Fazenda sem porteira
Gusmão – Arantes, as metrópoles não permitiam que as colônias formassem um parque industrial, aquelas além de levarem os nossos recursos naturais ainda queriam nos perpetuar como fornecedores do que fosse conveniente para elas. Então isso não tem nada a ver com os nossos dias.
Arantes – Que beleza! Hoje em dia o Brasil é livre para tocar seu parque industrial? Por que a Petrobrás ainda vende o petróleo bruto para comprar o refinado? Vai me dizer que você acredita nessa conversa de que o Brasil não tem recursos, financeiros ou tecnológicos, para construir suas refinarias?
Gabriel – Essa liberdade para se desenvolver não veio em sete de setembro de 1822, nem depois.
Marques – Aqui pertinho da gente, há um exemplo que retrata a liberdade que existe para o Brasil se industrializar: A fábrica de linhas de costura de Delmiro Gouveia, que incomodou os ingleses. O que aconteceu com ela?
Gusmão – Sejamos decentes, os ingleses fizeram o que fizeram para reconquistar o que tinham perdido no mercado brasileiro. O comércio é isso.
Gabriel – Meu amigo neoliberal, eu não sei como você tem coragem de falar em decência e, logo depois, normalizar o que fizeram e fazem para manter o nosso país como um local de exploração.
Felipe – Acho que não se trata de ser decente ou indecente, justo ou injusto. Trata-se de uma racionalidade competitiva. A fábrica de Delmiro Gouveia era uma ameaça aos interesses ingleses no Brasil.
Marques – Mas o Brasil não era uma colônia inglesa.
Felipe – Oficialmente não. Mas quem tem juízo reconhece os poderes estabelecidos mesmo que eles sejam implícitos. E mais, meus amigos, em um país com tantos recursos naturais como o nosso, se os ingleses não tivessem agido como agiram, iriam surgir muitos outros empreendimentos impulsionadores da soberania nacional.
Marques – Eu sei que os tubarões dos mares das finanças fazem de tudo para que o nosso país não tenha um razoável grau de soberania. Mas por outro lado, se aqui só existisse conservadores como você, Felipe, que se enrola na bandeira do "reconhecer os poderes estabelecidos", nosso grau de soberania, sem dúvida, seria mais baixo do que o que é.
Gusmão – Há registros que provam que os portugueses não permitiam que o Brasil produzisse determinados produtos. E o argumento dos portugueses era mais ou menos assim: se eles puderem produzir tudo que precisam, não vão precisar da gente, vão se tornar independentes. E é isso que é feito por qualquer força exploradora. É natural! Quem é que quer deixar que sua galinha dos ovos de ouro crie asas?
Arantes – Saímos das mãos dos portugueses para as mãos dos ingleses.
Marques – E há quem diga que hoje estamos nas mãos dos norte-americanos.
Gabriel – Eu não diria isso. Estamos nas mãos do poder invisível. Claro que a exploração externa continua a nos massacrar. O espírito colonial continua. Sabemos que os exploradores são os que mandam no mundo, mas não dá pra dizer que os que mandam são apenas os norte-americanos.
Marques – Seríamos terceiro mundo, se ao em vez de petróleo bruto, grãos e outras Commodities exportássemos os derivados?
Gusmão – Não adianta choramingar! O Brasil para os brasileiros pode vir a acontecer um dia, mas não será para mim, nem pra você e nem sequer para os nossos netos. O mundo é dos mais fortes!
Felipe – Bom, estamos aqui apenas conversando, a gente pode falar o que quiser. Mas eu, particularmente, acredito que o processo de soberania nacional está sendo como deve ser, lento e gradual. E não adianta acelerar esse processo. A fábrica de Delmiro Gouveia, por exemplo, representava esse aceleramento. Insisto, não adianta insultar o poder estabelecido.
Marques – Já se passaram mais de 200 anos da nossa independência. Eu não sei se os tijolinhos estão sendo postos, um sobre o outro, para a elevação do muro da nossa soberania. Não sei se essa construção está em andamento.
Felipe – Eu acredito que hoje é melhor que ontem e que amanhã será melhor que hoje.
Gabriel – Temos pontos de vista diferentes, mas eu admiro o seu razoável grau de honestidade intelectual, coisa que não é comum entre os neoliberais que eu conheço, que preferem tapar o sol com uma peneira ao invés de expor algum ponto de vista aceitável. Há pouco, você afirmou que a fábrica de Delmiro Gouveia era uma ameaça aos interesses ingleses no Brasil. Isso me fez lembrar que as coisas se repetem. Elas voltam, com uma nova roupagem, com várias cirurgias plásticas, ou seja lá qual for os disfarces, elas voltam. As velhas coisas são renovadas e apresentadas como novidades!
Arantes – Há como negar que o passado está presente?
Gabriel – Hoje, escravos e escravizadores não mais existem, mas existem. Ontem, os escravos aprenderem a ler era uma ameaça, formarem algum tipo de aliança entre eles era uma ameaça, conservarem laços familiares era uma ameaça, qualquer coisa no sentido de uni-los e de realçar a humanidade era uma ameaça aos interesses dos senhores. Além dos escravos, as colônias também não podiam produzir para suprirem suas necessidades, porque isso também era uma ameaça. Hoje, com toda essa aparência de estarmos em outro mundo, continuamos no mundo das ameaças aos interesses dos mocinhos de sempre.
Marques – Eu diria, por exemplo, que a Petrobrás, ainda mais depois do pré-sal, é uma ameaça aos mocinhos que passeiam com seus CEOs pelos nossos céus onde esses mocinhos são deuses intocáveis.
Arantes – Felipe, na sua opinião, hoje a Petrobrás, assim como a fábrica de Delmiro Gouveia no início do século passado, representa um aceleramento do processo de soberania nacional?
Felipe – Não. A realidade é outra.
Marques – Mas ela é uma peça importantíssima para o desenvolvimento nacional. E sabemos que isso vai de encontro aos poderosos interesses estrangeiros que reinam por aqui.
Arantes – Os moços das finanças que impedem a elevação da nossa soberania impedem que seja nosso o que é nosso e não querem que o pré-sal sirva para promover a nossa educação, melhorar a nossa saúde e consequentemente impulsionar o nosso desenvolvimento.
Marques – Ouro, diamantes, petróleo e todos os nossos recursos naturais... Eles têm tirado tudo, todo o nosso ouro, têm tirado o nosso couro.
Gabriel – A soberania nacional, aqui e em quase todos os países, sempre foi relativa e atualmente é mais ainda. As cascas de bananas postas no processo de globalização e a expansão da predominância do mercado têm cada vez mais debilitado essa soberania.
Gusmão – Pois é! Não é só aqui ou só nos países de terceiro mundo. Por isso, eu acho desnecessários os exageros do Marques em relação à falta de soberania nacional.
Marques – Não sei como o amigo neoliberal ainda tem coragem de usar argumentos desse tipo. Pensei que você não iria vir mais com essa de: ah, nos países desenvolvidos também há os mesmos problemas.
Arantes – É... Todo mundo sabe que a proporção dos problemas sociais nos países do terceiro mundo é uma, nos desenvolvidos é outra.
Gabriel – Problemas sociais e grau de soberania estão interligados. E, em regra, o grau de soberania das sociedades subdesenvolvidas (como as da América Latina e da África) é inferior ao das sociedades desenvolvidas (como as da Europa e a do Japão), que são mais capazes de defender os seus interesses e de existir mais para si do que para as outras. Dessa maneira são movidas mais pelos seus interesses e assim se distanciam da ideia de colônia, que assombra as sociedades subdesenvolvidas.
Arantes – Repito: A proporção dos problemas sociais nos países do terceiro mundo é uma, nos desenvolvidos é outra.
Marques – Distorcer a realidade tem sido a missão de nossa elite econômica que se comporta como cidadãos de um país colonizador que vivem no país colonizado.
Arantes – A senhora exploração jamais consegue largar as mãos da velha manipulação.
Marques – Não há dúvida que o espírito colonizador reina por aqui causando muitas perversidades.
Gabriel – O neoliberalismo é tão defendido e promovido porque ele derruba as barreiras para deixar o caminho livre para o passeio dos espíritos colonizadores.
Marques – Negar que o neoliberalismo existe para beneficiar os mais ricos é querer tapar o sol com uma peneira.
Gusmão – Essas críticas ao modelo neoliberal só servem para abrir brechas para as ideias do comunismo, este sim, uma praga de gafanhoto.
Marques – Eu acredito que podemos viver melhor sem os dois. E mais, criticar um, não significa defender o outro.
Arantes – Eu não acredito em uma democracia comunista. Acredito que ela seria facilmente destruída pelas sabotagens do sistema dominante. E também não gostaria de ver um modelo não democrático.
Marques – Para ser sabotado nem precisa ser comunista, sabotam qualquer alternativa ao sistema que prevalece. Por exemplo, Rússia e Venezuela são alvos permanentes das flechas venenosas dos que fazem o neoliberalismo.
Gusmão – Então, pra você, Rússia e Venezuela são democracias?
Marques – Eu disse apenas que eles, por serem alternativas ao radicalismo neoliberal, são sabotados pelos mocinhos neoliberais.
Gabriel – A classificação de uma sociedade como democrática ou não vai depender do critério que vamos utilizar para chegar a essa conclusão. Por um critério rigoroso não há democracia em nenhum lugar do mundo. Mas o critério do planeta neoliberal é: se estiver do meu lado, pode fazer o que quiser, é democracia. Se não estiver do meu lado, não importa o que faça, será classificado como antidemocrático.
Marques – Olha que coisa bonitinha! Se contrariar os meus interesses eu o classifico como antidemocrático. Depois de eu colar essa etiqueta em você, se você for incapaz de se defender, eu posso invadir o seu território e impor os meus interesses. Se não der pra invadir, eu parto para as sanções econômicas e outras sabotagens. Se eu invadir, claro que vou dizer que estou indo para neutralizar ameaças, implantar a democracia ou promover os direitos humanos. E nunca será reconhecido pela comunidade internacional que o verdadeiro motivo é colocar você na linha, é impedir que você seja um bom exemplo que é um mau exemplo. Se você vai bem sem seguir as minhas "orientações", isso pode ser visto – pelos que comem na minha mão – como um bom exemplo, um exemplo a ser seguido. E, consequentemente, esse bom exemplo é um mau exemplo para a preservação da minha posição de "orientador".
Gabriel – Quantas guerras ou massacres não tivemos por aí para impedir o desenvolvimento independente?
Gusmão – O que você chama de desenvolvimento independente?
Gabriel – É o desenvolvimento que não está, ou não está totalmente, sob as rédeas do elitista, financista, Darwinista e fascistamodelo neoliberal.
Marques – O Paraguai de meados do século XIX e o Vietnã de meados do século XX são dois dos exemplos de sociedades que foram massacradas por aderirem à heresia do desenvolvimento independente.
Arantes – O colonialismo dos nossos dias continua produzindo muitas ações desumanas.
Felipe – Certos acontecimentos são lamentáveis, mas são necessários para a implementação do crescimento econômico.
Marques – É impressionante! Para os amigos neoliberais tudo é aceitável em nome do crescimento econômico. Fodam-se as pessoas! Fodam-se todos os princípios e valores que não são os do mercado!
Gabriel – Eu não sei se esse vale tudo é em prol do crescimento econômico ou da preservação de privilégios.
Gusmão – Vocês estão sendo muito dramáticos! E estão analisando quadros do passado como se fossem do presente.
Marques – Do passado? O colonialismo atual não é explícito como o colonialismo propriamente dito, mas as atuações colonizadoras apenas foram adaptadas à realidade de hoje. Certos atos que ontem eram aceitáveis hoje não são. Então arrumaram maneiras para que esses atos tenham outra aparência, mas preservem a essência exploratória.
Gusmão – Meu amigo, do que você fala?
Marques – Falo dos salários de fome e da falta de empregos que causam desesperos. Falo das condições que fazem a expectativa de vida do pobre ser significativamente inferior a do rico. Falo da falta de saneamento básico que causa doenças e mortes, da falta de perspectiva que causa desilusões aos jovens e empurra alguns deles para as drogas e até para o mundo do crime, falo de um lamentável número de assassinatos, de uma imensa população carcerária e de tantas outras condições lamentáveis que atingem, direta ou indiretamente, a grande parte da nossa população. Falo desse quadro de sociedade subdesenvolvida, explorada, que tem um funcionamento, no qual, não preponderam os próprios interesses. Falo de uma sociedade que vende açúcar para comprar caramelo.
Arantes – Gusmão, vai ter coragem de dizer que os nossos problemas sociais não têm nada a ver com a exploração que sofremos?
Marques – Faltam recursos para combater os problemas sociais. Mas os que me exploram, colonizam, impedem o meu desenvolvimento, não têm nada a ver com isso? Enquanto meu patrão anuncia lucros recordes, eu passo fome porque o salário não dá pra comprar comida suficiente. Mas o explorador não tem nada ver com isso?
Gusmão – Que drama desnecessário! Vocês gostam de desenhar o mundo como se ele fosse uma selva assustadora!
Marques – Tentar expor a diferença entre as coisas como elas são e as coisas como elas são mostradas não tem nada a ver com desenhar um mundo assustador. Quem vende o mundo como assustador são certos comunicadores que servem aos interesses dos moços que dão as cartas.
Gabriel – Realmente é lamentável o que fazem alguns comunicadores, principalmente os dos tóxicos programas policiais. Acredito que eles transmitem uma ideia doentia a respeito da sociedade. Alguma coisa que promove a paranoia, que leva as pessoas a viver em um mundo muito mais perigoso que o mundo real.
Marques – Os que promovem o medo e outras distorções da realidade contribuem, consciente ou inconscientemente, para que haja terreno fértil para as sementes dos fascistas.
Gabriel – Nessa atmosfera, os que prometem resolver os problemas sociais com armas e penitenciárias fazem um carnaval.
Arantes – Certos comunicadores neoliberais empurram as pessoas para os braços dos fascistas ou os fascistas para os braços dessas pessoas.
Gabriel – O papel desses comunicadores é como o de um ilusionista que, primeiro, usa suas habilidades para tirar a atenção das pessoas daquilo que realmente move as coisas para, depois, mostrar o que ele quiser que elas vejam.
Marques – Nasci numa casa abandonada onde nada existe para mim, tudo existe para um fim que faz de mim alma penada.
Gusmão – Você gosta de exageros, não há esse desamparo todo, ninguém aqui pode se sentir abandonado, ninguém aqui pode se sentir um apátrida.
Felipe – Eu sei que nesse mercado competitivo guiado pela lei da oferta e da procura, países como o nosso tendem a sofrer um pouco com os efeitos dessa concorrência, mas isso está longe de ser algo que lembre um grau de exploração comparável a uma exploração colonial.
Gusmão – Se a realidade fosse parecida com as impressões do Marques, haveria grandes alvoroços por aqui.
Marques – Ô meu amigo neoliberal, acabamos de ver o que fizeram conosco de 2016 a 2022. O entreguismo foi assustadoramente intensificado nesse período. O que tivemos de entrega do patrimônio nacional, de destruição dos direitos trabalhistas, de ataques à previdência social, de violações ao meio ambiente, aos direitos humanos, à democracia... E qual foi o grande alvoroço que houve?
Arantes – O trator neoliberal abre os caminhos e os agentes do mercado disfarçados de agentes públicos abrem as portas para que os moços que cultivam o espírito colonizador possam passear por onde quiserem, como quiserem e sem que essas ações sejam vistas como exploração ou massacre dos direitos dos cidadãos.
Marques – O espírito neoliberal é totalitário.
Arantes – Acredito que há no espírito dos moços que dão as cartas uma paranoia em relação ao controle. Eles querem controlar o campo econômico, o político, o científico, o artístico... tudo.
Gabriel – Os eixos de sustentação moral da turma do topo da pirâmide são fragilíssimos. Para esconder essa condição, eles procuram controlar todos os campos, para poder dificultar as ações que possam contribuir para expor o chorume que os encharca. Então, essa aparente paranoia pelo controle é, a meu ver, uma ação agressiva praticada para poder conservar o espírito colonizador e escravocrata.
Marques – Nós vimos aqui – de 2016 a 2022 – a face quase sem disfarce de um monstro, de um controle descontrolado, esmagador. Um controle voltado para o entreguismo e para calar a boca dos que tentassem defender o bem comum, o interesse público ou simplesmente a legalidade.
Gusmão – Você pode me passar o CEP do departamento de censura que funcionou aqui de 2016 a 2022?
Marques – Estamos na era das forças ocultas, do poder invisível, mas você pode encontrar os rastros do monstro em questão analisando os ataques às universidades, a artistas, a cientistas, à mídia independente – a que não estava dando cobertura aos agentes do mercado disfarçados de agentes públicos – e a tantos outros.
Gusmão – A grande imprensa, que você chama de "mídia neoliberal", também foi atacada.
Marques – Já falamos sobre esses desentendimentos entre irmãos que servem ao mesmo senhor.
Arantes – A Lava Jato, por exemplo, foi criada por eles e para eles, para o entreguismo e para a mordaça.
Gabriel – Eu acredito que os que realmente planejaram a Lava Jato colocaram na ata – que não existe, mas existe – que a missão dela era debilitar tudo que possa promover a soberania nacional: O Estado, a indústria nacional, os representantes do povo, os pilares da democracia, a percepção da realidade, os recursos culturais que estimulam a emancipação...
Arantes – É evidente que ela causou danos ao organismo social.
Marques – Creio que o nosso organismo social sofrerá por muito tempo ainda com as sequelas da infecção causada pelas bactérias da Lava Jato.
Arantes – Sem dúvida, a Lava Jato foi um instrumento para fortalecer o espírito colonizador que baixou aqui em 1500 e de 1822 até hoje ele se camufla para não ser reconhecido.
Gusmão – O espírito colonizador só existe na cabeça de vocês. Seríamos um país pior sem o papel desempenhado aqui pelas potências econômicas que vocês preferem chamá-las de colonizadoras ou exploradoras.
Marques – Mas aqui ninguém falou em isolamento, ninguém está ignorando as vantagens de ter relações comerciais.
Arantes – E estamos chamando de colonizador o modelo que impede o nosso desenvolvimento, que procura pautar tudo aqui para os interesses dos mais ricos em detrimento dos nossos interesses, que procura nos manter como uma sociedade que funciona para as outras e não para ela própria. Estamos apenas falando contra isso, e a favor da soberania nacional e de que seja nosso o que é nosso. Como, por exemplo, o pré-sal e outros recursos naturais.
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