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FUI ANTES DE NÃO SER

E se a morte não fosse o fim, mas apenas o retorno a um lugar onde já estivemos antes de nascer? Uma reflexão sobre existir, amar e deixar de ser.

Antes de nascer, eu não era. Não existia um vazio à minha espera, nem escuridão, nem silêncio, porque vazio, escuridão e silêncio já são formas de presença, e eu não tinha nem isso. Não havia um "eu" que pudesse notar a própria ausência. O mundo girava, as coisas aconteciam, e em lugar nenhum daquilo havia espaço reservado para mim. Eu simplesmente não estava em lugar algum, nem mesmo como espera.

Então, em algum momento que não me pertence recordar, isso mudou. Não sei dizer exatamente quando comecei a ser: se no primeiro sopro, no primeiro susto de luz, ou antes disso, em algum lugar escuro e quente onde ainda não havia palavras. Mas em algum ponto o não ser cedeu lugar ao ser, e nele, sem que eu escolhesse, começou tudo: os olhos, o nome, a fome, o susto, e devagar, muito devagar, a sensação estranha de que havia um "eu" ali dentro, olhando para fora.

Aos 33 anos, é curioso pensar: mal aprendi a dizer "eu sou", e já carrego dentro de mim a certeza de que um dia deixarei de ser. Ninguém precisou me ensinar isso com palavras difíceis, pois a vida vai mostrando, nas coisas que envelhecem, nos que se vão, no meu próprio corpo que muda. Existir, percebo, não é um estado permanente que me foi dado, mas um intervalo. Um dia fui convocado do nada; um dia serei dispensado de volta a ele.

E aqui mora o que mais me intriga: já estiveno nada antes, embora não guarde dele nenhuma lembrança, nenhuma marca, nenhuma cicatriz. Fui, por assim dizer, ausente uma vez, e essa ausência não doeu, não pesou, não faltou nada, porque não havia quem sentisse falta. Agora é diferente. Agora tenho um nome para as coisas que amo, um rosto para cada pessoa que me importa, uma trilha de dias que me tornaram quem sou. Perder isso não é voltar ao mesmo lugar de onde vim; é atravessar, dessa vez, sabendo o que se perde.

E é exatamente isso o que chamo de medo: não o nada em si, que já conheci e que não me feriu, mas a ideia de que um dia essa consciência que agora vela sobre tudo (que lembra, que ama, que teme) vai se apagar levando consigo tudo o que ela mesma construiu. Não temo a escuridão de antes; temo o apagamento do que vim-a-ser depois. As mãos que conheci, as vozes que reconheço no escuro, os lugares que carrego como se fossem parte do meu corpo... é disso que a consciência tem medo de se despedir, porque só quem viveu sabe nomear o que está perdendo.

"Eu" não era, passei a ser, um dia deixarei de ser, e entre essas duas ausências, uma sem rosto e outra que terá o meu, lá no ser, coube tudo o que chamo de vida. Estranho pensar que a primeira vez que não existi, isso não me custou nada; e que a segunda, ainda por vir, já me custa o agora, só de saber que vai acontecer.Possivelmentea última imagem que reste de mim não seja uma fotografia ou um vídeo no Instagram, não seja um pensamento, nem uma palavra, mas apenas a sensação muda de ter estado aqui e de, um dia, simplesmente, deixar de estar.

ESCRITO POR Clemerson Silva 3 textos
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