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Entreguistas

Arantes – Atualmente, as atrocidades dos poderosos são justificadas – "por debaixo dos panos" – como um "cuidadoso" controle social; e, publicamente, como um "responsável" cuidado com a economia para o bem de todos.

Marques – Destruir o senso crítico, impedir a emancipação, distorcer a realidade, induzir o cidadão a erros, explorar o trabalhador, destruir direitos trabalhistas, debilitar a previdência social, transformar o homem em coisas e a vida em uma corrida sem chegada e sem saída são atrocidades plenamente aceitáveis em nome do "controle social" ou da saúde da economia.

Gabriel – Permitam-me um momento de otimismo.

Arantes – O Ariano Suassuna diz que: "O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso" (GGN, 2023)

Gabriel – Permitam-me uma tolice: se algumas ações que eram tidas como necessárias, hoje são inaceitáveis; as atuais maldades da mídia, amanhã também poderão ser classificadas como inaceitáveis.

Felipe – Do jeito que você fala parece até que é a mídia quem move todas as pedras do tabuleiro.

Gabriel – É claro que não é ela quem move, mas é ela quem mais "prepara o terreno" para a atuação dos movedores. Ela é a grande viabilizadora da exploração neoliberal.

Arantes – A principal diferença entre os que serviram aos exploradores do passado e os que servem aos do presente é a capacidade que os de hoje têm para fazer os sentidos terem o sentido que os interessa. As vítimas de hoje, em regra, não identificam seus algozes (os atuais feitores, capitães do mato e carrascos), eles são invisíveis ou imperceptíveis ou pior ainda: são vistos como criaturas admiráveis, referências a serem seguidas, orientadores, fontes de sabedoria, luzes que podem iluminá-las.

Marques – Estamos fodidos!

Arantes – Existimos para servir como qualquer outro objeto sujeito à cotação do mercado.

Marques – A mídia neoliberal nos metamorfoseia.

Arantes – Jornais, novelas, filmes, outros entretenimentos, tudo é moldado para nos moldar.

Gusmão – Eu acho que os jornais são importantes ferramentas para a formação dos cidadãos.

Arantes – Pelo amor de Deus!

Gabriel – Como pode existir formação cidadã sem senso crítico, sem estímulo à emancipação, a ver com os próprios olhos?...

Marques – O que a gente vê nos jornais da mídia neoliberal é propaganda disfarçada de jornalismo.

Arantes – Os jornais são ardilosamente alienadores e o entretenimento, apesar da sutileza, cumpre a mesma função.

Gabriel – Nossas novelas, por exemplo, nos mostram um mundo cor de rosa, no qual o bem sempre se dá bem. O lado do bem é o lado dos mocinhos que dão as cartas e para sermos do bem devemos ser boas ovelhas, que seguem sempre o sentido que os pastores direcionam. Os pastores e os outros que servem aos moços que dão as cartas, obviamente, são do bem; as ovelhas que desgarram do rebanho, são desalinhadas, são do mal. Esteja alinhado aos mocinhos que seu papel é bonitinho. Vamos fazer um mundo melhor doando uma cesta básica no período natalino. E não sejamos subversivos, heréticos, a ponto de querer saber por que as pessoas precisam de esmola.

Arantes – "É evidente que a mídia é, no conjunto, um fator de despolitização [...]" (BOURDIEU, 1998, p. 109).

Marques – Somos animais políticos, sem esse atributo seríamos apenas animais.

Felipe – Não esqueça que é o universo político que está dentro do universo cultural, e não o contrário.

Marques – É claro. Mas os ataques ao nosso espírito político são... atentados à nossa caminhada, aos nossos sentidos e ao sentido de todas as decisões.

Gusmão – Todas as decisões são afetadas pelo espírito político para você que é um ateu, não para mim.

Gabriel – Somos constantemente atingidos por decisões políticas, vivemos cercados por regras que não caíram do céu, são frutos de convenções. Essas regras interferem em nossos passos, nos obrigam a obedecer aos "semáforos" no trânsito e fora dele. Não construímos os caminhos por onde iremos caminhar. Caminhamos por onde é caminho. Por onde e como caminhamos não é uma decisão apenas nossa: você não pode andar numa contramão, não pode entrar numa propriedade privada sem permissão; não pode andar de moto sem capacete, não pode andar num veículo sem um cinto de segurança, não pode andar numa velocidade superior à permitida na via onde você circule... No trânsito e fora dele somos afetados o tempo todo por decisões tomadas com ou sem a máscara da decisão técnica, mas sempre com a alma política.

Marques – Despolitizar o homem é uma ação criminosa que a mídia neoliberal pratica com requintes de crueldade.

Gabriel – "Ela fatalmente estimula uma ação conservadora, de desmobilização dos movimentos críticos [...]" (BOURDIEU, 1998, p. 112).

Felipe – Creio que nessa crítica aos veículos de comunicação, vocês estão se esquecendo que há uma acirrada concorrência entre eles. Estamos na era da informação e a concorrência entre os diversos veículos de comunicação é cada vez mais forte. Eles buscam conquistar o público o tempo todo, isso os leva à diversificação. Então, o que vocês chamam de "mídia neoliberal" está longe de ser uma coisa homogênea.

Gabriel – É claro que há uma concorrência feroz. Mas todas as feras dessa selva comem na mão de um mesmo domador: um deus que não sabe o que é amor, que existe para prover milagres apenas para um lado, o lado de cima da pirâmide, onde prevalece a festa dos moços das finanças, que dão as cartas e descartam qualquer projeto que vise dar espaço, na mídia neoliberal, para o que ou quem quer que seja que não se encaixe na "linha editorial".

Gusmão – Gabriel, qualquer dia você vai encontrar por aí os homens da censura – funcionários dos que "dão as cartas" – nas portas dos veículos de comunicação.

Felipe – Eu sei que os mais ricos têm muita influência sobre os grandes veículos de comunicação, mas isso não é suficiente para que possamos dizer que eles os controlam.

Gabriel – Hoje em dia, os homens da censura estão muito bem escondidos nos desejos de cada um dos agentes do mercado disfarçados de jornalistas e de outros comunicadores.

Gusmão – Jornalistas e outros comunicadores são, para você, sinônimos de agentes do mercado?

Gabriel – Claro que não, você sabe aos que estou me referindo.

Marques – A era da velocidade da informação trouxe a falsa sensação de se ter: autonomia para pensar e opinar, diversidade de opiniões, democratização dos meios de comunicação...

Gusmão – Vocês vão mesmo insistir nessa conversa de que não há diversidade de opiniões?

Marques – Ninguém aqui vai confundir quantidade com diversidade. Quando se trata de temas que "mudam a cotação do dólar", na mídia neoliberal, não há diversidade.

Arantes – Podemos citar como um exemplo de falta de diversidade de opiniões a cobertura dos espetáculos promovidos pela parceria público-privada batizada de: Operação Lava Jato. A cobertura dos espetáculos da Lava Jato é uma amostra representativa da verdadeira face da mídia neoliberal. A face que fica por baixo dos disfarces que ela usa para se apresentar.

Gusmão – A mídia apenas publica os fatos ocorridos.

Marques – Puta que pariu! Quem é que não sabe que os fatos na mídia neoliberal não são apenas registrados, são fabricados também?

Gusmão – Então a mídia fabrica as notícias?

Marques – Quando julga necessário, fabrica sem nenhum pudor.

Felipe – Eu creio que você está confundindo as coisas. Eu sei que na mídia, às vezes, as amostras não são representativas do universo que elas foram retiradas. Mas isso é manipulação, não é a mesma coisa que fabricação de notícias, de fatos; ou simplesmente: mentiras.

Marques – Eu não usaria o "quando julga necessário" para me referir à manipulação, esta faz parte da essência da mídia neoliberal e quando julgam necessário eles, descaradamente, fabricam notícias.

Gabriel – A relação entre a Lava Jato e os jornalistas da mídia neoliberal era muito promíscua. Qualquer papel higiênico usado enviado pela Lava Jato era recebido por eles com as duas mãos e sem nenhuma repugnância.

Arantes – A meu ver, essa mídia não era apenas negligente, era cúmplice da Lava Jato.

Marques – Olha que coisa "linda": a Lava Jato entregava falsos Picassos para a mídia neoliberal, que os publicavam como autênticos e estes passavam a servir como provas para que a Lava Jato pudesse condenar os que eram acusados por ela.

Felipe – Eu sei que a grande imprensa cometeu alguns excessos durante a Operação Lava Jato, mas, para mim, "os fins justificam os meios". E em relação à diversidade de opiniões (em determinados assuntos), eu penso que ela não deve existir nos meios de comunicação que vocês chamam de "mídia neoliberal" (a grande imprensa e os gigantes da mídia digital). Essa diversidade significaria a anulação dos esforços empreendidos em prol da viabilização do progresso. Uma séria, honesta e efetiva exposição de opiniões contrárias, de pontos de vistas diferentes, na grande mídia, significaria a destruição de estruturas que sustentam a promoção do desenvolvimento. Imagine quatro pessoas em um barco a remo, duas remando em uma direção e as outras duas remando na direção contrária... Esse barco não iria andar. Para que a sociedade ande para frente é preciso que no barco que conduz as massas, a luz seja usada para sinalizar uma direção e não para iluminá-las e permitir que elas andem por onde quiserem.

Marques – Isso é um neoliberal sendo um neoliberal.

Arantes – Tudo que contribua para abrir os nossos olhos, para nos iluminar, para nos emancipar vai preocupar os que dirigem o barco que nos transporta.

Marques – Nos querem hipnotizados.

Gabriel – Seria muito difícil manter os excessos neoliberais sem a hipnose que lançam sobre nós. Sendo sugestionados pelos mágicos vestimos a camisa da equipe dos proprietários e patrocinadores do show de magia como se o sucesso dessa equipe fosse nosso também, como se chovendo na horta deles, a nossa fosse ficar verdinha também.

Arantes – Para que esse show de manipulação seja um sucesso é preciso que nós sejamos rebanhos que seguem a sinalização que não nos ilumina, que apenas indica uma direção: a que nos conduz, sem luz, para a escuridão da servidão.

Marques – A diversidade de opiniões anularia os esforços para quê? Nos hipnotizar? Esconder o porquê? Levar o "penso, logo existo" para o túmulo? Nos transformar em mercadorias? Nos tornar um rebanho manso com os sentidos no sentido direcionado pelos que se sentem proprietários de tudo?...

Gabriel – Esse crescente mar de mentiras e de manipulação é matéria-prima indispensável para o passeio dos piratas, para esse espírito feudal, voltado para exploração e para a conservação dos privilégios. Nesse mar, o mérito – tão falsamente alardeado pelos piratas das finanças – é uma assombração que não pode habitar o barco desses moços "empreendedores".

Marques – As maldades da mídia neoliberal visam debilitar o que nos faz diferente dos outros animais, buscam nos transformar em um rebanho desorientado e facilmente levado pelo aboio dos cavaleiros neoliberais.

Gabriel – Aqui recentemente a mídia neoliberal fez um carnaval em cima de uma declaração do Presidente Lula. Ele declarou que teve vontade de foder o Moro. Teve! O verbo está no pretérito. Quem é que não tem vontade de devolver as agressões no momento em que está sendo agredido? Quem aqui é Jesus Cristo? Quem aqui é capaz de oferecer a outra face?

Arantes – Pelo "auê" que foi feito pela mídia neoliberal parecia que ele tinha dito que tem vontade, mas ele disse que teve.

Gabriel – Nelson Mandela não teria se tornado o que se tornou se tivesse assumido o governo da África do Sul para estimular o ódio aos brancos, como estes faziam com os negros. E, respeitando as devidas proporções, é isso que o Lula está fazendo aqui. Assim como o Mandela, sai da cadeia para a Presidência da República e não procura fazer com os seus agressores o mesmo que estes fizeram com ele.

Marques – O que interessa à mídia neoliberal é apresentar um sentimento natural (o agredido desejar agredir o agressor no momento da agressão) como uma falha inaceitável. A ela interessa fragilizar o representante do povo para favorecer cada vez mais o passeio dos piratas que colocam o mercado em seus barcos.

Gusmão – Olha, mesmo respeitando as proporções, não dá pra comparar o caso do Mandela com o do Lula. A realidade da África do Sul que tirou o Mandela da cadeia para a Presidência não tem nada a ver com a do Brasil.

Gabriel – Não estou comparando em todos os aspectos, e sim nos que cabem a comparação. E o fato de saírem da cadeia para a Presidência imbuídos em um espírito democrático, pacifista e conciliador – a meu ver – cabe comparar.

Felipe – Você acha que o Lula é o mocinho e os que o levaram à prisão são os vilões?

Gabriel – Você sabe que eu não sou de aderir a essa de que há de um lado mocinhos e de outro, vilões. Ninguém é santo, ninguém é perfeito. Mas quando falamos de valores que não têm preço, nesse mundo movido pelos valores do mercado, o Lula – com todas as falhas que possa ter – não pode ser posto abaixo do nível do mar onde está o "grupo de criaturas" que viabilizaram, patrocinaram e comandaram esse ataque ao desenvolvimento social, à soberania nacional e à democracia: a famigerada Operação Lava Jato.

Felipe – O Lula, como Presidente da República, não poderia ter falado o que falou. O problema não é ele ter tido o sentimento que teve no momento em que sofria, mas declará-lo em um outro momento. A franqueza não é compatível com a política.

Gabriel – "[...] a verdade fatual entra em conflito com o político apenas a esse baixíssimo nível dos negócios humanos [...]" (ARENDT, 2013, p. 325).

Arantes – Creio que o mesmo pode ser dito a respeito da franqueza.

Gabriel – A meu ver, a mídia neoliberal atuou o tempo todo para construir o ódio ao Lula e os recentes ataques a ele significa apenas a continuidade dos serviços que ela presta aos que dão as cartas no mercado.

Felipe – "Para que o Judiciário possa condenar alguém por corrupção, é preciso que o povo odeie essa pessoa" (MORENO-TAXMAN, LE MONDE apud CARTA CAPITAL, 2023).

Gusmão – Para que houvesse êxito na luta contra a corrupção era necessária essa parceria entre a mídia e o judiciário. A Lava Jato, a Mãos Limpas e outras não seriam exitosas sem essa parceria.

Marques – Que beleza! Ninguém sabe que essa luta, dos neoliberais, contra a corrupção é apenas um pretexto para debilitar: o Estado, os representantes do povo, a percepção da realidade e tudo que seja obstáculo para o passeio das águas que correm para o mar.

Felipe – Então, na Operação Lava Jato, a imprensa não contribuiu para combater a corrupção?

Arantes – Para a mídia neoliberal, tanto na Operação Lava Jato como antes e depois dela, combater a corrupção não é um fim, é um meio. Um meio usado para defender os próprios interesses.

Gabriel – Felipe, você acha que se fosse séria a luta contra a corrupção, as digitais dos moços dos "cassinos" – que estão com as duas mãos na direção desse trem que chamamos de mercado – não apareceriam na averiguação do lixo escondido embaixo dos tapetes?

Marques – Nessa "armação" Lava Jato, os moços das finanças e seus principais aliados não vêm ao caso.

Gabriel – Vejamos as consequências da Operação Lava Jato para os diversos atores. Quem ganhou? Quem perdeu? O povo brasileiro está entre os ganhadores?

Arantes – "A luta contra a corrupção estrangeira... (é) necessária para proteger nossos próprios interesses de segurança nacional e a capacidade de nossas empresas americanas de competir no futuro" (CALDWELL, LE MONDE apud GGN, 2023).

Marques – Os EUA são sempre muito cuidadosos com o Brasil. Sempre procuraram nos livrar de líderes "corruptos" como: Getúlio Vargas, JK, João Goulart, Lula e Dilma. O que seria de nós sem os bondosos ianques que nos livram desse tipo de liderança, instruem as nossas autoridades e ainda abraçam os exércitos da mídia neoliberal?

Arantes – Exceto os da extrema direita, qualquer governo brasileiro que tenha uma ligação direta com o seu povo causará incômodo ao Departamento de Estado norte-americano. A relação entre o governo brasileiro e o seu povo deve ser mediada pela mídia neoliberal.

Marques – Para um Presidente do Brasil ter ligação direta com o povo brasileiro e não incomodar o Departamento de Estado norte-americano é preciso que ele prefira ouvir o hino norte-americano a ouvir o nacional. É preciso que ele se cubra com a bandeira norte-americana e use a brasileira para enxugar os pés. É aqui

Arantes – Atualmente o Brasil tem um Presidente que não possui os requisitos necessários para passar tranquilidade para o Departamento de Estado norte-americano. A esse incômodo, a nossa mídia neoliberal reage com impetuosidade apontando seu arsenal para esse herege que ousa não seguir plenamente a vontade de Deus.

Gusmão – Vocês falam como se a mídia mandasse no Brasil, odiasse o Lula e servisse apenas aos interesses das forças que prevalecem. A realidade não é essa!

Felipe – É claro que a grande mídia pega no pé do Lula e cumpre um papel meio que de oposição à atuação política dele. Mas isso é necessário para limitar essa atuação de um ator político que apresenta uma preocupante inclinação para os interesses do povo. A mídia tem que defender o outro lado.

Gabriel – A mídia neoliberal é instrumento dos moços que dão as cartas. O Lula carrega consigo o espírito sindicalista e o neoliberalismo sempre visou esmagar os sindicatos. Não há como negar que o Lula não é um mordomo desejado no barco onde os piratas neoliberais fazem a festa.

Arantes – Felipe, sabemos que essa mídia não atua para promover uma correlação de forças, atua para viabilizar uma exploração excessiva.

Marques – Em relação ao Lula, a mídia neoliberal atua para, se não conseguir derrubá-lo, obrigá-lo a fazer concessões, fragilizá-lo para que ele não consiga incomodar os moços que dão as cartas, não consiga pôr nenhum limite nos canais que levam as águas para o mar.

Gusmão – Nesse terceiro mandato do Lula, eu vejo a mídia mostrar apenas o que ele faz!

Marques – Se você quer nos fazer rir, conte uma piada melhor.

Gabriel – Há pouco, eu me diverti observando o papel da mídia neoliberal... desenhando que o mercado reagiu e a bolsa despencou depois que o Presidente Lula falou um absurdo: O presidente do Banco Central tem que cumprir a lei.

Arantes – Depois ainda dizem que a lei é para todos.

Marques – É para todos que não estejam com o mar nas mãos.

Arantes – Ela não é, por exemplo, para os que fazem a festa nas bolsas de valores.

Marques – A bolsa de valores é um pulso para o qual a mídia neoliberal é um esfigmomanômetro que verifica a pressão arterial. Se ela estiver alta ou baixa, vão dizer que não está sendo seguida plenamente a receita neoliberal. E aí, seja para um lado ou para o outro o desajuste, o ajuste sempre é para um único lado, o que aperta ainda mais os que vivem apertados. É o espírito dos neoliberais, são eles quem definem a programação, mas quando algo dá errado a culpa é do programado.

Arantes – Quando o Lula expõe uma verdade que não é bem-vinda, ela é um absurdo inaceitável. Quando alguém não se curva plenamente ao neoliberalismo, é um esquerdista que precisa ser atacado. Quando alguém comete a heresia de não se curvar nem um pouco, é um comunista desgraçado que deve ser demonizado.

Marques – O que a mídia neoliberal faz, um dia há de ser visto da mesma maneira que hoje vemos os julgamentos da Santa Inquisição.

Gusmão – Mas que doideira é essa? O que é que tem a ver uma coisa com a outra? A mídia não faz julgamentos, não executa ninguém, não combate coisa alguma!

Marques – Não faz julgamento? Não combate? Ela é o braço direito de um modelo que é um Robin Hood ao contrário. Ela combate a heresia, a blasfêmia, a bruxaria...Heresia hoje é se opor ao neoliberalismo. Dizer que ele amplia a concentração de renda e causa fome é uma blasfêmia. Falar em senso crítico ou em emancipação é uma bruxaria, é querer enfeitiçar as boas ovelhas, é coisa do demônio para tentar as boas ovelhas, que são patrimônio do senhor deus da mão invisível.

Arantes – A meu ver, hoje, o Estado, a sociedade e a democracia são o que essa mídia quiser que eles sejam.

Gabriel – E nessa atmosfera, a política está sendo cada vez mais demonizada.

Marques – A mídia neoliberal ataca a política de modo geral, mas com muito mais intensidade e profundidade à ala política que vê o povo como cidadãos e não apenas como mão de obra a ser explorada.

Gusmão – Daqui a pouco você vai dizer que a mídia é um partido político!

Marques – Há pouco, vimos por aí as manchetes sobre as joias da Arábia. Meu amigo, já pensou se o príncipe da Arábia tivesse coberto a Janja de joias? De imediato eles teriam dito que aquilo era resultado de corrupção, ela existindo ou não. Diriam que era um suborno. E o Lula seria corrupto e corno.

Gabriel – A extrema direita e a mídia neoliberal servem ao mesmo senhor. Elas se agridem, mas uma não quer destruir a outra.

Marques – Para mim, a briga entre a extrema direita e alguns segmentos da mídia neoliberal é briga entre irmãos.

Gusmão – Então, pra você, ela é apenas um teatro?

Marques – Não. Irmãos também brigam. E quando brigam por herança pintam o diabo.

Arantes – Sabe o que é engraçado, é a gente ver essa mídia como autoridade de checagem das fake news lançadas pela extrema direita e outros exércitos neoliberais.

Marques – Se eu fosse um desses humoristas que fazem show de stand up faria ótimas piadas com essa situação.

Arantes – Faria mesmo, mas não teria palco. Seria um herege desgraçado, amaldiçoado pela indústria cultural.

Gabriel – Para mim, faz todo sentido o papel da mídia neoliberal como autoridade de checagem de fake news. Imagine que você tenha vários exércitos de mentirosos e entre eles existam alguns que falam coisas tão absurdas que poderiam resultar em o tiro sair pela culatra.

Felipe – Mas se eu tenho vários exércitos de mentirosos, eu posso simplesmente tirar de circulação os exagerados, as frutas podres que possam estragar o molho.

Gabriel – Não pode. Porque essas frutas podres cumprem uma função e são importantes para alimentar a população que acredita que a terra é plana.

Marques – Eles são frutas podres para a população que é influenciada por mentirosos que não se encontram tão profundamente abaixo do nível do mar: os próprios checadores neoliberais.

Gabriel – Esses checadores são peneiras que não deixam passar uma massa tão grossa que não possa ser engolida pelos seus alimentados.

Marques – Mas desse peneirar, eles tiram proveito, dão um jeito de não deixar de ser o que eles são: manipuladores.

Arantes – Eles atuam como checadores para se venderem como dignos de credibilidade. Essa atuação não tem nada a ver com combate a fake news.

Marques – Se eles forem peneiras, a malha dessa peneira aumenta e diminui conforme os interesses deles.

Arantes – Não é só para os Yanomamis que é dureza viver nesse mundo neoliberal onde só aumenta a diferença entre o apresentado e o real.

Marques – Hoje os principais exércitos das autoridades autoritárias são formados por comunicadores, robôs e outras inteligências artificiais.

Arantes – Já disseram que a invenção de Gutenberg iria elevar os espíritos, depois disseram que a televisão faria isso, depois a internet, depois... Seja lá o que for, se vier sem a companhia do "Senhor Por Que"... não virá para nos iluminar.

Felipe – Eu sei que o mundo nunca esteve nem está nas mãos de moços bondosos, mas dizer que essas pessoas se valem da mídia e das novas tecnologias para agirem de forma autoritária é algo que para mim não faz sentido.

Marques – Você acha que os poderosos respeitam a democracia, querem dialogar com a sociedade, propor alguma coisa, pôr sobre a mesa algo para ser debatido? Não é assim que a banda toca. Eles usam seu instrumento, sua varinha de condão (a mídia) para fazer o vento soprar na direção que eles quiserem, para que as birutas ou as bolsas de valores sinalizem qual é a direção que todos devem seguir.

Arantes – As regras que realmente mudam a cotação do dólar não são discutidas, são ditadas.

Gabriel – "Platão (eu o cito muito hoje) dizia que somos marionetes da divindade" (BOURDIEU, 1997, p. 54).

ESCRITO POR Magno Ferreira 2 K leituras
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