Entre a máquina e o tempo
Aos leitores,
Me consumi pela máquina. Ainda estou aprendendo. Levei uma coça logo quando a peguei. Peço mil perdões. Se houver erros ortográficos, com o tempo os consertarei. Por ora, talvez seja necessário conceder ao erro o direito de existir antes de submetê-lo à correção.
Foi preciso fazer um retiro em mim mesmo. Desejei uma máquina, mas, quando ela chegou, deparei-me com algo que o desejo, enquanto ausência, não poderia me ensinar: a presença de seu objeto não encerra a falta. Apenas a desloca. Eu queria a máquina; agora, diante dela, descubro que também preciso aprender a habitá-la.
Há algo de curioso nesse encontro entre um homem dos anos 90 e uma máquina que atravessou o tempo desde outra década. Talvez eu tenha desejado, sem saber, não somente um instrumento de escrita, mas uma ruptura com a urgência do presente. Em 2026, tudo parece exigir que o sujeito responda imediatamente, produza sem demora, diga antes mesmo de descobrir o que deseja dizer. A máquina, entretanto, impõe outra temporalidade. Entre o pensamento e a palavra, há uma tecla; entre uma letra e outra, o intervalo; entre aquilo que desejo escrever e aquilo que efetivamente consigo inscrever no papel, existe a distância inevitável entre o sujeito e sua própria linguagem.
Eis a minha primeira lição: nem mesmo a máquina obedece inteiramente àquele que a deseja. Suas teclas resistem, meus dedos se confundem, as letras escapam à ordem que imaginei estabelecer. Levo uma coça, como quem se confronta com a própria insuficiência. Mas talvez aprender seja precisamente isso: reconhecer que não somos senhores absolutos dos instrumentos que utilizamos, tampouco das palavras que nos atravessam.
Quis sair de 2026. Não para negar o tempo em que vivo, mas para suspender, ainda que por alguns instantes, a tirania de sua velocidade. Quis flutuar até os anos 60, tocar uma época que não vivi e experimentar, por meio de um objeto antigo, a ficção íntima de pertencer a outro tempo. Afinal, não é também pela ficção que o sujeito inventa maneiras de suportar o real?
A máquina chegou, e com ela veio uma constatação que talvez estivesse escondida no próprio desejo: eu não precisava apenas de uma máquina de escrever. Precisava encontrar um intervalo entre o mundo e aquilo que o mundo exige de mim. Um lugar em que pudesse errar sem transformar o erro numa sentença, escrever sem a obrigação de responder e permanecer diante do indizível sem a pretensão de dominá-lo.
Ainda estou aprendendo. Talvez as letras saiam tortas, talvez a margem se perca, talvez o papel registre aquilo que minha intenção não soube organizar. Não importa tanto. A escrita nunca foi, para mim, a promessa de uma resposta definitiva. É antes o movimento de contornar aquilo que não se deixa dizer por inteiro.
Se comprei uma máquina para escrever, descobri, ao recebê-la, que também precisaria aprender a escutar o silêncio entre as teclas.
Por enquanto, deixem-me aqui. Entre o desejo e sua falta, entre o sujeito e a palavra, entre 2026 e uma década que só posso visitar pela imaginação.
Ainda não domino a máquina. Talvez seja cedo demais para dominá-la. Talvez escrever comece justamente quando renunciamos à fantasia de domínio.
O tempo continuará passando, indiferente às minhas tentativas de detê-lo. As máquinas envelhecerão, as palavras mudarão de suporte e outras tecnologias prometerão abreviar a distância entre o pensamento e sua inscrição. Mas alguma coisa permanecerá resistindo à pressa: esse sujeito que, diante de uma folha, ainda precisa descobrir o que tem a dizer.
Talvez eu tenha comprado uma máquina para voltar no tempo, mas tenha encontrado nela uma maneira de permanecer no presente sem me submeter inteiramente a ele. Não voltei aos anos 60. Apenas encontrei, entre o ruído das teclas e o silêncio do papel, um lugar onde o tempo parece respirar de outra maneira.
Com os erros de quem começa e a insistência de quem continua escrevendo, despeço-me por ora. Não porque tenha terminado de dizer, mas porque aprendi que até o silêncio precisa de espaço para existir.
A máquina permanece diante de mim. O tempo permanece lá fora. E eu continuo aqui, tentando transformar em palavra aquilo que nem o tempo, nem a máquina, nem eu mesmo conseguimos explicar por inteiro.
Talvez seja esse o destino de quem escreve: não vencer o tempo, mas deixar nele alguma coisa de si. Uma marca imperfeita, uma palavra incompleta, um vestígio de existência. Porque, quando minhas mãos já não alcançarem as teclas e esta máquina pertencer a outra história, talvez reste no papel alguma coisa que o tempo não consiga devolver ao silêncio.
Não sei se escrevo para permanecer ou para compreender o que em mim insiste em desaparecer. Sei apenas que, enquanto houver uma palavra por nascer, continuarei diante da máquina, aprendendo a escrever, aprendendo a errar, aprendendo a existir entre aquilo que desejo dizer e aquilo que jamais conseguirei dizer por inteiro.
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