Entre as horas que se passaram sem eu perceber
Despertei pela manhã e tomei meu café. Não foi um despertar repentino. Fui despertando devagar, como quem retorna de uma longa viagem para dentro de si mesmo. Primeiro abriram-se os olhos, depois os pensamentos foram se ajeitando e, por último, a alma resolveu voltar para o corpo. Há dias em que ela demora mais do que o necessário para regressar.
O alimento estava ali diante de mim, mas não me chamou. Também não fui ao seu encontro com entusiasmo. Apenas nos encontramos por acaso, como dois desconhecidos dividindo o mesmo espaço por alguns minutos. Comi sem fome de mundo, bebi sem sede de nada. Apenas porque os dias costumam exigir essas pequenas formalidades para continuarem existindo.
As horas passaram sem que eu as percebesse completamente. Algumas escorreram pelos cantos da casa, outras ficaram presas nos ponteiros do relógio. E eu ali, habitando o intervalo entre uma tarefa e outra, entre um pensamento e outro, entre uma lembrança e outra.
Quando a noite chegou, entreguei-me novamente ao sono. Dormi por algum tempo, acordei e fui direto ao livro. Há livros que nos escolhem mais do que nós os escolhemos. Terminei mais um capítulo e, quando a última linha ficou para trás, senti algo me puxando para outro lugar. Não era o livro. Era a escrita.
Ela me chamou.
Chamou-me com urgência. Chamou-me com insistência. Chamou-me como uma mãe chama um filho que se afastou demais de casa. Chamou-me sem palavras, mas eu compreendi cada sílaba do seu silêncio.
Então sentei-me para escrever.
Não escrevo porque procuro respostas. Talvez eu escreva justamente porque elas nunca aparecem. Não escrevo para chegar a algum lugar. Escrevo porque ficar parado parece mais difícil. Escrevo porque certas coisas só encontram existência quando passam pelas palavras. Escrevo porque há dias em que o pensamento pesa demais e a folha aceita carregar parte desse peso.
Escrevo para cá. Escrevo para lá.
Tomo um gole d'água.
Levanto.
Caminho alguns passos.
Retorno.
Escrevo mais.
Olho para a janela.
Escrevo de novo.
Escuto um ruído distante.
Escrevo outra vez.
Como se a escrita fosse uma maré que avança e recua sem jamais abandonar a praia.
E assim mais um dia atravessa a minha vida. Ou talvez seja minha vida que atravesse mais um dia. Não sei ao certo. Há perguntas que envelhecem conosco sem nunca encontrar resposta.
Assim se vai mais um dia.
Ou será menos um dia?
Talvez toda existência esteja escondida dentro dessa dúvida. Chamamos de tempo aquilo que passa, mas nunca sabemos se ele está nos acrescentando algo ou nos levando embora aos poucos. O relógio continua trabalhando sem explicar nada. Os calendários continuam mudando suas páginas sem pedir licença. E nós seguimos caminhando entre manhãs, cafés, livros, silêncios e palavras.
No fim, resta apenas o enigma.
E alguns enigmas não nasceram para ser resolvidos.
© 2026. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.
Classificação de conteúdo:
Publicado

Comentários