O Que Ainda Sangra Depois da Chuva
Quinta-feira, 27 de agosto. Chove, e eu ainda estou vivo. Não sei se isso é vontade de Deus, castigo, milagre ou apenas a linguagem insistindo em me manter de pé quando tudo em mim parece procurar um lugar para cair. Escrevo porque me encrenco com as palavras e, talvez, porque seja menos doloroso me encrencar com elas do que comigo. Há uma pulsão querendo me empurrar para a vida e outra me lembrando, silenciosamente, que toda existência conhece os caminhos da própria ausência. Entre a angústia que sangra e o amor que ainda resiste, vou sobrevivendo ao que sei e ao que seria melhor nunca saber. Talvez a loucura comece quando tentamos compreender demais. Talvez a sanidade seja essa ignorância delicada que nos permite continuar. Então escrevo. Não para encontrar respostas, mas para que a chuva desta quinta-feira não leve embora tudo aquilo que, apesar de tudo, ainda pulsa em mim.
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