O Que em Mim Ainda Respira Depois do Abismo
O Que em Mim Ainda Respira Depois do Abismo:
Entre o vazio e a dor, existe uma vida que insiste em se escrever.
Em uma fração de segundo, aconteceu. Não sei o que aconteceu, porque antes de existir como palavra, já existia como sensação. Foi um rasgo. Um pequeno abismo abrindo dentro do peito. E eu fiquei ali, diante de mim mesmo, tentando compreender aquilo que não queria ser compreendido. Talvez fosse tristeza. Talvez fosse ausência. Talvez fosse apenas a visita inesperada de algo que mora em mim e que, de tempos em tempos, desperta para lembrar que existe. Mas não importa o nome. O nome, às vezes, aprisiona aquilo que nasceu para permanecer indizível. O que importa é o que faço quando algo dentro de mim se desfaz. Olho pela janela. Não vejo exatamente o mundo. Vejo a fumaça que sai de mim, do cigarro aceso, como se eu devolvesse ao ar uma parte daquilo que não consigo carregar. A fumaça sobe, se desfaz e desaparece. Talvez eu também seja um pouco assim: tentando desaparecer e, ao mesmo tempo, tentando permanecer. Fixo o olhar através da janela e encontro uma estranha intimidade com a minha própria dor. Como se eu fosse, sem perceber, um observador das minhas feridas. Não amo a dor. Eu a rejeito. Ela me atravessa, me incomoda e me lembra que ainda existe algo em mim que sente. Mas existe algo ainda mais profundo do que a dor: o silêncio absoluto, aquele que não grita, não corta, não sangra, apenas paralisa. O vazio que não encontra sequer um lugar para doer. Então prefiro a dor. Prefiro o corte que revela a existência ao vazio que apaga lentamente aquilo que sou. Porque quando dói, alguma coisa em mim responde. Alguma coisa ainda pulsa. A dor é uma pequena luz escondida na escuridão do corpo. Uma luz de ouro. Talvez de prata. Uma luz quase invisível, mas suficiente para sussurrar: ainda há vida aqui. E talvez viver seja isso: encontrar, entre as próprias ruínas, uma parte de si que insiste em permanecer.
Jorge Lannes Junior
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