A Verdade é que Eu Só Escrevo e Não Espero Nada
Só queria ir para algum lugar, sentar à beira de um penhasco, acender um cigarro e respirar. Mas eu disse queria, não quero. Então me contento com o meu sofá, o meu quarto, um cigarro em brasa e um copo de suco sobre a mesa.
Já fiz as pazes com os dias em que a angústia se derrama sobre o peito e invade cada cômodo do meu ser. Quando o vazio se torna mais profundo, já não tento preenchê-lo. Deixo-o repousar aqui, como quem deixa uma ferida respirar.
Hoje, quando despertei, disse a mim mesmo: nunca mais vou escrever. Mas nunca mais é uma palavra pesada demais para caber na boca de um escritor. E, no entanto, estou escrevendo.
Sou apenas alguém que escreve. Só isso. Sem justificativas. Porque há coisas que, quando explicadas, perdem a própria respiração.
Escrevo para ver se, entre palavras, versos e linhas, encontro algum vestígio de mim. Mas quase nunca me encontro no que escrevo. Às vezes, um lampejo de mim me atravessa. Na maioria delas, porém, sou um estranho diante daquilo que nasceu das minhas mãos.
Talvez isso seja uma dádiva.
Porque olhar para si por muito tempo é um risco. Narciso inclinou-se sobre a água e se perdeu na própria imagem. Talvez seja melhor não me ver nos meus escritos. Talvez seja melhor me encontrar em alguma outra margem.
Mesmo com o vazio, com a falta e com essa angústia que insiste em fazer morada. Mesmo com a linguagem, esse esforço humano de transformar silêncio em palavra.
Escrevo para que alguma coisa ecoe dentro de mim e me permita deixar de ser quem sou, para me aproximar daquilo que ainda não sei ser.
Ou talvez eu já seja aquilo que não sou.
Talvez eu escreva por causa disso.
Nunca se sabe.
A verdade é que eu apenas escrevo.
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