Falsos Picassos
Arantes – Eu tenho a sensação que a evolução das tecnologias de comunicação deu asas à mídia neoliberal para que ela possa voar cada vez mais alto e nos transportar para o passado.
Felipe – O futuro está nos levando para o passado?
Gusmão – E agora a mídia é uma máquina do tempo?
Arantes – Dizia o meu avô que no passado as pessoas aceitavam o sofrimento na crença de que teriam uma vida melhor um dia, fosse nesse mundo ou em outro esse dia iria chegar. Hoje, pelo que vejo por aí, eu diria que nesse mundo neoliberal a esperança de dias melhores é muito mais engraçada do que a dos que gemiam mansinhos sonhando com o céu. Hoje, em regra, essa de aceitar o sofrimento aqui para ter o paraíso depois da morte foi abandonada felizmente. Mas essa evolução foi neutralizada pela mídia neoliberal.
Marques – A força da religião não deixou de existir e de servir aos senhores que estão no topo da pirâmide social.
Arantes – É claro. Mas esse papel da religião, esse "servir aos senhores do topo", foi batizado pelo neoliberalismo e incorporado aos recursos da mídia neoliberal.
Gabriel – E é por meio desta mídia que os "pastores" conseguem vender a esperança de esperar, sem "esperançar".
Marques – É uma esperança anestésica.
Arantes – Os senhores escravistas, por exemplo, contavam com capatazes e capitães do mato para poderem tirar o couro dos escravos. Mas, como sabemos, esses senhores não se valiam apenas dessas forças. A força representada pela crença de um dia viver no paraíso era fundamental para que dois ou três pudessem tocar enormes "rebanhos" batizados pelas águas dos rios dos senhores.
Gabriel – O medo dos castigos físicos nunca foi o único viabilizador da exploração.
Arantes – É inegável que essa ideia de que o duro presente daria o paraíso no futuro tinha muito peso.
Felipe – É claro que a mídia exerce um certo controle, mas isso significa que ela nos transporta para o passado? Esse controle é comparável ao que era exercido pelas ideias religiosas do passado?
Gusmão – As grandes religiões nunca deixaram as pessoas pensarem.
Gabriel – E a mídia neoliberal não faz a mesma coisa? Quando se trata de bloquear a capacidade de pensar das pessoas, os poderosos das religiões e da mídia andam por caminhos diferentes, mas chegam ao mesmo lugar.
Marques – Eu creio que o controle exercido por essa mídia não é apenas comparável ao religioso, é mais perverso. Mesmo em relação ao controle religioso extremamente "escravocrata" (o sofra quietinho para ir pro céu). Esse controle impede a evolução, o exercido por essa mídia vai além: impede a evolução e promove a regressão. Ele não permite que o homem complete dezoito anos e ainda promove a infantilização.
Arantes – Eu creio que hoje o homem está mais distante da maturidade do que estava há três ou quatro décadas.
Felipe – Sempre estivemos distantes desse ponto!
Arantes – É verdade, mas o que está distante não pode ficar mais distante ainda?
Gusmão – A evolução é uma característica da humanidade e você acha que estamos indo para trás?
Arantes – Não estamos falando da evolução em todos os sentidos, estamos nos referindo à capacidade de pensar criticamente, de ver com os próprios olhos, de não ser levado como uma criança que segura a mão dos adultos e seguem os passos deles.
Marques – Para mim é óbvio que nas últimas quatro décadas o neoliberalismo, por meio do seu braço forte – a mídia –, tem nos levado para o passado.
Gabriel – Os avanços científicos, a evolução tecnológica, a internet, os novos meios de comunicação, essas e outras evoluções podem nos fascinar e nos levar a esquecer – por alguns momentos ou não – que essa face científico-tecnológica não representa tudo. Ela, evidentemente, não significa que estamos evoluindo em todos os sentidos. No sentido de promover justiça social e humanidade na Humanidade não há evolução no mundo neoliberal. Nele, saltam aos olhos os problemas sociais: o crescimento da concentração de renda, a fome, as guerras, a depressão e outras doenças mentais, a festa da indústria dos antidepressivos e da armamentista, o desfile do consumo como razão de existir, a preponderância dos valores do mercado, a insensibilidade, a indiferença, o egoísmo, a antipatia... O mundo não é um mar de rosas. Os avanços tecnológicos, obviamente, não significam uma evolução geral e não impedem que, em algumas dimensões, estejamos andando para trás. Aliás, eles ampliam e muito a força dos veículos da mídia neoliberal que nos conduzem para o passado.
Arantes – A mídia neoliberal me transporta para o passado e cobre os meus olhos e ouvidos de águas que arrastam os meus sentidos, águas anestésicas, que nascem em uma cartola, que me puxam para dentro para jogar-me pra fora.
Marques – O neoliberalismo é filho da manipulação e é alimentado por toda a família dela. O homem marchar rumo à emancipação significa sair dos rebanhos manipulados por pastores e vaqueiros; significa não aceitar como autênticos os falsos Picassos apresentados pela mídia neoliberal. Significa saber filtrar o que recebe dos meios de comunicação, saber enxergar com os próprios olhos, saber escolher o que for melhor para ele próprio... O homem ser emancipado significa ser um ser que não cabe na camisa de força neoliberal.
Arantes – Essa liberdade seria incompatível com o neoliberalismo.
Gabriel – Logicamente a emancipação seria um obstáculo para as manobras neoliberais. Não é a toa que no "santuário" neoliberal a emancipação dos "fiéis" é vista como uma coisa diabólica que preocupa os cardeais.
Gusmão – A manipulação não é algo nobre, mas cumpre uma função. Já a ideia oposta, essa que envolve a maturidade ou a emancipação, em nada iria contribuir para um mundo melhor.
Marques – Vamos ter um mundo melhor com o neoliberalismo?
Gusmão – Ele não funciona melhor porque algumas pragas o impedem.
Arantes – A culpa é dos sindicatos! Debilitaram os sindicatos. A culpa é do poder político! Colocaram o poder político no bolso. A culpa é das intervenções do Estado! Engessaram o Estado. A culpa é... Arrochos e mais arrochos e continua o mesmo desgosto.
Marques – Vimos aqui recentemente esse festival: tirem a Dilma, façam a reforma da previdência, façam a trabalhista, radicalizem nas privatizações, não deixem o Lula voltar... e a coisa toda só fez piorar.
Gabriel – "Não existe desinformação inofensiva; acreditar na falsidade pode ter consequências calamitosas" (FRANCISCO apud KAKUTANI, 2018, p. 13).
Marques – A desinformação, além de induzir as pessoas a agirem contra os seus próprios interesses, tem nos levado a sermos cúmplices de algumas das maiores e mais graves perversidades do nosso tempo.
Gusmão – Meu amigo, se você tivesse dito que fomos negligentes, já seria um exagero! Mas você disse, cúmplices! Pelo amor de Deus!
Marques – É exagero dizer que por meio da desinformação a mídia neoliberal tem levado a opinião pública a apoiar algumas das maiores perversidades?
Gabriel – Na última guerra no Iraque, por exemplo, a perversidade ultrapassou os limites, esteve pra lá de Bagdá.
Felipe – Que loucura é essa? A mídia não tem culpa nenhuma pelo que acontece em uma guerra.
Gabriel – O apoio da opinião pública para a invasão norte-americana ao Iraque não é algo a ser levado em conta?
Marques – E o papel da mídia neoliberal apresentando pretextos para justificar essa invasão também não vem ao caso? Não há cumplicidade?
Felipe – O fato de hoje sabermos que os motivos que justificaram a invasão eram inexistentes não lhe autoriza a dizer que a mídia apresentou pretextos para justificar essa invasão.
Gabriel – Ah, você sabe qual é o histórico dessa mídia. O caso do Iraque é só um de uma lista que eu não sei onde começa nem sei se um dia vai terminar. Você sabe que mais cedo ou mais tarde surgirá um novo caso. E é certo que violações a territórios ou a soberanias ocorrerão por motivos que a mídia neoliberal dará como reais, mas depois descobriremos que eles são inexistentes.
Gusmão – Falou o profeta Nostradamus!
Gabriel – Ninguém precisa ser profeta nem meteorologista para prever que certas nuvens sombrias voltaram.
Arantes – Em uma rápida espiadela pela janela da história podemos observar que as coisas se repetem.
Marques – Os vilões de hoje (os que não seguem a cartilha neoliberal) são os bárbaros, os hereges, os selvagens do passado. Ontem e hoje, esses vilões foram e são os que precisaram e precisam ser contidos pelos mocinhos que semeiam "democracia" e "prosperidade". Quem não sabe que isso se repete?
Arantes – Por motivos inexistentes invadiram o Iraque, o Vietnã, o Panamá... atacaram a Líbia, a Iugoslávia, a Síria... promovem golpes de Estado pelos quatro cantos do mundo, dão sustentação a ditadores perversos, aplicam sanções econômicas que causam perversidades... As fraudes desfilam em cavalos imperiais.
Gabriel – Há poucos dias eu quase fui "linchado" pelos meus próprios parentes, porque ousei expor o meu ponto de vista sobre a guerra na Ucrânia. É impressionante como alguns fiéis seguidores da mídia neoliberal não aceitam ouvir nada que não seja uma reprodução do que está sendo divulgado por ela.
Arantes – "Se o JN não deu, não aconteceu" (ACM apud AMORIM, 2015, p. 204).
Marques – Se não deu na mídia neoliberal não aconteceu.
Arantes – Se não for para reproduzir o que é dito na mídia, cale a boca!
Marques – Os que não reproduzem o que está sendo ventilado pela mídia neoliberal são do outro lado, do que deve ser esmagado, porque são uns hereges desgraçados.
Felipe – Meu caro Gabriel, não diga que você teve a coragem de defender o Putin?
Gabriel – Eu não sei nada sobre esse personagem.
Gusmão – Como assim? Todo mundo sabe quem é Vladimir Putin!
Gabriel – Em regra, por aqui, o que se sabe sobre ele é o que é dito pela mídia neoliberal e você sabe o que eu penso sobre a credibilidade dessa mídia.
Gusmão – Meu amigo, você quer defender esse monstro?
Gabriel – Você sabe que não é disso que se trata. O fato de eu não apedrejar o personagem em questão não significa que eu queira absolvê-lo.
Felipe – Somente alguém insensível e irresponsável pode vir a defender o Putin.
Gusmão – E por que não condená-lo como todo mundo?
Gabriel – O que me interessa nessa história é o porquê dessa narrativa totalitária, por que apresentam uma versão e não aceitam que ela seja confrontada?
Marques – Sempre foi assim, estamos diante de mais um exemplo de um passado que não passa. Os moços que dão as cartas apresentam uma narrativa e se armam para apedrejar os hereges que ousarem não reproduzir o apresentado. Sempre foi assim. E hoje, a mídia neoliberal – principal exército dos mocinhos que dão as cartas – se encarrega de pôr todo mundo pra dançar conforme a música que ela toca.
Gusmão – Apedrejar os que tiverem uma opinião contrária? Está de brincadeira. Não há como controlar o que as pessoas falam.
Marques – Ah! Qual é! Você sabe que hoje qualquer cidadão influente que dê uma declaração consistente contrariando a narrativa hegemônica será sim apedrejado. O que foi que fizeram com a repórter alemã Alina Lipp, que não quis aderir à narrativa hegemônica?
Felipe – Você acha que o trabalho dessa repórter é que é o certo?
Marques – Eu não tenho como julgar o quanto o trabalho dela está certo ou o quanto está errado. Quando baixa a poeira é que começamos a ver as coisas com alguma nitidez. E nesse momento a poeira está cobrindo tudo. Mas uma coisa é bem nítida: Alina Lipp é uma das pessoas apedrejadas pelos que vendem a narrativa hegemônica.
Arantes – A deputada alemã – Sahra Wagenknecht – foi criticada, até por correligionários, apenas por ter dado uma declaração contra a guerra.
Marques – Aqui, criticaram o Presidente Lula simplesmente porque ele não aderiu plenamente à narrativa hegemônica.
Gusmão – Gabriel, o que você falou sobre a Ucrânia que desagradou aos seus parentes?
Gabriel – Eu disse que não acredito nessa versão que apresenta mocinhos e vilões. De meados do século XX para cá, não houve uma única narrativa hegemônica que tenha sido verdadeira. Sempre que: os mocinhos que dão as cartas, os seus seguidores e os seus agentes se unem em torno de uma narrativa hegemônica estamos diante de um falso Picasso apresentado pela mídia neoliberal como autêntico. Os mocinhos contra os vilões no Iraque, no Vietnã, no Panamá são alguns exemplos desses quadros falsos apresentados como autênticos. Então, eu preciso esperar a poeira baixar para ver se desta vez estamos diante de uma exceção.
Marques – Fraude, neoliberalismo e sua mídia têm o mesmo DNA.
Arantes – E como eles ditam a moda, a roda do verdadeiro ou falso fica em descompasso e os espectadores não mais distinguem um do outro.
Marques – Essa mídia é instrumento dos que agem para neutralizar os efeitos da soberania nacional, do sufrágio universal, da democracia, da libertação dos escravos...
Gusmão – Eu vejo na atuação da mídia a defesa dessas conquistas da Humanidade, e não a destruição delas.
Arantes – Fabricar consensos, induzir as pessoas a agirem contra os próprios interesses, demonizar a política, defender os interesses de proprietários e patrocinadores... isso é defender a democracia?
Marques – Defender que o trabalhador coma na mão do patrão, morra sem se aposentar e suporte calado o peso da pirâmide social é defender as conquistas sociais da Humanidade?
Gabriel – É óbvio que a mídia neoliberal está na contramão dos valores que não têm preço.
Marques – Ela é regida por valores financeiros e pelas particularidades que os acompanham. A manipulação, o cinismo, a hipocrisia, a desfaçatez... estão entre os principais combustíveis que abastecem os veículos da mídia neoliberal.
Gabriel – "[...] jamais o 'universalismo' tinha assumido uma aparência tão cínica e tão repugnante" (LOSURDO, 2020, p. 161).
Felipe – O lamaçal existe, mas, não está em um único lado. Nas arenas do poder, não há ninguém limpinho.
Gusmão – Talvez estejam mais limpos os que não se envolvem com política.
Gabriel – Aqueles que não se envolvem com a política não estão, nem ética, nem moralmente, acima da média dos políticos.
Arantes – Para mim, os indiferentes são negligentes e estão abaixo do nível do mar.
Marques – Eu conheço alguns homens que individualmente ainda conservam um certo grau de pudor, ainda têm vergonha de serem flagrados sendo cínicos, hipócritas, mentirosos... mas coletivamente (reproduzindo as mentiras que eles sabem que estão sendo reproduzidas por muitos outros indivíduos) aderiram a desfaçatez sem constrangimento. Por conveniência ou por outros motivos, reproduzem o cinismo, a hipocrisia, as mentiras da mídia neoliberal e apedrejam sem piedade qualquer um que não possa revidar e ouse mostrar o papel ao qual eles se submetem. Onde essa merda toda vai parar?
Gabriel – Nessa nave guiada pelo homem neoliberal quando eu olho para os horizontes, viajo nas asas da imaginação e... "Vejo o futuro. Está ali, pousado na rua, um nadinha mais pálido do que o presente" (SARTRE, 2020, p. 47).
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