Os Pequenos Assombros do Amanhecer
Ainda não tenho como alcançar tudo aquilo que desejo, embora talvez o desejo sobreviva justamente porque algo sempre falta. Tenho pouco e, ao mesmo tempo, tenho muito. E às vezes esse pouco pesa mais do que uma fortuna inteira. Entre um cigarro aceso, um copo de Coca-Cola, um café já ausente sobre a mesa e certas marés que atravessam os dias, permaneço sem saber se são movimentos da vida ou movimentos de algo em mim que nunca encontra repouso. Talvez da minha linguagem. Talvez desse estranho que me habita e insiste em caminhar alguns passos à minha frente.
Antes de escrever, eu já não escreveria. Havia decidido o silêncio. Pensei que o mundo não me agradava o suficiente para merecer palavras. Mas o mundo continuou sendo mundo. Talvez fosse eu quem estivesse desalinhado da própria sombra. Há manhãs em que nos tornamos estrangeiros daquilo que somos e passamos a habitar nossos pensamentos como quem atravessa uma casa vazia sem recordar o que veio procurar.
É inevitável que algum desalento encontre abrigo quando os dias chegam carregados de ruídos. Mas existe algo que permanece. O tempo. Um tempo sóbrio. Limpo. Não sereno, porque a serenidade me parece uma invenção distante, mas limpo. Como uma janela aberta depois de uma noite longa. Como um quarto que voltou a respirar. E isso basta por enquanto.
Aquilo que ainda não possuo, aquilo que imagino precisar, aquilo que o dinheiro poderia aproximar ou afastar, pertence ao mesmo lugar das promessas que não dependem apenas da vontade. A matéria tem seus encantos, mas também seus enganos. Há coisas que brilham apenas porque estão longe. Há conquistas que, ao chegarem, perdem o nome que tinham quando eram sonho. Talvez por isso eu nunca tenha acreditado totalmente nas promessas da abundância. Algumas ausências permanecem intactas mesmo em bolsos cheios. Outras desaparecem diante de um gesto simples, de uma conversa breve ou de uma manhã que chega sem exigir nada em troca.
Eu escrevo desse lugar. Não para explicar. Não para concluir. Não para organizar o caos. Escrevo porque algumas palavras se parecem com fósforos acesos no escuro. Escrevo para recolher vestígios. Para acompanhar rastros. Para não perder completamente aquilo que desaparece quando tento nomeá-lo. Quem sabe eu esteja apenas alimentando alguma parte esquecida de mim. Quem sabe eu esteja apenas ouvindo ecos. Quem sabe eu esteja conversando com restos.
Olho para a esquerda e encontro mãos estendidas. Não sei se me chamam ou se apenas existem. À direita, uma janela fechada. O frio sobe dos pés aos ombros como uma lembrança antiga. A luz atravessa pequenas frestas. O ar entra e sai dos pulmões sem pedir licença. E, por um instante, tudo parece suficiente.
Agora quero repousar nesta manhã. Não para fugir de nada, mas para permanecer. Quero escutar o silêncio entre os ruídos. Quero habitar este amanhecer como quem encontra uma cadeira vazia à própria espera. O resto pertence às horas. E as horas sabem guardar segredos que a pressa jamais compreenderá.
Talvez escrever seja apenas isso. Sentar-se ao lado do mistério sem exigir respostas. Encontrar beleza onde ninguém procuraria. Perceber que algumas faltas iluminam mais do que certas presenças. E seguir adiante, carregando no bolso não as certezas, mas os pequenos assombros que ainda fazem a alma despertar.
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