A Fúria Que Mora em Mim
O Meu Eu Contra Mim Mesmo
Entre a raiva que me consome e a escrita que tenta me salvar
Faço morada em mim, não no outro.
Gosto de depender de mim mesmo, não do outro. Existe em mim uma necessidade quase desesperada de pertencer às minhas próprias mãos, aos meus próprios caminhos.
Depender de alguém me irrita. Me cansa. Me desgasta. Me provoca raiva, fúria, revolta.
Há sentimentos que não passam apenas pelo corpo. Eles se instalam.
O ódio, às vezes, não chega gritando. Ele apenas permanece.
Não escrevo para me alegrar. Escrevo para me desagradar. Para confrontar aquilo que existe dentro de mim e que muitas vezes tento esconder.
Escrevo para que o ódio faça algo em meu favor, para que ele encontre uma direção, um caminho, uma transformação.
Minha alma sangra.
Meus olhos derramam lágrimas vermelhas, como se carregassem tudo aquilo que não consegui expressar.
Minha boca não cospe apenas palavras. Ela expulsa restos de mim, como um corpo tentando se esvaziar de uma dor que já não suporta carregar.
O vazio grita.
A angústia consome.
Mas o ódio continua prevalecendo.
Acendo um cigarro para aliviar a raiva passageira que atravessa meu corpo.
Uma fumaça sobe.
Outra desaparece.
Pensamentos chegam.
Outros se vão.
E talvez seja assim que a vida acontece: em movimentos constantes de chegada e partida, entre aquilo que queima e aquilo que se apaga.
A vida dá passagem para a raiva, para o ódio, para a angústia, para os desprazeres e também para os pequenos prazeres que encontramos pelo caminho.
O mundo parece cruel.
Mas talvez não seja o mundo.
Talvez sejam as pessoas.
Não todas.
Mas muitas.
Pessoas que negam aquilo que não deveria ser negado. Pessoas que abandonam aquilo que deveria permanecer intacto.
Tudo parece ser corrompido por uma força que atravessa a existência humana: o dinheiro.
Ele parece falar mais alto dentro da mente de todos.
Às vezes é necessidade.
Às vezes é escolha.
Às vezes é a própria ausência de humanidade.
Escrevo para encontrar em mim algo que não seja apenas ódio.
Mas o ódio insiste em chegar primeiro.
A escrita percorre.
Eu percorro junto.
Escrevo correndo.
Escrevo depressa.
Escrevo como quem tenta alcançar algo dentro de si antes que desapareça.
Não existe nada que realmente me console no instante de uma raiva intensa que habita meu interior.
Minha alma dispara como uma arma sem direção, atirando pensamentos, dores e sentimentos para todos os lados.
E é justamente assim que, em muitos momentos, eu estou:
Atirando para todos os lados.
Contra o mundo.
Contra os outros.
Contra mim mesmo.
Até que, depois, eu paro.
O silêncio retorna.
Odeio depender de terceiros.
Odeio esperar por algo que sinto que já deveria ter sido meu.
Odeio ser obrigado a fazer aquilo que não desejo.
Mas gostar de algo não significa possuir.
Querer algo não significa ter.
E talvez essa seja uma das minhas maiores batalhas: aceitar que nem tudo está sob o meu controle.
Quero parar de escrever.
Mas não sou eu quem comando isso.
Existe algo desconhecido dentro da minha própria linguagem.
Algo entre a minha angústia, o meu ódio e a minha raiva.
Algo que escreve através de mim.
Do meu eu contra eu mesmo.
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