O Que Insiste em Falar no Escuro
As noites foram inventadas para o repouso, mas algumas insistem em abrir fendas por onde a linguagem escapa. Há algo em mim que, quando o corpo parece desistir de existir, começa finalmente a sentir. E sente demais. Não sei se é a alma, o corpo ou aquilo que resta entre ambos. Apenas sei que um vazio desperta e me convoca a falar uma língua que desconheço, a língua de um eu cindido, dividido contra si mesmo. Não é uma guerra; é um tribunal sem juiz. Quem vence? O que deseja ou o que se defende do próprio desejo? Talvez nenhum. Talvez ambos sejam apenas máscaras de uma falta mais antiga.
Então a escrita aparece. Não para curar, mas para adiar a queda. Escrevo porque há algo que insiste e não se deixa simbolizar por inteiro. A cabeça já habita o próximo ano, o próximo medo, a próxima perda. Sofro de antecipações; morro antes do acontecimento. A faca ainda não entrou, mas o corte já se anuncia na carne invisível.
Acendo um cigarro. A fumaça sobe como um significante sem destino, desenhando formas que desaparecem antes de serem compreendidas. O sono me chama. Adormeço. Dormir, para mim, nunca foi excesso; sempre foi uma insuficiência, uma tentativa fracassada de suspender aquilo que em mim permanece acordado.
E o que espero? Espero aquilo que não cabe na palavra. Aquilo que não escrevo, porque certas coisas só podem ser vividas na pele, no silêncio ou na ferida. Escrevo para me perder de mim, porque às vezes só se encontra alguma verdade depois de se extraviar. Dizem que de tanto dizer algo acontece. Talvez de tanto escrever eu tenha retornado ao lugar de onde nunca saí.
Procuro saber quem sou, mas encontro apenas rastros. Procuro a origem, mas encontro caminhos. Procuro uma resposta, e encontro a repetição.
Estou com sono. Vou dormir. Amanhã continuo, mais uma vez, de novo e de novo. O peito sangra, as pernas tremem, o corpo inteiro estremece diante de algo que não tem nome. Então me deito e espero. Não que passe, porque certas coisas não passam. Apenas mudam de lugar dentro de nós. E não há comprimido que produza o milagre de silenciar aquilo que insiste em falar no escuro.
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