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A CONSCIÊNCIA DA MORTE NOS TORNA HUMANOS

Não tenho medo de morrer; tenho medo de descobrir que não vivi. A morte não ensina nada sozinha, só tira. Somos nós que, sabendo do prazo, decidimos prestar atenção. Saber que vou morrer é a única razão pela qual sei que estou vivo.

Demorei para entender por que a morte me assustava tanto, e a resposta não era bonita: eu não tinha medo de morrer, tinha medo de descobrir que não tinha vivido. Levei anos evitando o assunto do jeito que se evita uma conta que chegou e a gente deixa embaixo de outros papéis. O gato que dorme aos meus pés não sabe que vai morrer. O pé demangaque vejo no quintal também não sabe. Só eu carrego a informação de que isso tudo tem prazo, e passo a maior parte dos dias fingindo que não carrego. Essa é a nossa esquisitice como espécie: fomos os únicos a receber a notícia e os únicos a inventar mil maneiras de não abrir o envelope.

Mas eu queria lhe fazer uma pergunta antes de continuar, e ela é meio grosseira, então me perdoe: o que exatamente você está esperando? Todo mundo tem uma lista de coisas que vai fazer depois: depois que acabar o ensino médio ou a faculdade, depois que as crianças crescerem, depois que estabilizar no trabalho, depois que o dinheiro sobrar, depois que passar essa fase... A gente fala "depois" com a naturalidade de quem tem estoque infinito de manhãs. Não tem. Eu vi pessoas com listas lindíssimas morrerem antes do primeiro item e vi outras adiarem um telefonema por orgulho até o telefone do outro lado parar de tocar para sempre. Quando me flagro adiando, tento perguntar: se isso importa tanto, por que não hoje? E, quando a resposta é constrangedora, geralmente é porque não importava tanto assim.

Não quero, porém, transformar a morte em professora simpática. Isso seria mentira e seria desrespeito com quem está enterrando alguém neste exato momento. A morte não ensina nada por conta própria; ela só tira, e tira sem negociar, e às vezes tira cedo demais e do jeito mais injusto possível. Já perdi gente cuja ausência não me tornou mais sábio, só mais oco. O que existe de aproveitável não vem dela, vem de nós: da decisão de olhar para o fato e não desviar. Portanto, a finitude é a moldura; quem faz o quadro somos nós, e há dias em que não faço quadro nenhum, fico só olhando a moldura vazia, e acho que isso também é humano.

O que a consciência da morte me devolveu, quando consegui suportá-la, foi um espanto quase infantil com o comum. Café passando pela minha irmã ou pelos meus de manhã, porque, aqui, só eles tomam. A voz da minha mãe reclamando de algo irrelevante ao telefone. Um domingo sem nada marcado. Essas coisas só têm peso porque são contáveis, porque um dia serão a última vez sem que ninguém avise que era a última. Então virou isso, no fim: a morte me obrigou a prestar atenção. Não vivo intensamente todos os dias, ninguém vive, isso é propaganda. Mas tento não desperdiçar tanto, tento dizer as coisas em voz alta enquanto há ouvido do outro lado, tento perdoar mais rápido porque o relógio de rancor é caro demais. Saber que vou morrer é a única razão pela qual sei que estou vivo. E, se a lucidez custa o medo, tudo bem, pago. Prefiro o medo à anestesia.

ESCRITO POR Clemerson Silva 4 textos
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