais uma ação coerente desses moços que não querem que o povo seja gente. Esses livros nos estimulam a pensar, a enxergar, a sentir. Nos estimulam a não ser um boi numa boiada orientada pelo aboio dos vaqueiros; nos estimulam a ser gente. E isso, para o espírito neoliberal, é uma heresia imperdoável. Portanto, o autor desse tipo de insulto precisa ser queimado vivo na santa fogueira neoliberal.

Arantes – "Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos" (KAMEL, GGN, 2022).

Marques – Enganar, fazer a cabeça, controlar... Se eu fosse o Felipe ou o Gusmão, eu não teria coragem de dizer que a mídia neoliberal não atribui aos outros o que ela faz.

Arantes – Lavagem cerebral, delinquência intelectual, propaganda ideológica... Foram algumas das expressões empregadas por essa mídia para se referir aos livros e ao autor em questão.

Marques – Podemos ou não dizer que a mídia diz: eu pinto o meu e digo que é o seu retrato?

Gabriel – Estão manipulando as nossas crianças nas escolas públicas!

Marques – "É isso o que deseja o MEC? Senão for, algo precisa ser feito, pelo ministério, pelo congresso, por alguém" (Kamel, GGN, 2022).

Gabriel – Às vezes, nos perguntamos: por que a extrema direita consegue fabricar e vender tantas mentiras? Por que as nuvens de fake news conseguem mover tantas montanhas? Por que há gente que acredita que a terra é plana? Por que presenciamos o avanço das marés que trazem a realidade paralela? Por que... Por que ficamos nos perguntando isso sem levar em conta que a mídia neoliberal é a incubadora de toda essa desgraça que aí está?

Felipe – Creio que vocês estão sendo um pouco pessimistas. Na medida do possível, a mídia cumpre sua função social e defende a liberdade!

Marques – Puta que pariu! Ela pisoteia quaisquer princípios para defender os interesses dos proprietários e patrocinadores. Isso é cumprir função social?

Gabriel – Ela defende a liberdade de quem?

Arantes – Quem anda nas rédeas pode ser considerado livre?

Gabriel – "Não alimentamos dúvida nenhuma… de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor" (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 13).

Marques – "Massa esclarecida", essa expressão deve ser mais nociva à audição dos neoliberais do que os fogos são para a audição dos cães nos festivais.

Arantes – É claro que eles precisam das trevas para pôr os sentidos no sentido que a eles interessam.

Marques – A era da informação é a era da deformação.

Gusmão – Quem informa, deforma?

Marques – Ah! Você sabe do que se trata.

Gabriel – Por que elegemos determinadas criaturas? Por que apenas as ditaduras não alinhadas aos Estados Unidos são repugnáveis? Por que a mídia neoliberal quis empossar o Guaidó como Presidente da Venezuela? Por que há a demonização da política? Por qual passarela passaram os apoiadores de Jair Bolsonaro que estavam em Brasília no dia primeiro de janeiro de 2019 gritando, entusiasticamente, os nomes do Facebook e do Youtube? Por que as revoluções coloridas? Qual a finalidade de movimentos sociais como o MBL e o Vem Pra Rua? Por que eles são aplaudidos, enquanto outros como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e oMovimentodos TrabalhadoresSem Teto são demonizados? Por que os governos cubanos e venezuelanos são tão atacados? Por que os russos, os norte-coreanos, os iranianos e todos que se opõem aos Estados Unidos são sempre os vilões? Por que querem transformar a reflexão autônoma em uma espécie em extinção? Por que a produção da fábrica de consensos bate recordes e mais recordes? Por que estamos presenciando o avanço da extrema direita? Por que os piratas das finanças se sentem com carta branca para pisar em pescoço preto e acorrentar os que estão na base da pirâmide? Por que há pessoas que desejam linchar, literalmente, um batedor de carteira e nem sequer sentem indignação com as sinistras práticas dos financistas que colhem o que não plantaram? Por que as pessoas não se incomodam em ver que no pior momento dos últimos tempos, quando a epidemia do coronavírus nos destruía física, moral e psicologicamente, os mais ricos bateram recordes de crescimento de suas fortunas e consequentemente aceleraram a ampliação da concentração de renda? Por que existe tanta fome? Por que a indiferença cresce assustadoramente? Por que somos cada vez mais desmemoriados? Por que?...

Marques – Creio que hoje somos mais hipócritas, cínicos, indiferentes e egoístas do que éramos ontem!

Arantes – "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela própria" (PULITZER apud SOUZA, 2019, p. 248).

Gabriel – Recentemente o Donald Trump falou que se tivesse sido reeleito em 2020 teria "tomado a Venezuela" e "pego todo o petróleo" daquele país. A meu ver, o indivíduo dá esse tipo de declaração, porque ele sabe que há um público que pela mera expectativa de vantagem é capaz de mandar para o inferno princípios e valores.

Marques – O indivíduo diz: vou tomar a riqueza de um "desalinhado" para fortalecer a nossa economia... "Já era!" Tem o apoio, expresso ou tácito, dos que bailam ao som da mídia neoliberal.

Arantes – O passado não passou. Ontem era moralmente aceitável que os "civilizados" saqueassem a riqueza dos "primitivos" ou dos "selvagens", hoje, essa moral imoral, de certa maneira, continua.

Gusmão – Gabriel, você acha que são injustas as críticas aos governos cubanos e venezuelanos?

Gabriel – A mim não interessa julgar se são justas ou não as críticas a eles. Interessa-me saber o porquê de eles serem tão atacados.

Gusmão – São atacados porque matam de fome os seus respectivos povos.

Marques – Puta que pariu! Como é belo, limpo e bem cheiroso o mundo neoliberal, que tanto se preocupa com o social!

Arantes – Aposto que uma parte do público cativo da mídia neoliberal realmente acredita que Venezuela e Cuba são atacados porque são ruins para os seus respectivos povos.

Marques – E uma outra parte desse público, sem nenhum pudor, adere ao espírito que prevalece na mídia neoliberal.

Gabriel – Outro dia, eu tive a infeliz ideia de falar pra uma criatura que Venezuela e Cuba possuem Índices de Desenvolvimento Humano equivalentes ao do Brasil. Depois desejei ter protetor auricular para suportar a criatura que raciocinava com os pulmões e espumava.

Gusmão – Se você gosta dos regimes desses dois países por que não vai morar em um deles?

Gabriel – Não consigo digerir essa nossa mania de não aceitar que se faça crítica ao capitalismo ou que se reconheça alguma coisa de positivo de um regime alternativo a ele. Se eu fizer uma crítica ao capitalismo não significará que eu desejo a destruição dele. Do mesmo modo, se eu reconhecer algo de positivo no regime cubano, por exemplo, não significará que eu desejo que aquele regime seja implantado aqui.

Arantes – A mídia neoliberal o tempo todo demoniza esses dois governos e desavergonhadamente retrata as duas sociedades como esfomeadas, decadentes e prisioneiras. O que podemos esperar dos rebanhos guiados por essas vozes?

Marques – É de se esperar que certas criaturas que vivem acorrentadas, ou arrastadas pelas ondas neoliberais, fiquem ensandecidas ao serem apresentadas a um cenário que contraria as suas crenças.

Arantes – IDH do Brasil equivalente ao da Venezuela e ao de Cuba, aí é demais. É pra causar convulsão nos que acreditam que a terra é plana.

Gabriel – Se eu acho que em relação aos cubanos eu estou no paraíso, como é que vou engolir que Cuba nos supera em saúde, educação, segurança e que lá não há tanta gente passando fome como há aqui.

Gusmão – Assim você está fazendo propaganda do comunismo.

Gabriel – Não estou. Para mim, um reflexo positivo do comunismo foi a existência do Estado de bem-estar capitalista. A perversidade neoliberal voltou a tomar conta do capitalismo depois que o comunismo sucumbiu.

Arantes – Se deixassem o neoliberalismo matar as pessoas de fome, seria difícil impedir a expansão comunista.

Felipe – Eu creio que o papel da mídia, em relação a Cuba e à Venezuela, é comparável ao papel de um bom pastor de ovelhas que as mantêm bem distantes das plantas venenosas. A mídia presta um valioso serviço ao progresso ao transmitir a imagem que transmite das sociedades em questão.

Arantes – E a verdade não importa?

Felipe – A verdade não move o mundo!

Gabriel – Você acha que estamos indo bem, tentando apagar todas as luzes para que tudo seja iluminado por um faroleiro que não tem o menor apego pela verdade?

Felipe – Não há essa aversão à verdade, ela só não é bem-vinda quando não caminha com os que constroem os caminhos.

Arantes – Certa vez vi uma cena de um filme – que eu não lembro o nome dele, perdoem-me – na qual a diretora de uma revista contratava uma colunista que tinha um pouco de apego à verdade. A recém-contratada perguntou à chefe:

– Sobre o que eu posso escrever?

– Sobre o que você quiser, o céu é o limite!

– Vou escrever sobre política.

– Política não pode!

– Vou escrever sobre economia.

– Economia não pode!

– Vou escrever sobre religião.

– Religião não pode!

– Vou escrever sobre...

– Não pode!...

– O céu é o limite! A moça que tem um pouco de apego à verdade pode escrever sobre tudo que em nada incomode os que mandam no pagode.

Marques – No mundo neoliberal, fora da ficção ou não, podemos escrever sobre política, economia e religião desde que a gente não fale a verdade quando ela não caminhar "com os que constroem os caminhos".

Gabriel – Apenas "[...] a verdade que não se opõe nem ao lucro nem ao prazer humano é a todos os homens bem-vinda" (HOBBES apud ARENDT, 2013, p. 286).

Marques – Será que há alguma verdade que seja bem-vinda a todos?

Arantes – Eu só sei que nessa atmosfera, a mídia neoliberal passeia com carta branca para pisar no pescoço de qualquer um que ousar caminhar fora do riscado. O cidadão, a sociedade, o Estado, tudo está controlado, ela esvazia as fontes do poder político e abastece o infinito buraco negro dos piratas das finanças.

Gusmão – Carta branca para pisar no pescoço de qualquer um?

Arantes – Qualquer um que não esteja alinhado. Qualquer um "herege" que se opõe à suprema mão invisível.

Marques – As coisas estão muito nas mãos dessa mídia. Qualquer falso Picasso apresentado por ela é tido como inquestionavelmente autêntico.

Arantes – A mídia neoliberal hoje afeta a democracia muito mais do que qualquer ditador sanguinário.

Felipe – Isso é uma comparação exagerada, é um desvario!

Arantes – É um desvario dizer que a sobrevivência política da imensa maioria dos escolhidos pelo povo depende de um agir que não venha contrariar os interesses dos que são defendidos por essa mídia?

Marques – É um desvario dizer que eles não têm liberdade para ser o que deveriam ser e assim são "convidados" a dançar conforme a música tocada por essa mídia?

Arantes – Criaram mecanismos que fazem os escolhidos do povo se veem com a faca no pescoço quase que permanentemente.

Gabriel – Um desses são as pesquisas que avaliam os governos. Eu não sei a quem servem as pesquisas eleitorais, eu nunca gostei delas, nelas eu nunca vi nenhum benefício para o eleitor, o cidadão ou a sociedade. Já as pesquisas que avaliam os governos, dessas a gente pode ver claramente quem são os beneficiados. Essas, a meu ver, são instrumentos, são bombas de gasolina que abastecem os veículos da mídia neoliberal para que esses possam pôr cascas de bananas no caminho de quem ousar andar por conta própria ou nadar contra a maré neoliberal.

Arantes – Se o agente público quiser andar fora da linha traçada pelo neoliberalismo ouvirá uma sequência de silvos ensurdecedora.

Felipe – A pesquisa que avalia a popularidade dos governos é um evento consagrado!

Arantes – Tudo que é do interesse dos moços que mandam pode ser facilmente consagrado.

Gusmão – As pesquisas de popularidade não vêm para tornar o governo ruim ou bom, elas apenas registram a realidade dele.

Marques – Você precisa melhorar muito pra fazer piada!

Gabriel – A mídia neoliberal apresenta um PowerPoint colegial, ou uma incontestável condenação por fatos indeterminados e "já era"! Duas semanas depois, encomenda uma pesquisa de avaliação do governo. Este sente o golpe e senta pra receber a luz que vem de cima.

Arantes – É um desvario dizer que quando a bolsa de valores fica muito nervosa, a mentira sobe, a verdade desce, o chão do governo estremece e aquela luz amarela sobre ele aparece?

Marques – É um desvario dizer que as bolsas, as agências de risco e outros instrumentos são utilizados, pelos agentes do mercado, para pintar falsos Picassos que a mídia neoliberal os apresenta como obras autênticas?

Arantes – Até as palavras dos especialistas ungidos com o manto da santíssima consagração midiática estremecem o piso dos palácios, das casas legislativas e de outras casas públicas.

Gabriel – "[...] a democracia está, atualmente, menos ameaçada pelo totalitarismo… do que pela demagogia e cinismo [...]" (CHAMPAGNE, 1996, p. 256).

Arantes – Quando ponho os olhos nas falas dos economistas da mídia neoliberal eu vejo o mundo de cabeça pra baixo, vejo o mundo nos escombros e o homem lá embaixo com muito peso nos ombros.

Gabriel – "[...] o mundo em que tentamos sobreviver é uma prova diária da degeneração da razão ocidental, transformada em mero instrumento dos métodos de domínio e conquista" (ADORNO; HORKHEIMER apud BELLUZZO; GALÍPOLO, 2017, p. 102).

Felipe – Essa é uma visão pessimista!

Marques – Olha, o mar está agitado e as marés que trazem a realidade paralela, a crença que a terra é plana e outros detritos estão assustadoras.

Gabriel – Os exércitos de zumbis não param de crescer.

Arantes – Os exércitos de zumbis formam a face nua e crua das consequências dos ataques à razão. Mas as outras faces que estão por baixo dos panos e bem preparadas não podem ser facilmente identificadas.

Gabriel – "O sono da razão gera monstros, e as duas últimas décadas produziram monstros em abundância" (WHEEN, 2007, p. 23).

Marques – Eu diria as últimas quatro décadas.

Felipe – Eu creio que os expedientes usados para que se possa controlar as massas não podem ser classificados como degeneradores da razão.

Arantes – Os falsos Picassos pintados por encomenda e expostos pela mídia neoliberal como quadros autênticos não contribuem para minar a racionalidade?

Marques – Eu creio que a degeneração da razão afeta diversos públicos, dos que são incentivados a largar as mãos de Sócrates, Kant, Descartes... aos que são levados pelas marés que trazem a realidade paralela, a crença que a terra é plana e outros detritos.

Gabriel – "Racional" é um adjetivo que não é atribuído a nenhuma outra espécie. Mas o que nos diferencia de todos os outros animais sempre foi minado pelos senhores que nos veem como rebanhos.

Marques – E os meios para tentar nos fazer viver como desprovidos do que nos diferencia dos outros animais foram sistematizados pela mão invisível que invisibiliza as cercas que nos prendem e as mãos que colhem o que elas não plantaram.

Arantes – Nessa era da informação, as novas tecnologias de comunicação têm fortalecido o papel dos que atuam como pastores ou vaqueiros invisíveis que tangem os rebanhos de um cercado para outro conforme os interesses dos senhores do conselho.

Marques – Penso que estamos menos propensos a sermos cidadãos do que a sermos um nó na rede em rédeas curtas.

Gusmão – Para mim, essa conversa de degeneração da razão não faz nenhum sentido.

Gabriel – A razão não está sendo degenerada? O pensar não está sendo dispensado? As fundações construídas por Sócrates, Kant, Descartes... não estão sofrendo sabotagens? Os falsos Picassos não estão sendo apresentados como autênticos? A política não está sendo demonizada?... Como eu posso acreditar que não significa nada que certas criaturas comemorem a posse de um Presidente da República gritando os nomes do Youtube e do Facebook? Como eu posso entender as revoluções coloridas? Como eu posso engolir os movimentos sociais patrocinados pelos moços das finanças e engrandecidos pela mídia neoliberal? Como eu posso aceitar que fabricar consensos é necessário para racionalizar a democracia? Como foi possível o Movimento Cinco Estrelas – um legítimo filho da hipocrisia, da demagogia, do cinismo e da desfaçatez – ser, no primeiro pleito que participou, o partido político mais votado da Itália? Por que nessa nuvem sombria, que nos cobre com essa tempestade de fake news, os mais afetados são os que sempre são mais atingidos pelas flechas neoliberais? Por que a extrema direita consegue fabricar e vender tantas mentiras? Como eu posso apreciar o show de ilusionismo realizado pela mídia neoliberal para que o Guaidó pudesse ser visto como Presidente da Venezuela? Como posso acreditar que essa mídia defende a preservação do meio ambiente, se ela é grande aliada de quem mais degrada a natureza e envenena nossos alimentos? Como fica a razão sendo temperada com um oceano de hipocrisia, cinismo, desfaçatez... ao gosto dos patrocinadores?

Arantes – A razão está sendo rasgada e a nossa liberdade é vigiada.

Marques – O "Grande Irmão" está de olho em nós e a "polícia do pensamento" está nos imprensando, causando a redução de nossa massa cinzenta.

Felipe – "A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e das opiniões das massas é um elemento importante da sociedade democrática" (BERNAYS apud DUFOUR, 2008, p. 41).

Marques – Importante pra quem? Pra quê?

Gabriel – Para vivermos em um mundo no qual uma mentira repetida torne-se uma verdade?

Arantes – Para que tudo que seja feito pelos mocinhos, que transformam mentiras em verdades, seja sempre aceito?

Marques – Para que o patrão possa tirar o couro do empregado e este ainda possa acreditar que é sustentado por aquele?

Arantes – Os ilusionistas fazem a gente olhar para onde eles querem, para que eles possam pôr as mãos onde quiserem.

Marques – As capas e cartolas viabilizam o espetáculo ilusionista. E os que realmente promovem esse espetáculo se movem por baixo dos panos.

Gabriel – "A verdade dos fatos encontra-se enterrada debaixo de montanhas e montanhas de mentiras" (CHOMSKY, 2013, p. 38).

ESCRITO POR Magno Ferreira 3 K leituras
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