A palavra que mata o indizível
Sobrevivo à espera de me reconectar comigo mesmo. Sinto saudades de mim. Saudades de escrever. Mesmo escrevendo, sinto saudades da escrita, como se ela tivesse permanecido em algum lugar onde já não consigo alcançar.
Olho para o teto e não vejo nada. Ainda assim, ele parece me dizer tudo. Há um silêncio que me encara antes mesmo que eu consiga encará-lo. Permaneço imóvel, sustentando um olhar que já desistiu de procurar respostas.
Olho para o passado e encontro tragédias. Olho para o futuro e encontro uma ausência. Olho para o presente e encontro um colapso. Talvez seja isso o presente, o instante em que a vida se esquece de acontecer.
Habito uma melancolia que já conhece meu nome. Carrego um vazio que aprendeu a respirar dentro de mim. A angústia deixou de ser visita. Tornou-se morada. Tornou-se íntima. Tornou-se a única presença que nunca se atrasa.
E há uma sede incessante atravessando tudo, uma sede que não pede água porque nunca foi do corpo. Pergunto do que sinto falta e descubro que nem a pergunta sabe responder.
Já não sei exatamente o que escrevo. Talvez seja a escrita que me escreva quando deixo de existir por alguns instantes. Não sei para onde minha alma vai quando desaparece de mim, nem de onde ela retorna quando decide voltar. Há dias em que acordo apenas para descobrir que ainda continuo dormindo dentro de mim mesmo.
O que escrevo aqui é íntimo demais. Por isso preciso escrever devagar, escolhendo cada palavra como quem atravessa um campo minado. Existem palavras que não aceitam ser pronunciadas sem consequência. Algumas apenas dizem. Outras permanecem. E há aquelas das quais preciso tomar cuidado, porque uma única palavra pode ser suficiente para matar tudo aquilo que eu ainda não consegui nomear.
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