Quando a Alma Desperta
Todos os dias, em todas as manhãs, necessito de café para despertar o corpo e acordar a alma. Tenho a impressão de que, durante a noite, ela sai de mim em busca de algo que ainda não consigo alcançar. Então preparo uma xícara, às vezes duas, até que desperto o suficiente para produzir alguma coisa.
Há dias em que não produzo nada. Não porque não haja o que fazer, nem porque eu não queira. Apenas não sei por quê.
Mas o que seria produzir?
Dizem que devemos buscar ser normais. Se nem o meu parto foi normal, por que eu seria?
O normal é uma invenção singular. O que é normal para mim pode não ser para o outro, e o que é normal para o outro talvez nunca seja para mim. Não existe uma única medida para a existência. As teorias da vida explicam alguma coisa, mas jamais explicam tudo. Sempre restará aquilo que escapa.
A minha linguagem pede café. A minha linguagem pede renascimento.
Escrevo justamente para renascer de algum modo, para continuar vivendo neste mundo cruel que também é a minha morada. Não escrevo para me conhecer. Escrevo justamente o contrário: para me desconhecer, para tocar aquilo que em mim não encontra nome. A existência fica espalhada debaixo da mesa, entre os livros, entre a poeira, entre qualquer coisa que insista em permanecer.
Escrevo para que a morte não me alcance depressa. Não a temo. Ela me respeita, e eu a respeito. Talvez seja essa a única forma possível de convivência.
Sou feito de vazios, e não procuro preenchê-los. O que me reúne são as minhas angústias. Também não desejo descartá-las. Faço delas matéria de escrita. Rasgo a alma para continuar vivo. Costuro os buracos do corpo sabendo que, cedo ou tarde, precisarei costurá-los outra vez.
Não existe uma teoria correta para a felicidade. Cada um a encontra à sua maneira. Ela é passageira, como um passageiro dentro de um ônibus: entra, ocupa um lugar por alguns instantes, chega ao destino e vai embora. Depois entram a angústia, o vazio, a tristeza, a melancolia. Todas passam. Nenhuma permanece para sempre.
Talvez sejam palavras tristes. Mas são as palavras que tenho. Ou melhor, são as palavras que me têm.
Escrevo a partir de algo que não sei exatamente de onde vem. Apenas reconheço que há um grito do inconsciente pedindo passagem. Quanto mais me silencio, mais alguma coisa grita dentro de mim.
Hoje amanheci em ira. O mundo nem sempre me agrada. Existem coisas que não dependem de mim e, ainda assim, conseguem me atravessar. Muito antes de um verso ou de uma prosa nascer, sou eu quem se inquieta em silêncio, sem perceber.
E talvez tudo o que escrevi seja apenas uma forma de acordar.
Entre um novo amanhecer e um novo entardecer, não escolho nenhum dos dois.
Escolho servir mais um café.
© 2026. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.
Classificação de conteúdo:
Publicado

Comentários