Sou Calculista da Minha Própria Existência: Até o Vazio Exige Algum Cálculo
Sou calculista.
Odeio quando algum cálculo escapa da minha matemática. Talvez seja justamente porque sou péssimo em números que os resultados insistem em não fechar. Então sigo fazendo outros cálculos, escrevendo outras equações, tentando me matematizar no meio delas.
Escrevo pela manhã, ainda tomado pela sonolência. Acendo um cigarro e tomo um gole de café para despertar não a alma, mas o corpo inteiro. Assisto a desenhos animados, como quem procura em imagens coloridas alguma vontade de continuar o dia.
Não estou vivo nem morto. Estou vivendo.
Vivendo entre mim e eu, entre eu e mim.
Não gosto de habitar o território dos terceiros. Depender de terceiros me inquieta, embora ninguém atravesse a existência sem depender, em alguma medida, de algo ou de alguém.
Escrevo para não odiar tanto o mundo.
Mas talvez a raiva não seja do mundo. Talvez ela tenha o rosto das pessoas, ou daquele lugar em mim que deseja apenas que reconheçam o meu direito de possuir sustento, de ter o mínimo necessário para existir.
Ora, se entrei pela Previdência Social, então devem me pagar.
Às vezes, porém, a raiva nem é de quem trabalha lá. Eles não têm culpa dos desvios, dos roubos, das engrenagens enferrujadas que insistem em triturar a vida de quem espera.
Aliás, não é o mundo.
É a humanidade.
As pessoas têm o estranho hábito de culpar o mundo pelo que pertence aos próprios indivíduos. Assumir a própria responsabilidade é um exercício raro. Mais fácil é colocar o peso das culpas sobre as costas do mundo.
Coitado do mundo.
Carrega culpas que nunca lhe pertenceram.
Coitado do tempo também. Dizem para deixá-lo passar, como se as horas, sozinhas, produzissem algum milagre. Nada acontece sem travessia, sem gesto, sem movimento. E quando nada acontece, a culpa também recai sobre o tempo.
Ou então sobre outro ser humano.
Qualquer culpado serve, desde que não sejamos nós mesmos.
Escrevo para terminar de dilacerar a alma que habita em mim. O sangue escorre entre meus dedos em cada papel, em cada folha que começa em branco e termina em vermelho.
Depois, misteriosamente, ela volta a ficar branca.
Minha linguagem grita alguma coisa que ainda não sei nomear.
Talvez eu precise levá-la para a análise.
Talvez exista, dentro de mim, uma palavra que ainda não aprendi a dizer.
Jorge Lannes Junior
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