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A Linguagem dos Domingos

Entre a angústia, o vazio e os enigmas que insistem em permanecer.

Domingo é Dia de Abismos?

Amanheci em tempestades. Talvez em cólera. Não. Não, não, não, não, não. A cólera ainda é pouco quando o que arde não encontra nome. Há incêndios que não produzem fumaça. Apenas consomem, lentamente, aquilo que um dia chamamos de paz.

O mundo já não me agrada.

Tampouco os mentirosos.

Há uma fadiga que nasce quando o direito se transforma em favor, quando aquilo que deveria apenas acontecer passa a depender da vontade de alguém. Talvez seja daí que venha essa espécie de ira que me atravessa. Não uma ira que grita. Uma ira que permanece em silêncio, esperando que o tempo faça aquilo que as palavras já não conseguem fazer.

Domingo é dia de quê?

O que se faz aos domingos?

Espera-se a segunda-feira? Esquece-se da segunda-feira? Ou o domingo nunca foi um intervalo entre dois dias, mas um lugar onde o sujeito acaba encontrando aquilo que passou a semana inteira evitando?

Há domingos que amanhecem antes do sol.

Começam dentro da cabeça.

Começam na insônia.

Começam na lembrança de uma vida que nunca aconteceu.

Talvez a angústia tenha escolhido o domingo como morada. Não porque o domingo a convide, mas porque os outros dias fazem barulho demais para que ela consiga falar.

Acendo o cigarro.

A fumaça sobe como se soubesse o caminho que eu desconheço. Há perguntas que aprendem a morar na fumaça. Elas sobem, desaparecem e, ainda assim, permanecem.

Domingo pode ser apenas a antecipação que cada sujeito oferece à própria segunda-feira. Uma espécie amarga de saber que será preciso regressar às obrigações, às cobranças, às burocracias da existência.

Mas talvez exista uma dor ainda mais silenciosa.

A de saber que segunda-feira nenhuma mudará coisa alguma.

Que será a mesma coisa da coisa, da coisa, da coisa.

A repetição também adoece.

Entre os domingos, gosto dos sábados.

Entre os sábados, já não gosto de nada.

E o domingo?

Onde está?

Coitado do domingo.

Recebe culpas que jamais lhe pertenceram. Acusam-no pelo vazio, pela solidão, pela ansiedade, pela saudade, como se um único dia tivesse inventado tudo aquilo que apenas encontra espaço para respirar quando o restante da semana finalmente se cala.

O problema nunca foi o domingo.

O problema nunca foi o mundo.

O problema continua sendo gente.

Gente que abandona. Gente que promete. Gente que mente. Gente que passa pela vida dos outros como quem nunca percebeu que toda ausência também deixa uma assinatura.

Talvez seja por isso que eu escreva.

Não para vencer o vazio.

Não para preencher a falta.

Muito menos para encontrar respostas.

Escrevo porque existem perguntas que adoecem quando permanecem caladas. Escrevo porque algumas palavras pesam mais dentro do corpo do que sobre o papel. Escrevo porque o silêncio, às vezes, exige sangue para continuar existindo.

Que este domingo seja leve.

Ou, pelo menos, menos pesado do que os anteriores.

E o amanhã?

Não sei.

O amanhã sempre pertenceu aos insolentes, aos otimistas ou aos distraídos. Eu continuo pertencendo aos enigmas. Eles me esperam em cada esquina, caminham pelas ruas como velhos conhecidos e, de vez em quando, sentam-se ao meu lado sem pedir licença.

Talvez eu nunca decifre o vazio.

Talvez o vazio seja justamente aquilo que insiste em me decifrar.

No fim, desconfio que o domingo nunca tenha sido um dia.

Sempre foi um espelho.

E há espelhos diante dos quais nem todos conseguem permanecer por muito tempo.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 1 K leituras
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