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VISÃO OCULTA

A his(es)tória do pato Patrício

Era verão. Sol a pino quando eclodiu, sob tíbias bicadas, o último ovo da ninhada. A pata Patusca ficou a olhar languidamente para seu último rebento. A espera já atormentava e o resultado não foi confortador. O pato Patrício era um simulacro da espécie: feio, desengonçado exibia um andar trôpego que mais parecia um aleijado, apesar de ser fisicamente perfeito. A mãe, resignada, passou imediatamente a cumprir suas obrigações maternais abrigando sob as asas os doze descendentes.

Na primeira excursão ao caudaloso Grijó – potamônimo esdrúxulo e que ninguém sabia a origem – a pata Patusca teve a primeira de uma série de decepções: o pato Patrício recusou-se terminantemente a entrar n'água, amuou-se a beira, do Grijó e lá ficou. Vergonha! Exclamava a pata Patusca, vergonha! Exclamavam em uníssono os 11 irmãos. Até o sétimo mês de vida só vexames e mais vexames à família. A partir daí, porém, o pato Patrício sofreu radical mudança, na postura e no comportamento. Passou a exercer uma inusitada liderança, não só entre os irmãos, os da espécie, mas em toda a família taxionômica. Sua voz tonitruante era ouvida e obedecida. Ninguém ousava desafiá-la, salvo – e uma única vez – o pato Palmério. Foi numa acirradíssima disputa de futebol entre o Gansópolis Esporte Clube e o Patopolense de Futebol e Regatas que dependia apenas de um empate para sagrar-se campeão invicto do X Campeonato Regional dos Anatídeos Civilizados. A peleja transcorria sob o comando do apito severo e imparcial do pato Patrício. Zero a zero, placar que não traduzia a qualidade do espetáculo, com 8 bolas na trave, 4 para cada lado, afora as memoráveis defesas praticadas pelos goleiros. Último minuto, quando num lance duvidoso pato Patrício apita e aponta a marca do pênalti na área do Patopolense. O pato Palmério, fulo e iracundo, investe de dedo em riste em direção ao árbitro. Suspense! Todo estádio emudece. A fama de truculento e assassino potencial do pato Palmério extravasava fronteiras. O pato Patrício esperou impassível e quando o pato Palmério chegou à distância compatível, aplicou-lhe um paralisante raio criogênico oriundo do seu olhar sereno e firme. Foi o suficiente para desmontar a valentia do pato Palmério, que, cabisbaixo, transido, aceitou a decisão arbitral, O ibope do pato Patrício, que já andava pelas alturas, alcançou o pináculo da glória.

Ninguém suspeitava, entretanto, que o pato Patrício padecia de trauma insuperável: uma infeliz e verdadeira grijofobia. O horror ao caudaloso Grijó remontava ao nascimento. As sessões secretas (o temor da publicidade era maior que a própria fobia) com o célebre psicanalista Patofroide, cada vez mais demoradas, não vinham surtindo o menor efeito. Faremos sessões de regressão mental, descobriremos a origem em possíveis antepassados e, conhecendo-se a causa, haveremos de anular o efeito, disse-lhe o venerando esculápio. Disse e fez. Tudo em vão O pato Patrício continuava a carregar sobre as asas, o insuportável peso do hórrido fadário.

Difícil mesmo era ocultar tal fato. A sua condição biológica impunha-lhe negaças incríveis. Fazia coisas mirabolantes, inventava desculpas as mais diversas a fim de esconder o vergonhoso defeito. Logo ele, um líder, referência obrigatória na comunidade, da mais refinada arte ao mais popular esporte. Reserva moral e intelectual!

Mas, a chamada Divina Providência, dizem, nunca falha. Ao ensejo do centenário da cidade, programaram-se várias competições esportivas e entre elas, obviamente, a mais importante, o torneio de natação. Natação! A simples menção do vocábulo deixava o pato Patrício petrificado. Torneios de natação eram comuns em qualquer data comemorativa e ele sempre conseguia esquivar-se. Ora funcionando como juiz das contendas, ora alegando inadiáveis compromissos em plagas distantes, ora exibindo uma perna engessada por imaginária fratura ou luxação. O torneio de natação do centenário, porém, era por demais importante e a presença indispensável do pato Patrício seria reclamada veementemente por toda comunidade. Ele sabia muito bem disso. E suava, tremia externa e internamente. A honra da cidade estaria em jogo. Pensava em adoecer artificialmente; quebrar naturalmente uma asa ou uma perna; até em suicidar-se pensou. Não! Não farei nada disso, repetia em intermináveis solilóquios, partirei para o holocausto, gritou a plenos pulmões. E partiu. Dia da competição. As arquibancadas montadas à margem direita do Grijó foram insuficientes para tantos torcedores. Trinta e seis era o número de competidores, divididos em turnos de seis. Sagrava-se supremo campeão aquele que alcançasse o menor tempo de prova nadando de uma à outra margem. O pato Patrício, por sorteio, figurava no último pelotão de disputa. Era o terceiro entre os seis, da direita para a esquerda. Terminava o penúltimo turno e o pato Polista, representante de vizinha cidade havia alcançado o melhor tempo, marca praticamente imbatível. Era chegada a hora. Juízes a postos cronômetros zerados. O pato Patrício fez uma silenciosa e compungida oração. Sabia que a morte por afogamento era terrível e dolorosa, havia lido em compêndios na biblioteca da Capital. Aguçou os ouvidos e ao estampido detonado da arma do juiz, autorizando o início da prova, lançou-se às águas e à morte! O choque foi medonho! O pato Patrício fechou os olhos e imaginou-se tragado pelas profundezas do Grijó. Estranhamente viu-se sobre a superfície e mais estranhamente ainda, viu-se nadando e nadando rápido, lépido. Arriscou entortar um pouco o pescoço e viu-se à frente, bem à frente dos demais competidores. Num átimo chegou à margem aposta. A ovação foi ensurdecedora. O pato Patrício era o supremo campeão! Acabou-se o trauma. Patrício era mesmo um pato!

Maceió – fevereiro de 1999 – J. Wilton

ESCRITO POR J. Wilton 4 textos
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