A Cor do Adeus: Quando a Vida Imita a Arte na Chuva Púrpura
Existem dias em que a realidade parece escrita por uma força maior. Para quem trabalha com as palavras, as datas não são apenas números frios em uma folha de calendário; elas guardam conexões misteriosas que a gente custa a acreditar. Como escritora, passei grande parte da minha jornada ligada aos acordes e aos significados de Purple Rain, do cantor Prince. Minha própria estrada na literatura, com os livros A Pequena Purple Rain e O Rosto Por Trás Daquela Nota, nasceu da forma como essa música me toca e me atravessa. Mas foi preciso que o meu mundo parasse de verdade, no início de agosto de 2026, para que eu pudesse compreender o tamanho real dessa ligação.
No dia 2 de agosto, meu pai faleceu. O silêncio que se instalou com a partida dele foi o som mais pesado que já senti na vida. No dia seguinte, aconteceu o enterro. Por uma escolha totalmente minha, uma decisão amadurecida no meu íntimo, decidi não ir ao velório e nem ao sepultamento. Preferi viver a minha despedida longe dos rituais tradicionais e dos olhares alheios. Fiquei no meu canto, recolhendo o que fomos e guardando o amor no único lugar onde ele não se perde: dentro da minha própria memória.
Foi justamente nesse recolhimento, enquanto o mundo lá fora seguia o seu curso, que descobri uma coincidência de arrepiar o corpo inteiro. O dia do adeus final do meu pai, 3 de agosto, carrega uma marca histórica para a música mundial. Foi exatamente nesse mesmo dia e mês, no ano de 1983, que Prince subiu ao palco do clube First Avenue, em Minneapolis, e cantou Purple Rain ao vivo pela primeiríssima vez.
O mesmo dia. O mesmo mês. A exata data que deu origem à canção que guia a minha vida e a minha escrita virou o marco da partida do meu pai. É impossível não sentir um calafrio com essa rima do destino. Mesmo sem estar presente fisicamente no cemitério, o impacto dessa revelação foi gigante dentro de mim. Aquela nota longa, chorosa e cortante da guitarra, gravada ao vivo naquele agosto de 1983, ecoou no meu peito em agosto de 2026 como um abraço vindo do universo.
Senti, no mais fundo da minha alma, que as grandes despedidas não precisam de presença física ou de formalidades. Meu pai não precisava do meu olhar na beira do túmulo para ser homenageado. A partida dele já estava amarrada, por um fio invisível, à trilha sonora que diz exatamente quem eu sou. No meu luto particular, sem palcos ou testemunhas, o dia 3 de agosto fechou um ciclo perfeito. Ele deixou este mundo na mesma data em que o mundo conheceu a melodia que move a minha história. E, nessa harmonia triste, bela e exata do tempo, a chuva púrpura finalmente encontrou o seu lugar.
In memoriam de Lotário Emílio Kelm (03/04/1941 – 02/08/2026).
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