Onde a Ausência Aprendeu a Respirar
Queria escrever alguma coisa, mas o desânimo sempre chega antes da primeira palavra. Há dias em que tudo, para mim, é nada. Em outros, o nada pesa como se sustentasse o mundo inteiro.
Entre um verso e outro, alguma coisa ressoa. Não sei se é memória, ausência ou apenas a linguagem tentando sobreviver ao silêncio. Então escrevo sobre mim. Ou sobre aquilo que restou de mim. Porque talvez eu seja apenas vestígios espalhados entre frases que nunca terminaram de nascer.
É sexta-feira à noite. Rodopio lentamente sobre a cadeira. Acendo um cigarro enquanto a janta espera. A fumaça sobe sem hesitar. Eu permaneço. Há uma vertigem que não vem da nicotina, mas das palavras. Escrever é perder o equilíbrio diante daquilo que insiste em não ter nome.
Não sei o que sairá daqui. Nunca soube. A escrita sempre chega antes de mim, como se já conhecesse um caminho que desconheço. Limito-me a segui-la, mesmo quando ela me conduz aos lugares que passei a vida tentando esquecer.
Talvez alguém leia. Talvez ninguém. O texto não nasce para ser compreendido. Nasce porque alguma coisa em mim não suportaria permanecer em silêncio. Cada frase carrega um pedaço daquilo que atravessou a minha alma e deixou no coração uma cicatriz que aprendeu a respirar.
Oscilo entre a loucura e uma sanidade que já não habita a mesma casa. Às vezes ela retorna por poucos segundos, apenas para lembrar que o mundo continua do lado de fora. Depois parte outra vez, e eu permaneço aqui, escrevendo. Porque há noites em que existir é somente isso: observar a fumaça desaparecer no escuro enquanto a linguagem, pacientemente, termina de inventar aquele que a escreve.
Jorge Lannes Junior
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