Mocinhos
Felipe – Eu, meus amigos, prefiro seguir os vencedores, os melhores. E a economia norte-americana é a mais bem sucedida. Então, eu não tenho dúvida do modelo que desejo para o meu país.
Marques – Os EUA jogam num jogo que eles fazem as regras e ainda são capazes de torná-las flexíveis quando isso for conveniente para eles. O sucesso da economia norte-americana se deve a privilégios como esse e não a funcionalidade do modelo neoliberal.
Arantes – E, além disso, esse "torne seu mercado uma fazenda sem porteira" é uma receita que prescreve uma medicação que o médico – "amigo" do fornecedor – passa para o paciente, mas que... jamais aceita experimentá-la.
Marques – O protecionismo a ser condenado é o dos outros, o dos mocinhos não.
Gabriel – Um dos motivos da força da economia norte-americana é o fato de ela ser protegida pelo: faça o que eu digo, não o que eu faço!
Felipe – Eu acho que a defesa dos interesses nacionais deve ser mais moderada. Vocês sabem que Juscelino, Jango, Getúlio, Lula e Dilma pagaram um preço por falta de moderação neste quesito. E esta linha inconsequente, ao causar incômodo ao mercado, desencadeia problemas que afetam a maioria dos cidadãos. Então, eu não desejo que tenhamos governos nessa linha.
Marques – Eu não vejo nada de radical nas ações de quem quer que seja nosso o que é nosso e defende a ideia de termos como meta ser um país desenvolvido. Isso não pode ser classificado como radical.
Arantes – Moderação para o Felipe significa: não faça nada que desagrade aos cardeais do mercado. Se todo mundo fosse "Felipeano", os que mandam no mercado seriam reis absolutistas, nós viajaríamos cada vez mais para o passado e as conquistas sociais iriam para o espaço.
Marques – Esse espírito colonizador é muito mais difícil de ser combatido do que o colonialismo propriamente dito, que não havia como ser negada a existência dele.
Gabriel – Estamos cada vez mais nas mãos dos que passeiam pela escuridão.
Arantes – A voz do povo nunca foi a voz de Deus, mas os neoliberais têm conseguido manobrar para que a voz do povo seja cada vez menos a voz do povo.
Marques – Ela está sendo programada para não dizer nada.
Gabriel – Se esses colonizadores deixassem a gente aprender a ver e a ouvir, e a gente pudesse andar na companhia do "Senhor Por Que", como é que eles iriam conseguir fazer o que fazem com a gente?
Arantes – Para a maioria dos moços que estão no topo da pirâmide social a nossa emancipação é tão assombrosa ou mais do que a cruz para o satanás.
Marques – Nessa atmosfera neoliberal, o espírito colonizador que existe, não existe.
Gabriel – Quando a nossa sociedade ensaia existir para si, a turma que dá as cartas arruma um pretexto para desestabilizá-la, enfraquecê-la e inviabilizar essa existência. Para assim conservar tudo como está.
Marques – Combater o comunismo ou a corrupção tem sido alguns dos pretextos usados para desestabilizar a nossa sociedade ou para promover golpes de Estado.
Arantes – A turma que dá as cartas, a pretexto de homogeneizar, hegemoniza.
Gusmão – O espírito colonizador que vocês a ele se referem ficou no passado. Vocês precisam urgentemente vir para o presente.
Gabriel – Outro dia eu li no DCM uma matéria do Ricardo Kotscho, sobre uma reunião entre Lula, Alencar e um moço das finanças. Nessa reunião, Lula e Alencar (então candidatos), enquanto apresentavam planos para o desenvolvimento nacional, foram interrompidos várias vezes pela mesma frase exclamativa, usada por um moço das finanças: "Mas isso o império não vai deixar! Não vai dar certo!" (DCM, 2023) Isso aconteceu em 2002, não há cem ou duzentos anos. Você, meu caro Gusmão, pode não conseguir ou não querer enxergar, mas a debilidade da nossa soberania não é assunto do passado.
Arantes – "Mas isso o império não vai deixar! Não vai dar certo!" Essa advertência bate às nossas portas frequentemente.
Gusmão – Eu nunca ouvi isso!
Marques – Não precisa ser com essas palavras. E muitas vezes não precisa ser usada uma única palavra.
Arantes – O que são as reações negativas do mercado as medidas que visam defender: os interesses dos trabalhadores, os nossos recursos naturais, a dignidade humana?... São a mesma coisa que dizer: "Mas isso o império não vai deixar! Não vai dar certo."
Gusmão – Mas isso é suficiente para que se possa falar sobre o tal "espírito colonizador"?
Arantes – As reações do mercado fazem parte das coisas que nos mostram que a essência do colonialismo continua, com uma feição adequada aos nossos dias, mas causando a velha sangria.
Gabriel – O nervosismo do mercado – que em certas ocasiões lembra um adolescente mimado – em relação a qualquer sinal de redução dos privilégios dos mais ricos é, a meu ver, uma arma que eles usam para chantagear os agentes estatais e impedir que esses agentes atuem para defender os interesses dos seus cidadãos.
Marques – Os das finanças estão com as mãos na direção desse barco, são os grandes colonizadores atuais.
Gabriel – O neoliberalismo viabiliza o passeio de lobos em pele de cordeiro. O espírito do deixa fazer, deixa circular, fortalece os mágicos ilusionistas que vivem a fazer parecer que há justiça social, que prevalece o mérito, a competição; quando na verdade o que prevalece é a conservação de privilégios e a transformação destes em direitos.
Arantes – Para poder pintar e bordar, dar as cartas, ser as regras e o jogador, a turma que fala mais alto vive a fragilizar o Estado, a sociedade, a razão, a humanidade... eles tentam remover ou corroer tudo que não contribua para a livre circulação das águas que correm para o mar.
Gabriel – Essa fragilização gera uma chave que aciona os tratores que abrem os caminhos para o passeio dos "escolhidos".
Marques – Sabemos que, seja lá quem for que esteja no governo, quem fala mais alto são os moços das finanças. Mas as coisas pioram e muito quando esses moços conseguem colocar os seus funcionários na direção do barco estatal. Foi, por exemplo, o que aconteceu aqui de 2016 a 2022.
Arantes – Quando o barco estatal é dirigido por funcionários dos moços das finanças (agentes do mercado disfarçados de agentes públicos), todo mundo sabe o que acontece: o mercado nem precisa ficar nervoso, o touro não precisa nem sequer cavar o chão e encarar, no primeiro olhar do touro para o governo, o governante diz: sim senhor, já entendi, não se preocupe, não vamos fazer nada que lhe desagrade.
Gabriel – Há uma coisa que eu vou fotografá-la, revelá-la, emoldurá-la e expô-la na parede das minhas memórias. Essa coisa é o ilustrativo comportamento do mercado diante dos governos eleitos em 2018 e em 2022.
Marques – Qual foi o fato inédito visto por você no comportamento dele?
Gabriel – Não há nada de inédito nos trejeitos do mercado, fizeram o que sempre é feito. Mas o contraste traz um tempero diferente. O contraste entre o governo eleito em 2018 e o eleito em 2022 é evidente. E o comportamento do barco do mercado nessas águas contrastantes contribui para fragilizar os disfarces que escondem a verdadeira face que ele tem.
Gusmão – Para mim, não há essa coisa de disfarce. O mercado não esconde o que ele é. E se move pela lei da oferta e da procura. Nele prevalece o mérito e a concorrência. Isso, sim, traz vantagens para toda a sociedade.
Marques – Só você pra falar uma coisa dessas! Não esqueça que sabemos qual é a política que prevalece no mercado.
Arantes – Estamos falando de soberania nacional, de não ser uma economia colonial, de não ser uma sociedade que funciona para as outras e não para si própria. Então, aqui, as leis ou virtudes citadas pelo Gusmão, quase sempre, são disfarces para esconder a verdadeira face das criaturas que incorporam o espírito colonizador que nos devora.
Marques – Pré-sal, Petrobrás, Embraer são exemplos recentes dessa velha história que nos mostra que o que é nosso, não é nosso.
Gusmão – Essa ideia de soberania vai de encontro ao livre mercado, não consigo vê-la dissociada dos atrasos dos governos de esquerda.
Gabriel – Defender a soberania não é defender a esquerda, atacar o capitalismo, ser radical. É buscar a nossa carta de alforria. É proteger o bolso.
Marques – Não temos nem nunca tivemos um elevado grau de soberania, mas em alguns períodos esse nosso grau de soberania fica muito abaixo do nível do mar. De 2016 a 2022, por exemplo, tivemos essa baixeza. Nesse período, os funcionários dos moços das finanças, disfarçados de agentes públicos, intensificaram o entreguismo. Nossos recursos naturais, as empresas públicas, o Mercosul, os BRICS... Brincaram com tudo que direciona o barco para o caminho do nosso desenvolvimento.
Felipe – O que é que o Mercosul e os BRICS têm a ver com o tal do "entreguismo"?
Marques – O Mercosul e os BRICS vão de encontro aos interesses dos patrões dos que estavam disfarçados de agente públicos, os entreguistas.
Gabriel – Todo mundo sabe que os moços do topo da pirâmide, os que mandam no mundo, fazem de tudo para promover o individualismo. A ideia de o povo unido buscando seus interesses é assombrosa para esses moços, eles preferem ver o satanás a ver o povo unido. Atacam os sindicatos, os partidos políticos, os movimentos sociais e todos os meios que possam fortalecer os canais coletivos. Pelos mesmos motivos eles atacam as alianças entre países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.
Gusmão – Não é o neoliberalismo, é o Mercosul e os BRICS que podem impulsionar o nosso desenvolvimento?
Marques – Ao contrário do neoliberalismo, o Mercosul e os BRICS, apesar de suas limitações, estão entre as importantes ferramentas que podem contribuir para que se possa marchar rumo à superação da condição de subdesenvolvido ou de em desenvolvimento, como você preferir.
Arantes – Assim como os impérios do passado, os que hoje dão as cartas saqueiam os frutos dos esforços da maioria, que é arrastada pelo barco preso ao livre mercado. Hoje, os saqueadores são invisíveis, mas os efeitos dos saques são sentidos.
Marques – Esses moços invisíveis são os grandes promotores do colonialismo dos nossos dias.
Gusmão – Que viagem é essa? Você fumou "marijuana"estragada?
Marques – Meu amigo, amante do Tio Sam, do deixa circular, do menos Estado mais mercado e de todos os piratas das finanças, eu sei que você sabe que o passado explorador não passou.
Gabriel – Vamos imaginar um país que tenha muitos recursos naturais, vamos chamá-lo de Cariri. Digamos que o Cariri queira se industrializar e aproveitar o deixa circular, o livre mercado, o neoliberalismo, a competição, para assim transformar seus recursos em riqueza e buscar o seu desenvolvimento. Gusmão, você acha que o Cariri, fazendo por merecer, iria marchar livremente rumo ao desenvolvimento?
Gusmão – Olha, eu acho que é compreensível que o sistema crie barreiras para dificultar a chegada de novos membros ao clube dos desenvolvidos.
Felipe – Gabriel, se você fosse um fabricante de caramelos e o seu fornecedor de açúcar planejasse diminuir o fornecimento para que ele próprio pudesse produzir caramelos, para assim competir com você. Você não iria fazer nada para dificultar a evolução do seu fornecedor de matéria-prima?
Gabriel – Vamos ver outra situação. O Cariri não quer mais competir com ninguém, quer produzir apenas para o mercado interno. E agora, deixariam o Cariri em paz?
Gusmão – Hoje em dia, ninguém mais quer produzir apenas para o mercado interno.
Felipe – Bom, nessa situação hipotética, você não teria um concorrente no mercado de caramelos, mas seria afetado pela diminuição do fornecimento de açúcar.
Gusmão – E você ainda perderia o mercado caririense, que deixaria de importar caramelos.
Gabriel – Então, competindo ou não com os desenvolvidos, o Cariri não iria marchar livremente rumo ao desenvolvimento?
Felipe – Olha, é a racionalidade do mercado. Sabemos que o mundo não é movido por justiça. Mas é essa racionalidade que, apesar de suas falhas, viabiliza, por exemplo, o desenvolvimento tecnológico e científico do qual todos nós desfrutamos.
Marques – O Cariri é um país subdesenvolvido e o neoliberalismo é conservador. Se o Cariri lançar seu barco nos mares neoliberais vai ficar a ver navios. Ficará como uma colônia, um palco para os pássaros das finanças festejarem.
Gusmão – O neoliberalismo é conservador? Eu acho que você quis dizer inovador.
Marques – Nesses últimos tempos, quase meio século de ditadura neoliberal, qual país subdesenvolvido, que seguiu a cartilha neoliberal, se transformou em desenvolvido?
Arantes – Quando um país da América Latina ou da África vai chegar a ser desenvolvido seguindo a cartilha neoliberal?
Marques – Sem chance! Ele veio para privilegiar os privilegiados.
Arantes – Caso o Cariri queira ir por esse caminho será sempre um quintalzinho.
Marques – Vai existir para fornecer açúcar e comprar caramelos.
Gusmão – Nos últimos quarenta anos, testemunhamos um crescimento econômico esplendoroso.
Marques – E um vergonhoso crescimento da concentração de renda. Aumentou a diferença entre países ricos e pobres. E também aumentou a diferença entre as classes sociais dentro de um país.
Arantes – Isso é o neoliberalismo.
Gusmão – Você está se esquecendo da espetacular evolução que o capitalismo promoveu na China.
Marques – Mas na China não prevalece o "menos Estado mais mercado" e ela não engoliu os remédios que os farmacêuticos neoliberais vendem, mas que jamais experimentam.
Arantes – O neoliberalismo nunca contribuiu para diminuir problemas sociais como a fome, o crescimento da desigualdade social, a vergonhosa diferença entre a expectativa de vida dos ricos e a dos pobres...
Gabriel – Ele sempre contribuiu para a ampliação desses problemas.
Marques – Essa ampliação no mundo neoliberal é evidente.
Arantes – O que há de evolução nas sociedades subdesenvolvidas, há apesar do neoliberalismo e não graças a ele.
Gabriel – Eu creio que tudo que há de bom, inclusive os avanços científicos e tecnológicos, estaria ainda melhor se não respirássemos o gás neoliberal.
Marques – Eu acredito que desestabilizar a Petrobrás, saquear o pré-sal, arrebatar a Embraer... são ações que não podem ser chamadas apenas de criação de barreiras para impedir que o Brasil marche rumo ao desenvolvimento. Ações como essas contribuem para nos empurrar para a parte debaixo da tabela do IDH e para a parte de cima da tabela dos problemas sociais: população carcerária, número de homicídios, mortes no trânsito, consumo de álcool e outras drogas, fome, crescimento da desigualdade, baixa percepção da realidade... há causas para esses problemas e entre as principais estão as ações que impedem o desenvolvimento do país, as ações exploratórias, colonizadoras, criminosas.
Arantes – Sabotar e saquear são práticas típicas dos que mais ganham com o neoliberalismo.
Marques – O espírito colonizador assombra e sempre assombrou.
Gabriel – A exploração sempre vai existir, tanto entre os indivíduos quanto entre as sociedades. Mas é preciso que haja limite.
Arantes – Outro dia eu assistia a um filme sobre o Simón Bolívar e nesse filme me chamou a atenção uma conversa entre o Bolívar e um moço das finanças. O moço, de certa maneira, queria tomar conta do sistema bancário da América que tinha acabado de se tornar independente da Espanha. O Bolívar argumentou que conceder o que o moço queria significaria sair das mãos da Espanha para as mãos do grupo do moço das finanças. Este, "com ódio no olhar", disse para o Bolívar que há coisas que nunca mudam! Repito, ele disse: há coisas que nunca mudam! Nesse momento eu pausei o filme para viajar pelas linhas do "há coisas que nunca mudam". Linhas pelas quais se transporta o que realmente importa para mudar a cotação do dólar.
Gabriel – Bolívar saiu vitorioso contra a Espanha, mas não pôde ser páreo para as "coisas que nunca mudam".
Marques – Isso me fez lembrar uma fala da então Presidente, Dilma Housseff, que irritou os moços das finanças. Ela falou que os juros, por aqui, eram um dos mais altos do mundo e que não havia justificativa para isso.
Arantes – Creio que essa declaração, em prol de juros civilizados, está entre os "crimes" pelos quais ela foi "condenada" em 2016.
Gabriel – "Há coisas que nunca mudam"!
Marques – Os moços das finanças dão as cartas e descartam tudo que peça jogo limpo.
Arantes – E sempre contam com uma "forcinha" da mão invisível de um deus que só existe para servir aos seus.
Gusmão – Então, pra vocês, essa mão invisível é como a mão do Maradona contra a Inglaterra!
Arantes – Que absurdo! Que ofensa à memória de "Don Dieguito"! Você não pode comparar a mão de "dios" com a mão do satanás!
Marques – A mão invisível pesa sobre nós, nutre o colonizador, põe dinamite nas cercas que demarcam os limites e esmaga todos os valores para enxertar o valor que vale no vale infecto que transforma floresta em deserto.
Gusmão – Ao em vez de chamar o progresso de colonizador, vocês deveriam chamá-lo de redentor.
Marques – Mas não é o progresso que é colonizador. Eu sou progressista. Colonizadores são os conservadores que querem, a qualquer preço, perpetuar os seus privilégios.
Felipe – "A qualquer preço" é um exagero.
Marques – Não, não é! As consequências das ações dos que buscam perpetuar os privilégios são gravíssimas, veja o nosso quadro social.
Felipe – Os homens do sistema financeiro, que vocês chamam de colonizadores e de exploradores, não têm nada a ver com os nossos problemas sociais.
Marques – Puta que pariu!
Arantes – Felipe, como você ainda tem coragem de falar isso?
Gabriel – Os que saqueiam não têm nada a ver com a escassez de recursos dos saqueados?
Arantes – A desfaçatez neoliberal deu asas para que os que tocam o samba digam que não têm nada a ver com o giro da ciranda.
Gabriel – Ontem os moços colonizadores justificavam os saques dizendo que os colonizados eram selvagens, inferiores, subumanos, uns molambos que poderiam ser, literalmente, esmagados para que a raça superior pudesse se apropriar das riquezas desses molambos. Hoje, na era do "faz de conta", eles não podem mais usar as justificativas do passado. Então negam o saque e justificam os problemas sociais como sendo: culpa das vítimas, dos políticos, do Estado ou dizem que os problemas resultam de fatalidades.
Arantes – É, infelizmente, o "a qualquer preço" não ficou no passado, ele se adaptou.
Gusmão – Então o homem neoliberal é um inconsequente que costuma se atirar num tudo ou nada?
Arantes – Você sabe que nesse "a qualquer preço" quem paga por ele são sempre os outros, nunca os mocinhos neoliberais. O "a qualquer preço" dos neoliberais não tem nada a ver com o "tudo ou nada".
Gabriel – Por aí há abundância de amostras da falta de escrúpulo que tempera o espírito neoliberal.
Gusmão – Você se diz capitalista, mas critica ferozmente o neoliberalismo. Porém eu não vejo você fazer uma única crítica ao regime cubano, por exemplo. Por que isso?
Gabriel – Porque o regime cubano não achata o meu salário, não tira meus direitos trabalhistas e previdenciários, não tenta me escravizar, não tenta colonizar o meu país... Eu não sou em nada afetado por ele.
Felipe – Ele é melhor para os cubanos do que o neoliberalismo para nós?
Gabriel – Bom, eu não gostaria que aqui fosse implantado um regime com um partido único ou qualquer modelo não capitalista. Mas isso não me leva a ser contra o regime cubano. Cuba está ali ao lado dos Estados Unidos. Se aquele país se abrir, abruptamente, vai funcionar para servir ao Tio Sam.
Arantes – Eu também não gostaria que o modelo cubano fosse implantado no Brasil. Mas se eu fosse cubano também não gostaria que Cuba tivesse a frágil soberania nacional e o entreguismo que debilitam o Brasil.
Gabriel – Cuba... tão longe do G7 e tão perto de Wall Street, se se abrisse abruptamente passaria a possuir luxuosos cassinos, carros, edifícios e hotéis nos quais o povo cubano seria: porteiro, zelador, motorista... Cuba se tornaria um luxuoso charuto a ser tragado pelos magnatas.
Marques – O espírito colonizador preserva sua "generosidade" secular, sua incansável disposição para levar a democracia para todas as nações incapazes de se defenderem.
Gabriel – E especialmente para as que possuem muitos recursos naturais e/ou se neguem, totalmente, a engolir os remédios oferecidos pelos farmacêuticos neoliberais.
Arantes – Pois é, que ninguém ouse fazer a desfeita de não abrir a boca para engolir os remédios neoliberais. Todos devem abrir as portas para a secular "generosidade" dos mais ricos.
Marques – Os que incorporam o espírito colonizador continuam fabricando instrumentos para saquear fingindo que vão ajudar. Um desses instrumentos é essa de os direitos humanos prevalecerem sobre a soberania nacional.
Felipe – Meu amigo, você sabe que há por aí muitas violações aos direitos humanos que sem uma intervenção externa dificilmente são neutralizadas. Cito, por exemplo, as ações históricas, demovimentos internacionais, para combater o apartheid na África do Sul.
Marques – Mas eu falo do espírito colonizador, dos saques aos países que não conseguem resistir e de tantas outras agressões à soberania nacional que são praticadas a pretexto de estarem defendendo os direitos humanos. O belo movimento em prol do fim do vergonhoso apartheid não se enquadra aqui. Falo de forças exploradoras que agem, em geral, para impor seus interesses. Se você for amigo do rei pode violar os direitos humanos que os nobres defensores farão vista grossa. Lembre, por exemplo, do Pinochet e de outros ditadores que aterrorizaram aqui na América Latina e em outras partes do mundo. No que depender dos mocinhos (pseudodefensores dos direitos humanos) que incorporam o espírito colonizador – se você não estiver contrariando os interesses desses mocinhos – você pode violar os direitos humanos o quanto quiser. Essa é a ética que impera na atmosfera dos moços que dão as cartas.
Gabriel – Os lobos preocupados com o bem-estar dos cordeiros. Pelo amor de Deus! Os mocinhos exploradores, que são os maiores violadores dos direitos humanos, preocupados com os direitos humanos.
Arantes – Eu aposto que esses que mais violam os direitos humanos estão por trás dessa ideia de que se deve violar a soberania nacional para defender os direitos humanos. Essa bandeira se transforma em mais um instrumento disponível para uma cartada quando uma reivindicação não for acatada. É um instrumento que pode ser usado para atacar a soberania de um país quando ele estiver sendo governado por um herege que ousar colocar os interesses do seu povo sobre os interesses dos cardeais que mandam no mercado.
Gabriel – Eu tenho três certezas: que a evolução tecnológica nunca esteve em um ponto tão alto, que eu vou morrer um dia e que o "ilusionismo" nunca foi tão abrangente.
Gusmão – Essa sobre o ilusionismo expressa uma visão de mundo pessimista.
Gabriel – Pessimista? Sabemos que a hipocrisia, o cinismo, a manipulação, a desfaçatez, a "fabricação de consensos" e outros meios de enganar formam uma base que dá sustentação a quase todas as edificações mais imponentes do mundo neoliberal.
Marques – A mentira move montanhas nessa selva.
Arantes – Cada vez mais aumenta a diferença entre as coisas como elas são e as coisas como elas são mostradas. Cada vez mais a realidade paralela passeia na passarela.
Marques – Essa atmosfera é essencial para que os que dão as cartas possam apresentar "restaurações como revoluções".
Gabriel – Nesse terreno fértil, eles podem ampliar e intensificar o plantio das sementes por eles patenteadas.
Arantes – Marques, por você falar em "restaurações como revoluções", lembrei-me das revoluções coloridas. "Hoje, as chamadas 'revoluções coloridas' são todas golpes de Estado." (LOSURDO, 2020, p. 199).
Felipe – Quanto ao vírus da "realidade paralela" creio que ele existe apenas em determinadas bolhas.
Arantes – Pois eu acredito que há muito ele furou as bolhas e se alastra por aí.
Gabriel – Nessa atmosfera neoliberal, os poderosos ilusionistas vivem a se divertir, vivem tão à vontade que não se limitam a tirar coelhos da cartola, tiram elefantes. Na praia desses poderosos ilusionistas colonizadores o "se colar colou" não tem nem mais graça porque tudo cola vindo da cartola desses mocinhos: democracia pro Iraque, perigo do comunismo, preocupação humanitária com o povo da Venezuela e outras novelas. Tudo cola nessa escola que os ilusionistas tiram da cartola.
Marques – O que seria do povo palestino se não existissem esses mocinhos bondosos que levam democracia e direitos humanos para os quatro cantos do mundo?
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