Devaneios noturna
Talvez mais uma vigília entregue ao delírio da noite… embora eu me pergunte se existe mesmo um delírio que pertença apenas à escuridão, já que toda errância noturna encontra, mais cedo ou mais tarde, a luz do dia para se revelar. Alcancei algo pelo qual me senti atravessado pela gratidão, mas logo surgiu outra margem, outro horizonte, outra ausência a me convocar. E, de algum modo, alcancei também aquilo que não procurava. Amanhã, quem sabe, outras travessias me encontrem… outras faltas, outros encontros, outros desencontros. Nunca sei ao certo o que sei, muito menos o que escrevo. Há noites em que a escrita acontece à revelia de mim mesmo; mergulho num torpor quase adormecido, e são as mãos que seguem trabalhando enquanto a consciência se ausenta. Nem a mente parece acompanhar aquilo que se inscreve no papel.
Tenho caminhado rápido demais, desejado demais, pensado demais, perseguido excessos que me afastam do essencial. E, nessa corrida silenciosa, percebo que talvez seja preciso interromper o movimento para escutar outras passagens do ser, outras gramáticas do não saber. Há um conhecimento que só se revela quando deixamos de procurá-lo. Então, deixo acontecer… porque toda noite, por mais extensa que pareça, acaba cedendo lugar a um novo amanhecer.
A repetição possui seu mistério. É nela que o sujeito insiste, retorna, contorna aquilo que não consegue nomear. Mas que não se repita a mesma ferida. Chore, se for preciso, até que a alma se esvazie; contudo, que as lágrimas não sejam eternamente oferecidas à mesma ausência. A escrita, porém, desconhece esse destino. Não existe uma razão definitiva para escrever. Escreve-se porque algo insiste. Porque algo pede passagem. Porque uma parte da alma abandona o corpo por alguns instantes para que o corpo, enfim, possa repousar.
Acendo um cigarro. Bebo um gole d'água. Entre um gesto e outro, a existência me apresenta suas encruzilhadas. Escolher isto ou aquilo. Permanecer ou partir. Desejar ou renunciar. E então emerge a falta, esse vazio estrutural que habita toda escolha. Porque toda escolha produz uma perda, e toda perda deixa um resto. Mas não escolher também fere. Não escolher também exige um preço. Talvez viver seja apenas isso: reconhecer que tudo carrega sua dificuldade e, ainda assim, sustentar a própria decisão.
Por isso, entre tantos impossíveis, escolho o meu difícil… e sigo.
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