A linguagem do não saber, mesmo que de alguma forma já se saiba
Se eu escrevesse tudo o que atravessa os meus devaneios, talvez a linguagem não suportasse. Há coisas que, quando ditas por inteiro, deixam de existir. Por isso escrevo pouco. Quase nada. Apenas o bastante para que o silêncio não morra antes de mim.
Hoje estou morto por dentro. Talvez por fora também. Não sei quando voltarei. Amanhã, quem sabe. Daqui a sete anos. Ou quando o vento encontrar em mim alguma fresta ainda capaz de respirar. Talvez eu renasça sem perceber. Talvez eu já tenha renascido e ainda não tenha conseguido me reconhecer.
Há uma alma que rasga o peito. Há um peito que resiste à alma. Entre os dois, alguém insiste em me chamar pelo nome que perdi.
Meu eu caminha ao lado do outro eu como dois estrangeiros dividindo a mesma pele. Um aprende a sobreviver. O outro coleciona ausências. E, entre ambos, passo a vida separando aquilo que nunca esteve realmente unido, procurando a localização de um desejo que muda de lugar sempre que imagino tê-lo encontrado.
O que escrevo não é poesia. Também não é crônica. A palavra ainda não inventou um nome para aquilo que me atravessa. São restos. Vestígios de uma linguagem que continua falando mesmo quando acredito ter me calado.
Digo que não sei o que escrevo. Talvez seja verdade. Talvez seja apenas a forma mais delicada que encontrei de esconder de mim aquilo que já estava escrito muito antes de eu aprender a dizer qualquer palavra.
No fim, viver talvez seja isso: passar uma existência inteira tentando descobrir o que sempre soubemos, enquanto fingimos que ainda estamos procurando.
Subtítulo: O desejo nunca se revela por inteiro. Apenas deixa rastros naquilo que a palavra não consegue esconder.
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