A linguagem da falta
Na segunda, a angústia me encontra antes mesmo de eu despertar. Na terça, a falta já conhece o caminho de volta. Na quarta, o vazio não pede licença; apenas senta ao meu lado como quem sempre habitou em mim. Na quinta, descubro que estou excessivamente preenchido por aquilo que jamais me pertenceu. Na sexta, um desejo me atravessa sem revelar o próprio nome.
No sábado, o objeto muda de rosto tantas vezes que já não sei se é ele quem me procura ou se sou eu quem insiste em inventá-lo. No domingo, o desvario desfaz a ilusão de qualquer equilíbrio e me devolve, mais uma vez, ao que não sei dizer. Então chega a segunda-feira, e a repetição recoloca cada coisa em seu lugar, como se o tempo não passasse de um círculo incapaz de encontrar a própria saída.
É quando percebo que jamais concluo coisa alguma. Escrevo. Apenas escrevo. Nem sempre sei o que a escrita procura em mim, mas sei que ela encontra aquilo que minha linguagem jamais conseguiria confessar de frente. Restam fragmentos, vestígios, sobras do que me atravessou durante a semana, durante os dias, durante as horas, durante os minutos e até nos segundos em que imaginei não sentir absolutamente nada.
Há acontecimentos que passam sobre mim; outros apenas roçam minha existência e, curiosamente, são esses que permanecem. Talvez escrever seja o único modo que encontrei de permitir que a linguagem escape das grades onde insisto em aprisioná-la. Ela invade minha alma, encontra um eu que nunca está inteiro e, ainda assim, se recusa a responder quem sou.
Talvez porque essa resposta seja justamente aquilo que sustenta o movimento. Talvez eu escreva não para descobrir uma verdade, mas para não morrer sufocado pelas perguntas. E, se um dia eu vier a saber quem sou, desconfio que esse saber chegará incompleto, porque aquilo que se conhece por inteiro deixa de desejar.
Nesse dia, a solidão talvez permaneça ao meu lado, não como melancolia, mas como a única testemunha de que continuei existindo entre as perdas, as faltas e os excessos. Talvez seja isso que chamam de viver. Eu, porém, prefiro dizer que a vida é esse intervalo infinito entre aquilo que me atravessa e aquilo que jamais conseguirei escrever por completo.
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