UM GIGANTE INVISÍVEL
Percebi que, às vezes, estamos diante de um problema que se agiganta de tal maneira que, por mais que procuremos soluções, elas parecem insuficientes. Algumas produzem resultados momentâneos; outras apenas adiam aquilo que, inevitavelmente, teremos de enfrentar novamente. E assim seguimos, tentando compreender o que os olhos não conseguem enxergar e o coração, sozinho, não consegue explicar.
Falo do estado mental de alguém que amamos tanto que, se necessário fosse, daríamos a própria vida para vê-lo saudável e feliz.
Falo de um filho.
E talvez somente um pai e uma mãe que atravessem uma experiência semelhante consigam compreender a dimensão dessas palavras.
Muitas vezes, busco dentro de mim as razões para tudo isso. Procuro erros que possa ter cometido, momentos em que poderia ter estado mais presente, atitudes que poderia ter tomado e não tomei. Pergunto-me se algo, sorrateira e invisivelmente, foi se apoderando daquele ser que tanto amo enquanto eu, sem perceber, seguia ocupado com as responsabilidades da vida.
Imagine olhar para seu filho - orgulho de todo pai - e, em determinados momentos, vê-lo e ouvi-lo pronunciar palavras desconexas, pensamentos que parecem não encontrar correspondência com a realidade.
Enquanto ele fala, você, como pai, procura desesperadamente uma explicação.
Observa cada palavra.
Cada gesto.
Cada silêncio.
Busca uma razão que possa explicar aquilo que está acontecendo. Tenta encontrar uma solução, um caminho, qualquer coisa que possa devolver a tranquilidade ao seu coração e, principalmente, ao coração de seu filho.
Mas chega um momento em que percebemos que nem todas as respostas estão ao nosso alcance.
E é justamente nesse momento que precisamos continuar.
Continuar firmes.
Continuar fortes.
Continuar acreditando.
Continuar tendo fé e esperança em dias melhores.
Como todo pai, quero o melhor para meu filho. Todo pai sonha em ver seu filho no pódio da vida. Quer vê-lo crescer, vencer, construir seus próprios caminhos, realizar seus sonhos e encontrar seu lugar no mundo.
E, diante daquilo que não consigo resolver sozinho, minha oração mudou.
Passei a pedir a Deus também por mim.
Peço que Ele me conceda saúde e longevidade para permanecer ao lado de meu filho durante sua caminhada. Que me permita viver o suficiente para ajudá-lo, protegê-lo, orientá-lo e ampará-lo sempre que precisar de mim.
Hoje ele tem 17 anos.
Cresceu no tamanho, na estatura, na aparência de um jovem, mas conserva, em muitos momentos, a inocência de uma criança, como se, em algum ponto de sua existência, o tempo tivesse diminuído o passo e esperado por ele.
Sua mãe, minha esposa, também trava diariamente essa batalha de amor.
Tem participado de orações, feito pedidos, buscado caminhos, respostas e alternativas para melhorar a realidade vivida por nosso filho amado.
Porque ele é exatamente isso:
nosso filho amado.
Um menino que foi e continua sendo um dos maiores presentes que Deus concedeu à nossa família.
Amoroso, carinhoso, afetuoso.
Cresceu fisicamente e tornou-se um rapaz. Em seus momentos de plena lucidez, conversa, sorri, demonstra carinho e se relaciona perfeitamente com aquilo que está ao seu redor. Entretanto, em outros momentos, parece se distanciar da realidade, especialmente quando é frustrado ou confrontado com situações que não consegue compreender ou aceitar.
E nós permanecemos ali.
Pai e mãe.
Tentando compreender.
Tentando acolher.
Tentando ajudar.
Tentando amar ainda mais.
Há dias em que conseguimos ser fortes.
Em outros, confessamos silenciosamente nossa fragilidade.
E é justamente nesses momentos que temos suplicado a Deus - ao Deus vivo, ao Deus que tudo pode - porque continuamos acreditando que, para Ele, o impossível não existe.
O Deus de Abraão.
O Deus de Moisés.
O Deus de Elias.
O Deus que atravessou gerações sendo esperança daqueles que já não encontravam respostas apenas na razão humana.
É nesse Deus que deposito minhas lágrimas, meus medos, minhas dúvidas e, principalmente, minha esperança.
Também reconheço meus próprios erros.
Durante muito tempo priorizei o trabalho, as viagens, os compromissos e tantas outras responsabilidades que julgava indispensáveis. Hoje me pergunto se dei ao meu filho toda a atenção que deveria ter dado.
Talvez tenha dado amor.
Mas, olhando para trás, sinto que poderia ter dado mais tempo.
E existe uma diferença enorme entre amar alguém e estar verdadeiramente presente na vida de alguém.
Não posso voltar no tempo.
Nenhum de nós pode.
Mas posso decidir o que fazer com o tempo que Deus ainda me conceder.
Desde aquele fatídico período de outubro de 2024, quando estive internado na UTI da Santa Casa de Misericórdia, alguma coisa mudou profundamente dentro de mim.
Quando nos aproximamos da fragilidade da própria existência, passamos a compreender que muitas das coisas pelas quais lutamos durante toda a vida são infinitamente menores do que imaginávamos.
A vida muda de tamanho.
As prioridades mudam de lugar.
E aquilo que parecia urgente deixa de ser tão importante.
Desde então, tenho procurado permanecer vivo também através da escrita.
Escrever tornou-se uma maneira de conversar comigo mesmo, com Deus e, talvez, com pessoas que jamais conhecerei.
Procuro transformar em palavras aquilo que muitas vezes meu coração não consegue dizer em voz alta.
Não escrevo para ser melhor do que ninguém.
Não escrevo para me destacar.
Não escrevo por curtidas, aplausos ou qualquer outra forma de reconhecimento humano.
Escrevo porque descobri que uma experiência vivida, quando compartilhada com sinceridade, pode servir de horizonte para alguém que esteja atravessando uma noite semelhante.
Talvez outro pai esteja vivendo aquilo que vivo.
Talvez outra mãe chore escondida para que o filho não perceba sua dor.
Talvez exista uma família perguntando a Deus, neste exato momento:
"Por quê?"
E talvez minhas palavras não tenham a resposta.
Na verdade, provavelmente não terão.
Mas poderão dizer:
"Vocês não estão caminhando sozinhos."
A vida não nos entrega o mesmo caminho.
Cada pessoa carrega seus próprios instrumentos, suas dores, suas alegrias, suas perdas, suas conquistas e seus mistérios. E todos nós caminhamos neste imenso cenário chamado vida, tentando compreender o papel que nos foi confiado.
Hoje compreendo que existem batalhas que não fazem barulho.
Existem dores que ninguém vê.
Existem pais que sorriem durante o dia e choram silenciosamente durante a noite.
Existem mães que transformam lágrimas em orações.
Existem filhos travando batalhas dentro de si que talvez nem eles próprios consigam explicar.
São gigantes invisíveis.
E talvez eu tenha passado muito tempo olhando apenas para o gigante que estava diante de mim, sem perceber que Deus também havia colocado dentro de nós outras forças igualmente invisíveis.
O amor.
A fé.
A esperança.
O gigante pode ser enorme.
Pode assustar.
Pode nos fazer sentir pequenos e impotentes.
Mas enquanto eu tiver vida, meu filho jamais enfrentará esse gigante sozinho.
Estarei ao seu lado.
Sua mãe estará ao seu lado.
Nossa família estará ao seu lado.
E, acima de todos nós, estará Deus.
Por isso, hoje já não peço a Deus apenas que retire as pedras do caminho de meu filho.
Peço também que fortaleça seus pés para atravessá-las.
Não peço apenas que acalme as tempestades.
Peço que nos ensine a permanecer de pé quando os ventos soprarem.
E não peço apenas para compreender todos os mistérios da vida, porque aprendi que algumas respostas talvez não nos sejam dadas agora.
Peço apenas força para continuar.
Porque descobri que, diante de um gigante invisível, existe algo ainda maior que também não podemos tocar com as mãos:
o amor de um pai e de uma mãe por um filho.
E enquanto esse amor existir, haverá luta.
Enquanto houver luta, haverá esperança.
Enquanto houver esperança, haverá fé.
E enquanto houver fé, nenhum diagnóstico, nenhuma dificuldade, nenhuma noite e nenhum gigante - visível ou invisível - terá o direito de escrever sozinho o último capítulo da nossa história.
Esse capítulo pertence a Deus.
E nós continuaremos caminhando.
Juntos.
Até onde Deus permitir.
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