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O Que Sangra em Mim Não Morre

As marcas do passado, as costuras da alma e os começos que nascem depois das ruínas.

Há desistências que não acontecem no instante em que partimos. Algumas não fazem barulho, não anunciam a própria morte. Apenas se recolhem em algum lugar secreto da memória e permanecem ali, como uma porta antiga que um dia foi fechada, mas continua rangendo dentro da casa vazia da alma. Há coisas que terminam por fora, mas continuam fazendo ruído por dentro.

A memória também desiste. Ela abandona rostos, silencia vozes, desfaz promessas e deixa para trás versões de nós mesmos que já não conseguem sobreviver ao peso do tempo. Às vezes, não perdemos apenas alguém; perdemos quem éramos quando estávamos perto daquela pessoa.

A vida não passa por nós sem deixar marcas. Ela rasga a alma em lugares que ninguém vê e nos entrega uma agulha para costurar aquilo que quase se perdeu. Costuramos o peito não porque a ferida desaparece, mas porque precisamos continuar carregando o coração mesmo quando ele sangra. Existem linhas que sustentam o que ainda pulsa e existem linhas que apenas impedem que a queda seja definitiva.

Dizem que a vida é feita de recomeços. Talvez não seja. Talvez a vida seja feita de começos que nascem depois das ruínas. O recomeço sugere que voltamos ao ponto de partida, como se fosse possível retornar ao mesmo lugar com o mesmo corpo, a mesma alma e as mesmas cicatrizes. Mas ninguém retorna. Tudo aquilo que atravessamos permanece em nós.

O primeiro começo aconteceu quando nascemos. O primeiro grito, a primeira respiração, a primeira ruptura com o silêncio. Depois disso, passamos a nascer inúmeras vezes: nas perdas, nos encontros, nas despedidas, nas quedas e nos momentos em que precisamos nos reconstruir sem saber exatamente quem seremos depois.

Cada perda inaugura um território desconhecido. Cada despedida abre uma porta para um lugar onde nunca estivemos. Cada desistência deixa uma marca, mas também desenha um novo contorno naquilo que somos. Às vezes, é preciso abandonar partes de nós que já morreram para que outras possam finalmente respirar.

Entre o amanhecer e o entardecer, entre a última luz e o primeiro sinal da noite, a existência nos lembra que tudo passa por transformações silenciosas. Nada permanece igual. Nem a dor, nem a alegria, nem aquele que carrega ambas.

Viver talvez seja isso: rasgar a própria alma, sangrar em silêncio, costurar o peito com as próprias mãos e ainda assim encontrar dentro de si uma pequena força para continuar. Não porque as feridas deixam de existir, mas porque aprendemos a caminhar carregando aquilo que um dia tentou nos destruir.

No fundo, nada recomeça. A vida não retorna ao início. Ela apenas encontra novas formas de continuar sangrando, cicatrizando e existindo.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 16 textos
Um livro
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Comentários

Jean
Jean

Eu queria comentar algo mas eu não tenho palavra para o que eu li agora muito intenso


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