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AS AVENTURAS DE MAIORAL

Aos 17 anos Maioral já era sobejamente conhecido pela rapidez de raciocínio, imaginação fértil, habilidade motora extraordinária, tirocínio comercial de alta resolução o que o levou já aos 15 anos a amealhar pequena fortuna. Quanto à personalidade, diríamos, era um controvertido, capaz de atitudes tão discrepantes que se tornava quase impossível distinguir-lhe a real natureza. Com certeza não era um psicopata, um neurótico, um paranóico, ou coisas do gênero.

Cruzamento – carnal e nominal – de Maílson e Oralina Vigamestra, descendentes de imigrantes ucranianos, nasceu Maioral na maior das penúrias, no verão de 1890, quando o casal Vigamastra fugia do cerco dos lombardos na província do Riogrande. Jamais freqüentou uma escola e aprendeu a ler e escrever e dominar vários idiomas (exceto o francês) com sua mãe d. Oralina, que, antes de casar-se, teve uma educação primorosa sob os auspícios do seu então amásio conde D'Eu.

Os genitores de Maioral faleceram heroicamente combatendo os prussianos que tentavam invadir o Brasil pelo litoral catarinense, abastecidos pelo ouro de Moscou. Nada irritava tanto o nosso herói quanto as lembranças daquela época. A miséria, a fome, o frio, as incontáveis fugas, as decepções com os títulos protestados e devoluções de cheques sem fundos emitidos por Maílson. Procurava apagar da mente tais episódios saboreando ovos gratinados de camaleão com salada de aspargos, no Maximy's, restaurante de alto luxo na Rue Chemisier, 18, sofisticado endereço de Paris, freqüentado pela elite francesa renascentista. Ali, entre goles de champanhe D.Perignon, gostava de rememorar o que considerava os "bons momentos da sua vida", como a feia briga que teve em Amrítsar, capital do Punjab, na Índia, com Mohandas Karamchand Gandi (o "Mahatma") e Jawaharlal Nehru, quando os dois discutiam pacificamente sobre uma sociedade não industrial, fundamentada em democracias rurais; entrou na discussão, desagradou os dois, iniciou-se o bafafá que terminou com seis costelas fraturadas e inúmeros hematomas, saindo Maioral ileso. Ou quando tentava catar um suposto piolho na careca de David Ben Gurion, em Sede Boker, Israel; David não gostou, xingou Maioral de safado (em inglês) e quase teve o crânio bipartido. Ou ainda, quando estava a fazer compras na feira noturna ao lado da Igreja de San Michele, em Lucca, na Toscana – Itália; havia dois dias antes adquirido um automóvel Fiat, um dos primeiros fabricados pela "Fabbrica Italiana Automobili Torino"; deparou-se com Giovanni Agnelli e foi logo reclamando da pouca potência do veículo; antes de terminar a reclamação ouviu um "ah! Cornuto", foi o bastante para atracar-se com o vetusto senhor e quebrar-lhe o nariz em exatos quatro pedaços. Ainda na Itália, em Roma, provocou o maior corre-corre logo após apor sua assinatura como testemunha do Tratado de Latrão; tanto o Papa quanto o "Duce" Benito Mussolini, signatários do documento, zombaram de sua canhestra assinatura o que lhes custou as orelhas parcialmente decepadas a golpes de caninos e incisivos, afora braços, pernas e quadris arrebentados de bispos, cardeais e oficiais do ditador italiano. Também do fuzuê que provocou em Madri quando D.Carlos, da linhagem Bourbon, -irmão do Rei Fernando VII- fuxiqueiro profissional e aspirante ilegal ao trono, andou comentando que o príncipe Afonso XII teria sido uma "escapadela" da Rainha Isabel com Maioral e, portanto filho ilegítimo do casal real; Isabel, esposa de Fernando VII Rei de Espanha, era, e todo mundo sabia, uma ninfomaníaca de carteirinha, mas o maldoso comentário não procedia e por isso D.Carlos tornou-se anorquídico com a força de um certeiro ponta-pé desferido por Maioral. Antes de acabar a sofisticada refeição, ainda teve tempo para relembrar suas estripulias em Tsitsihar, na província de Heilungkians – China; estava numa mesa a bebericar chá de gengibre, acompanhado de Mao Tse Tung, Liu Shaogi, Deng Xiaoping e Chu Enlai; a amena conversa evoluiu para discussão furiosa; Mao, acusava seus companheiros da "moderados" demais e ouviu em represália, xingamentos publicáveis a impublicáveis e logo começou a briga feia; Maioral nada tinha com o "peixe", mas, vendo a desvantagem de Mão, entrou em sua defesa; o resultado foi múltiplas fraturas nos ossos dos quatro eméritos chineses e escoriações generalizadas na turma do "deixa-disso". Ah! Doces recordações!

Antes é preciso esclarecer que nosso herói aprendeu a falar francês freqüentando as inúmeras boates mal-afamadas de Caiena, capital da Guiana Francesa para onde sempre viajava a fim de fechar negócios escusos dos mais diversos, mas, predominantemente, o contrabando de bauxita e açúcar mascavo para as Índias Orientais. Numa dessas viagens, conheceu acidentalmente, a bordo do vapor Almirante Barroso, aquela que viria a introduzi-lo no grand monde parisiense, uma jovem cientista de olhos azuis e amendoados, conhecida por Madame Curie. Estava Maioral dirigindo-se ao restaurante do navio, completamente distraído, quando foi abalroado por um garçom que o lançou a uma mesa de quatro comensais. Com o pequeno burburinho formado e a chuva de desculpas, foi gentilmente convidado a participar do almoço e ficou conhecendo, além de Madame Curie – sua futura amada –, os amigos Simon Bolívar, um barbudo que fazia questão de ser chamado de Che Guevara, Sigmund Freud e Pedro Almodóvar. Madame Curie viajava com o objetivo de pesquisar um novo vírus que aparecera na Guiana Francesa e que catalogou nos anais médicos-científicos como HIV.

No desembarque em Caiena, já de mãos dadas à formosa jovem, dirigiram-se para a primeira birosca que encontraram onde se encheram de repetidos goles da deliciosa "Havana", cachaça fabricada em Salinas, Minas Gerais. Já bastante tontos, saíram direto para o hidroporto de Caiena, embarcaram ao primeiro hidroavião com rumo a Paris. Chegaram à capital francesa ainda zonzos e foram sarar a carraspana numa suíte presidencial do Hilton Hotel, na Place Vendame. O sol brilhava no meio-dia a pino quando o casal acordou e após as lavagens de praxe seguiram rumo ao Maximy's, num tílburi, prontamente providenciado pela portaria do hotel, cujo condutor não pareceu estranho aos aguçados olhos de Maioral; já tinha visto antes aquele imenso e espesso bigode e lembrou-se onde: no botequim "Vostok", situado numa ruela esburacada de Belgrado. Não teve mais dúvida, era mesmo Leon Trotsky, que naquela ocasião ingeria copos cheios de gim, completamente bêbado e amparado pelos também bêbados Thomaz Edson (que aos gritos proclamava ter inventado um substituto para o candeeiro) e Erwin Von Rommel (que, choramingando, se lamentava de um malsucedido atentado à bomba). Concluídas as lembranças, vislumbrou o bigodudo lançando olhares lânguidos para Madame Curie e não pestanejou, num átimo grudou o buço do condutor pelos dedos, deu-lhe um peteleco que o fez esparramar-se no olho da rua onde permaneceu desfalecido. Andando, chegaram ao luxuoso restaurante onde foram recebidos pelo maitre que cheio de mesuras e salamaleques encaminhou-os para uma mesa vazia. Pediram o almoço: postas de tainha ao molho escocês, arroz de Braga e feijão preto com jabá, com acompanhamento de vinho Chateau Lacombe. A esfuziante beleza da sua acompanhante, porém, não dava trégua aos flertradores de plantão. Ao primeiro gole de vinho aproximou-se da mesa um velho quase careca, todo lambuzado de tinta, dirigindo galanteios a Madame Curie que o recebeu friamente, dizendo-lhe: "Pablo, nosso romance já terminou, não vês?" "Vou devolver-lhe o Guernica que você me ofertou, amanhã mesmo!" "Ninguém devolve um quadro de Pablo Picasso, impunemente, sua cientistazinha de araque!" Respondeu o quase careca. Foi o bastante. Maioral investiu contra o velho e aplicou-lhe um safanão na ponta do queixo pondo-o a nocaute. Em defesa do ancião quase careca, apareceram Miguel de Cervantes Saavedra com um volume encadernado de "Dom Quixote de La Mancha" a tiracolo, Frei Henrique de Coimbra brandindo um imenso crucifixo de pau-brasil, Cassius Clay (que ainda não era Mohammed Ali) e o navegante Gulliver. O pau quebrou! Maioral mostrou a elite parisiense que não passou dois anos aprendendo boxe com Nelson Ned, à toa. Todos foram à lona, inclusive seis garçons que tentavam apaziguar o arranca-rabo.

Na portaria do Hilton, oito dias após o distúrbio no Maximy's, recebia Maioral a intimação do chefe de polícia da Paris, o arguto Javert. Apresentou-se, no dia seguinte, à autoridade policial, juntamente com Madame Curie e juntos ouviram a sentença adredemente prolatada. Seis milhões de francos, apesar de ser uma pequena fortuna, impingidos a título de multa, não era problema para as sólidas finanças de Maioral. A pena capital imposta, apesar da faculdade de escolha pelo condenado (forca, fogueira ou guilhotina) deixou Maioral arrasado. As lágrimas que jorravam em catadupas dos olhos azuis da amada não o consolavam. Um raio de esperança, porém, fez brilhar as faces do condenado quando Javert, impassível, leu o último parágrafo da sentença: "Escolhida a forca, o condenado será executado na torre de Londres para onde será enviado imediatamente; se optar pela guilhotina, será executado amanhã mesmo, logo após a decapitação de Maria Antonieta; se, porém a fogueira for sua preferência, terá de aguardar sessenta e sete dias até a chegada, em visita a Paris, do inquisidor Thomás de Torquemada, especialista em churrasco humano." Fogueira! Fogueira! Bradou Maioral. Sessenta e sete dias era tempo mais que suficiente para arquitetar um plano de fuga. A Bastilha não o seguraria por nem um mês.

A fuga foi relativamente fácil e contou com a inestimável ajuda de dois companheiros de cela: Joaquim José da Silva Xavier e Nelson Mandela. Jamais haveria de esquecer aqueles companheiros!

Quando os gendarmes procuraram o condenado na cela para o cumprimento da pena ouviram apenas as risadas sarcásticas dos seus abnegados ex-colegas.

Maioral antes de escapulir de Paris havia transferido todas as suas reservas para a filial do Credit Lionais, no Cariri, via internet. No exato momento das sarcásticas risadas, estava Maioral sentado em um banquinho, fazendo cafuné em sua amada e ouvindo enlevado, o embate em décimas e sextilhas entre Zé Limeira e o Patativa do Assaré. Um imenso luar banhava de prata as violas dos cantadores e a brisa nordestina fazia tremular o cachecol verde-musgo de Madame Curie. Os freqüentadores do "Bar da Nega" na pequena Cariri, sertão do Ceará, olhavam embevecidos...!

Maceió, abril de 2000.
J. Wilton

ESCRITO POR J. Wilton 4 textos
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