Entre o Incêndio e a Cinza
Sou oito ou oitenta. Sou incêndio ou cinza. Sou permanência ou despedida. Não aguento viver no meio das coisas. Ou me fala logo, ou não me fale nunca. Ou me toca logo, ou não me toque nunca. Ou me ama logo, ou não me ame nunca. Ou fica, ou parte. Ou me atravessa por inteiro, ou me deixa em paz. Ou me traz a tua verdade inteira, ou me poupa dessas tuas metades. Ou vem sem medo, ou não desperte aquilo que depois não saberá acolher. Ou me escolhe, ou me esquece. Ou me encontra, ou me perde de uma vez. Porque o quase sempre foi uma forma lenta de ausência. Porque nunca aprendi a morar onde nada acontece. Porque sempre faço acontecer. Porque o silêncio, quando demora demais, acaba se tornando um grito dentro de mim. Porque as esperas me corroem mais do que as despedidas. Porque as dúvidas pesam mais do que as certezas dolorosas. Porque nunca soube existir pela metade. Porque tudo o que toca minha alma encontra abrigo ou encontra tempestade. Não conheço o morno. Não reconheço os caminhos onde nada pulsa. Carrego excessos, faltas, desejos e cicatrizes. Carrego os rastros de tudo aquilo que amei e também daquilo que não consegui esquecer. E talvez seja por isso. Ou porque tenha nascido para incendiar os silêncios que os outros chamam de paz. Ou porque dentro de mim exista um fogo que não aceita apagar. Ou porque algumas almas não vieram ao mundo para apenas existir. Vieram para sentir tudo até o último grau possível.
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