Sangue que Não Estanca
Se eu não escrevo, talvez eu possa ser a morte.
E se eu sou a morte, eu escrevo.
E no intervalo disso tudo, eu faço uma travessia.
O que me acontece quando eu digo?
E quando eu digo, algo tem de obedecer.
Mas quando eu não quero, eu viro aquilo que me invade
e faço mesmo assim, como quem assina o próprio corte.
Eu me rasgo, digo que é simbólico, para não confessar o corpo.
Ninguém me conhece inteiro, nem eu.
Eu viro angústia, eu viro falta, eu viro tristeza,
eu viro livro, eu viro capa.
E no final, eu me transbordo,
mas eu me viro no que eu não sei sangrar.
Porque o sangue é dentro, e é de dentro que eu escrevo.
Sem pretensão alguma, eu escrevo.
Não escrevo pra mim, nem para o outro, nem para ninguém.
Aliás, eu escrevo porque escrevo.
Se um dia alguém ler isso e não gostar, que me jogue pedra.
Até porque, no fundo, bem lá no fundo,
não é possível agradar a todos e, às vezes, até a ninguém.
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