O passeio dos tubarões
Gabriel – Por que é cada vez mais difícil saber onde fica a fronteira entre a mentira e a verdade?
Marques – Os que mandam no mundo não se cansam de queimar o que puderem queimar para cobrir de fumaça a fronteira entre a mentira e a verdade.
Gusmão – Que viagem! Os que "mandam no mundo" não têm nada a ver com os problemas de vista de quem quer que seja.
Marques – Você quer, mas não há como negar que existe um bombardeio incessante que visa a nossa visão.
Arantes – Os que mandam no mundo nunca quiseram nem querem que a gente veja com os próprios olhos, não querem que a gente veja as coisas como elas são. E a sensação que eu tenho é que cada vez mais aumenta a diferença entre as coisas como elas são e as coisas como elas são mostradas. Esse aumento diminui o terreno enxuto e limpo e amplia o enlameado e escorregadio.
Felipe – Vivemos a era da informação, aqueles que têm dificuldade de enxergar o mundo são, eles próprios, os únicos culpados por essa condição.
Gabriel – A quantidade de informações e a velocidade que elas circulam não são suficientes para afirmarmos que vivemos em um mundo esclarecedor.
Marques – Esclarecedor é a gente ver que, ainda hoje, determinadas criaturas conseguem chegar aos céus vendendo a ideia do infernal perigo comunista.
Gabriel – Os que mandam no mundo estão conseguindo realmente "reduzir as cabeças".
Marques – A era da informação é a era da deformação.
Gusmão – A preguiça e a incapacidade tornam a maioria condutível. E vocês vêm me dizer que é o sistema que manipula para reduzir a capacidade das pessoas.
Arantes – Gusmão, eu lembro que em 2010 a taxa de desemprego no Brasil era uma das menores que tivemos neste século. Mas você, Felipe e outros neoliberais diziam: ninguém quer trabalhar nesse país, querem viver de Bolsa Família.
Marques – "Dizer que a nossa gente não tem vontade de trabalhar é brincadeira." (RAMOS, 1976, p. 93).
Arantes – Não é de hoje que nossas elites arranjam desculpas para justificar o injustificável e preservar o espírito escravocrata.
Gusmão – E o que a suposta continuidade do espírito escravocrata tem a ver com a suposta ação dos poderosos para embaraçar a visão da maioria?
Gabriel – Gusmão, aqui entre nós, você não precisa tapar o sol com uma peneira. Eu sei que a honestidade intelectual está descendo a ladeira, mas não mergulhe tão fundo nessa brincadeira. Vamos discutir qualquer coisa sobre a exploração, mas não a existência dela. Não vamos discutir aqui se dois mais dois são ou não iguais a quatro. É indiscutível que os que estão na base da pirâmide suportam em seus ombros um peso esmagador.
Arantes – Quanto à relação entre a exploração e os danos a nossa visão, os vestígios das ações dos exploradores para danificar a visão dos explorados estão por todas as partes.
Gusmão – Eu não os vejo em lugar algum.
Gabriel – Que tal uma olhadinha para trás, para negros que não podiam aprender; ou uma olhadinha para frente, para nossas crianças castradas do direito de ver com os próprios olhos; ou uma olhadinha para o lado: para a mídia neoliberal que nos tange para onde quiser e faz com que os sentidos tenham o sentido que a ela interesse.
Gusmão – Você fumou alguma maconha estragada? Que história é essa de que as nossas crianças, hoje em dia, não aprendem a ver com os próprios olhos?
Gabriel – Até o Felipe, que também ergue a bandeira neoliberal, está rindo da sua impetuosa defesa do indefensável. Numa conversa entre amigos não podemos negar que os que mandam querem uma educação que forme apenas mão de obra. Para esses deuses, formar cidadãos sempre foi uma heresia e em nossos dias o nevoeiro se amplia.
Arantes – Quero citar apenas nossa última reforma na educação, uma reforma que está mais para demolição. Não visa fortalecer as estruturas, visa corroê-las. O Boaventura afirma que: "quando a primeira página dos jornais dizia 'reforma da saúde' ou 'reforma da educação' era para melhor. Hoje […] é certamente para pior" (BOAVENTURA, 2007, p. 18). E essa nossa reforma de 2017 ilustra isso. Nela, o que fizeram os agentes do mercado disfarçados de agentes públicos representa mais um passo para a castração do direito dos jovens de terem uma educação que aguce o senso crítico.
Felipe – "Ninguém se submete voluntariamente aos seus iguais e se o cavalo soubesse tudo o que um homem sabe, eu certamente não gostaria de ser o seu cavaleiro" (MANDEVILLE apud LOSURDO, 2006, p. 115).
Marques – Acredito que esse espírito escravocrata que procura preservar a ignorância para preservar a exploração passeia nos corpos dos mocinhos desde sempre. E nas últimas décadas, desde Thatcher e Reagan, contínuas oferendas têm fortalecido esse espírito de porco.
Felipe – Eu não estou compreendendo. Por acaso você acha que alguém, voluntariamente, se submeteria aos seus iguais?
Marques – Claro que não.
Felipe – E você se sentiria confortável sabendo que aquele que você explora tem consciência dessa exploração?
Marques – Realmente, roubar sem que o roubado perceba é mais seguro.
Felipe – Eu não vejo dessa maneira. Vejo como uma legítima luta pela manutenção de conquistas.
Marques – Legítima luta? Não há luta, há massacre.
Felipe – Não consigo acreditar num mundo sem estratificação social.
Marques – Estamos falando do espírito do neoliberalismo.
Felipe – Sim, claro.
Marques – Então não estamos falando de classes sociais, e sim de ações neoliberais para transformar pessoas em mercadorias.
Arantes – Para mim, é nítido que o mundo que estão nos enfiando goela abaixo é um lugar extremamente hostil ao barco que transporta insumos para o desenvolvimento da emancipação. Não querem que a gente complete dezoito anos, querem que sejamos eternamente menores.
Gusmão – Eu acho que o indivíduo é o único culpado pelas suas dificuldades.
Marques – O Gusmão é capaz de cortar as pernas de alguém e culpá-lo por não correr atrás do trem.
Felipe – Eu acredito que levantar as cortinas e deixar que todos vejam as coisas como elas são não é uma boa opção. Para que as coisas funcionem bem é preciso haver tudo que há.
Marques – Eu acredito que os poderosos, a pretexto de controlar, lançam as bases para uma exploração desenfreada.
Gabriel – Para mim, o problema não são as coisas que existem, e sim os excessos que existem nessas coisas. Não creio que para haver controle da engrenagem social seja necessário ir tão longe, ampliar tanto o espaço entre a realidade e a aparência. Acredito que, a pretexto de controlar, aplicam doses cavalares de drogas que destroem células fundamentais para a saúde do organismo social. Essas doses excessivas provocam uma overdose de cinismo, de hipocrisia, de manipulação e de outras injeções deformadoras.
Arantes – Creio que há algumas décadas as pessoas não ficavam tão à vontade para, publicamente, falarem de qualificações negativas que carregam. Por exemplo: o corrupto, o estelionatário e o mentiroso fugiam dos temas: corrupção, estelionato e mentiras. Hoje, essa ampliação da atmosfera cínica contribui para que o sujeito fique à vontade para atribuir as suas características a outros que sejam ou não merecedores delas. Respiramos um ar onde dois mais dois não são iguais a quatro. Hoje eu pinto o meu e digo que é o seu retrato. Outro dia eu fiquei de queixo caído ao ver o ex-juiz Sérgio Moro criticar o então presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por: "Postura de militante político-partidário".
Gabriel – O cinismo, a desfaçatez, a manipulação... Esse espírito neoliberal está a todo vapor. Vivemos em um mundo cada vez mais povoado de gente como Donald Trump que "[...] tem o hábito perverso de acusar os adversários dos mesmos pecados dos quais ele é culpado: 'Ted Mentiroso', 'Hillary Corrupta', 'Bernie Louco'" (KAKUTANI, 2018, p. 118).
Arantes – A mídia neoliberal tem promovido a ampliação, a intensificação e o aprofundamento dessa desfaçatez.
Marques – Creio que esse papel asqueroso da mídia chegou, nos últimos tempos, a um pico sem precedente.
Gabriel – Outro dia, o Donald Trump teve a coragem de dizer que a Hillary Clinton era "[...] uma pessoa intolerante, que vê as pessoas de cor apenas como votos, não como seres humanos dignos de um futuro melhor [...]" (KAKUTANI, 2018, p. 118).
Arantes – Isso é ou não é um mundo no qual eu pinto o meu e digo que é o seu retrato?
Marques – Para mim, essa ampliação da atmosfera cínica não é uma fatalidade, é resultado das ações dos deuses que dão as cartas nesta nave azulzinha, é produto e produtora da prevalência das finanças sobre o homem. De certa maneira, o ter comprou o ser. Não é a economia para o homem, é o homem para a economia. Essa inversão perversa cada vez mais atravessa a nossa vida, cada vez mais o valor que vale é o do mundo das finanças. Os valores humanos meus e seus só serão levados em conta se não contrariarem os interesses dos que nos veem como números em uma conta.
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